Michael Nagle |NYT
Michael Nagle |NYT

COI muda regra e permite atletas transgêneros na Olimpíada

Operação de mudança de sexo deixa de ser obrigatória

Gustavo Zucchi - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

28 Maio 2016 | 17h00

Os atletas transgêneros conquistaram em 2016 uma vitória fora dos campos e das quadras. No começo deste ano, o Comitê Olímpico Internacional mudou sua resolução sobre atletas transexuais em competições oficiais. Segundo a entidade, agora homens podem participar dos eventos da entidade sem nenhuma restrição e as mulheres precisam apenas ter a quantidade de testosterona controlada para poder competir em equipes femininas, mais precisamente não podem ter mais de 10 nanomol por litro (unidade de medida que indica a quantidade da substância por litro de sangue) do hormônio no sangue nos 12 meses anteriores à competição. A necessidade de cirurgia de mudança de sexo não é mais necessária. 

Mas não vai ser no Rio de Janeiro que o primeiro transgênero vai competir. Quem chegou mais perto foi o norte-americano Chris Mosier. Atleta do biatlo, ele chegou a tentar a vaga olímpica para disputar o triatlo na Olimpíada deste ano, mas não conseguiu. Mas estará no Campeonato Mundial de Biatlo, nos dias 4 e 5 de junho, em Aviles, na Espanha.

“Eu não vou estar na Olimpíada este ano, já que o biatlo não é um esporte olímpico. E eu estou bem em relação a isso. Já é uma grande honra representar meu país em uma competição internacional e ser o primeiro atleta transgênero homem na equipe norte-americana. Também vou ser o primeiro atleta a competir internacionalmente após a nova política do COI. Estou animado em abrir novas portas para atletas transgêneros no futuro”,diz Mosier.

Chris compete entre os homens desde 2010. Seis anos antes, o COI se movimentava pela primeira vez em relação a atletas que se identificavam com um sexo diferente do de nascença. O que passou a vigorar na ocasião foi decidido no Congresso de Estocolmo, em 2004. As regras eram mais rígidas. 

Além da necessidade da cirurgia de mudança completa (o que foi derrubado em 2016) e da terapia hormonal direcionada a cada sexo, era preciso ter o reconhecimento legal da mudança em seu País de origem, uma dificuldade devido às legislações específicas. As restrições mantinham os transgêneros apenas nas competições específicas, como os Gay Games (o próximo será em 2018, em Paris). 

“A possibilidade agora está aberta. Em algum lugar um jovem está se apaixonando por um esporte e não terá que comprometer sua identidade nem como pessoa, nem como esportista, para ser um futuro atleta olímpico. As portas estão abertas. A mudança na política do COI é um enorme passo em direção a inclusão dos transgêneros no esporte de alto desempenho”, afirma Mosier.

NO BRASIL

A mudança deve beneficiar atletas pelo mundo inteiro que ainda sofrem com o preconceito. Entre os brasileiros, não há esportistas de alto desempenho que se enquadrem nos pré-requisitos do COI. Entre os amadores, estão e Ohara Santos. Nascida Franscismar e hoje com 33 anos, joga vôlei pelo time da cidade de Santa Isabel. Sempre atuando em equipes masculinas.

“Mesmo já mais veterana, se eu tivesse a oportunidade de jogar em um time feminino seria um sonho. Realmente me sentiria mais completa. Seria um avanço”, explica Ohara. 

TRÊS PERGUNTAS PARA:

Érico dos Santos, presidente da Confederação Brasileira Desportiva LGBT

1. Como a entidade vê as novas regras do COI?

Estão perfeitas. Aqui no Brasil existe uma dificuldade muito grande para se fazer cirurgia de mudança de sexo. Eu conheço atletas trans que poderiam participar de equipes de alto rendimento. Foi um gol a favor do COI. 

2. Quando haverá transgêneros na Olimpíada?

Acredito que no próximo ciclo olímpico, mas não brasileiros. O COB precisa reconhecer, respeitar e divulgar a legislação internacional.

3. Como o Rio-2016 está lida com a questão?

O Rio deverá ter os Jogos mais inclusivos da história. Estão contratando transexuais e estão trabalhando pela presença trans na cerimônia de abertura. Estão de parabéns.

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Gustavo Zucchi - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

28 Maio 2016 | 17h45

Chris Mosier é um exemplo dentro do esporte americano. Competindo entre os homens desde 2010 e se preparando atualmente para disputar o Mundial de Biatlo, é mais do que pioneiro como primeiro trans na equipe americana da modalidade. Ele dedica seu tempo livre em um trabalho voltado para inclusão de jovens transexuais. 

O desafio seria ainda maior que um transgênero conseguir disputar os Jogos Olímpicos. Segundo Mosier, o preconceito ainda é uma barreira a ser vencida dentro do esporte, seja nos Estados Unidos, seja em qualquer outra parte do mundo. 

"Eu aconselho os jovens trans com 'pode ser feito'. Todo dia transgêneros tem de quebrar barreiras. É possível para um transexual não ter de desistir do seu amor pelos esportes. Mulheres trans (que nasceram com o sexo biológico masculino) ainda experimentam grandes níveis de discriminação e violência, na vida e no esporte. O maior desafio é superar as políticas e regulações que ainda são pouco claras", afirma Chris.

Por meio do seu site TransAthlete.com, ele trabalha com políticas de inclusão e ensina a melhor maneira de tratar o tema.

"Meu site é para atletas, treinadores e administradores com políticas de inclusão para trans em vários níveis. Eu também sou o mentor de jovens atletas transgêneros, consultor para organizações esportivas que buscam melhorar em termos de inclusão. Faço também treinamentos em colégios", explica o norte-americano.

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