Hélvio Romero - 08/12/2014
Hélvio Romero - 08/12/2014

Clélia Clay desponta como esperança de medalha para 2016

Boxeadora paulista, que nunca havia passado da segunda rodada num Mundial, conquistou o bronze em Jeju, na Coreia do Sul

Alessandro Lucchetti, O Estado de S. Paulo

22 de janeiro de 2015 | 15h50

 Até o Mundial de Jeju, na Coreia do Sul, em novembro, Clélia Marques da Costa era lembrada apenas por associação a lendas do boxe. No início da carreira amadora, nas saudosas noitadas pugilísticas do ginásio Baby Barioni, na Água Branca, chegou a ser chamada de "Taysinha", por ter um pequeno vão entre os dentes frontais, que remotamente lembra Mike Tyson, e gostar de andar com uma touca. Depois, passou a ser chamada de Clélia "Clay", o sobrenome de batismo de Muhammad Ali, pois um técnico cubano, que trabalhava para a Confederação Brasileira, a confundia com outra lutadora, chamada Keila. Mas a campanha no Mundial da Aiba (Associação Internacional de Boxe Amador), que lhe rendeu uma medalha de bronze na categoria dos 51kg (que é olímpica), agora a situa, por méritos próprios, em outro patamar, aquele dos atletas brasileiros que podem aspirar a um pódio nos Jogos Olímpicos de 2016.

A conquista de Clélia, que treina há oito anos, é o triunfo da persistência. Aos 26 anos, ainda não sabe o que é participar dos Jogos Olímpicos e nem mesmo dos Jogos Pan-Americanos. Nas duas primeiras participações em Mundiais, não havia conseguido passar da segunda luta.

E talvez não tivesse conseguido passar da estreia em Jeju se tremesse diante da importância da adversária, a francesa Sarah Ourahmoune. Mas Clélia nem sabia que estava enfrentando a campeã do Mundial de 2008. "Fui saber depois da luta que ela havia sido campeã de um Mundial".



No duelo seguinte, coincidentemente foi encarar a australiana Kristy Harris, com quem havia treinado durante um camping de treinamento da seleção brasileira que durou 12 dias em Canberra, na Austrália. "Já sabia como ela lutava. Tratei se ser agressiva. Eu tinha que ser mais esperta do que ela".

Na luta das quartas de final, que já valia medalha, Clélia superou a russa Saiana Sagataeva, para quem havia perdido em outra competição, na Polônia. "Era a luta da medalha. E a Clélia se desenvolveu com o aprendizado que teve com aquele resultado. Apresentou maior variação de golpes, soube trabalhar a distância e se defender com jogo de pernas e a guarda", diz Cláudio Ayres, técnico da seleção brasileira e mentor do projeto social onde Clélia começou em 2006, num Centro Esportivo Municipal em Santo Amaro.

Na semifinal, Clélia foi derrotada pela norte-americana Marlen Esparza, que obteve o bronze nos Jogos Olímpicos de Londres. "Quero treinar bastante para melhorar. Meu objetivo é lutar novamente com ela e vencer. Sei que vai haver outros campeonatos e vamos nos encontrar novamente. Quero ser sempre melhor do que antes", diz a boxeadora.

Ela teve que mostrar essa determinação desde o início. Clélia começou no boxe depois de uma brincadeira do pai, que é ajudante de obras. Enquanto fazia um serviço em casa, ele pediu para a filha buscar uma lata com areia. "Eu carreguei a lata com facilidade, aí ele disse que eu tava muito forte, parecendo o Tyson, e perguntou: 'por que você não vai lutar boxe? Eu fui'".

Clélia, que mora no Jardim Ângela, descobriu o projeto de Ayres e começou a frequentá-lo. A mãe não dava dinheiro para a filha "levar soco na cara". "Ela me dava dinheiro para ir à escola. Aí eu ia para a escola e depois para a academia, a pé. Em algumas vezes que precisei, o cobrador e o motorista me deixaram passar por baixo da roleta ou descer pela frente".

Moradora de um bairro com alto índice de criminalidade, Clélia nunca anda com o uniforme da seleção pelas ruas do Jardim Ângela. "Alguém pode querer provocar, medir força com uma boxeadora. Não quero chamar a atenção".


    

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