COLUNA-A perfeição, a todo custo. E a força das brasileiras

Quando todos esperavam uma Olimpíadade Pequim marcada pela alta tecnologia -- os próprios chineseschamaram seus Jogos de "hi-tec" --, um outro aspecto sesobrepôs a ela, abrindo margem para discussão e reflexão: apossibilidade de situações e imagens serem manipuladas, eencarando-se isso com naturalidade. Um dos momentos mais expressivos da cerimônia de aberturaforam as "pegadas gigantes" saindo do sul da cidade, rumo aoEstádio Ninho do Pássaro, feitas com fogos de artifício -- eque, na verdade, foram pré-gravadas e então "acrescentadas" naapresentação ao vivo, para todo o planeta. Já há alguns anos os publicitários descobriram o esportecomo "última reserva" de emoções verdadeiras, e imagenscapturadas de rostos em agonia durante corridas, ou na luta porpontos, ou em esforço máximo, em celebrações e choros sentidos,passaram a fazer parte do arsenal da propaganda. Mas os chineses dominaram a arte de manipular situaçõespara encaixá-las em seu padrão de perfeito. E assim foi. Como se viu desde a tão recriminadasubstituição da minicantora, com voz colocada no playback, poroutra mais "apresentável", na dublagem de uma canção. Ou com arevelação de que as garotas das cerimônias de pódio precisavamter medidas-padrão de rosto -- até com determinada relação dedistância da boca em relação às pupilas. E que seu sorrisoprecisava mostrar exatamente oito dentes, com abertura dasarcadas de menos de um centímetro (na verdade, da largura dehashis -- os "pauzinhos" para se pegar a comida --, segurospela mordida treinada durante meses). Também se pode lembrar da tentativa de controlar a chuva,do arrasa-quarteirão que deu lugar a estádios e arenas, dosumiço de manifestantes. E também do doping, que em últimainstância tenta enganar os espectadores -- e por tabela, tambémpatrocinadores e anunciantes. Alguns foram pegos, mas notíciasdão conta de que o doping genético já está aí, com genes decélulas manipulados para que o corpo produza seu "autodoping". A NBC, rede de TV norte-americana, há anos já sacrificatransmissões ao vivo, e grava teipes para que o público assistaàs competições na hora que mais convier aos anunciantes... Com Pequim, terá a China antecipado uma era olímpica ondetambém as disputas e jogos poderão ter imagens manipuladas,recortadas e re-arrumadas, de acordo com interesses diversos? Os chineses brincaram com as manipulações e cutucaram algoque pode se tornar perigoso para o movimento olímpico e mesmopara anunciantes: a boa-fé do público. FORçA FEMININA Já se avizinhava uma demonstração maior de força femininade chegada, por parte das brasileiras. E também assim foi, comalgumas falhas esperadas, algumas boas surpresas e com medalhasconquistadas. Se a ginástica feminina poderia ter conseguidoapresentações melhores, o atletismo confirmou a disposição deMaurren Maggi, quando retornou aos treinos já mostrando seuprivilégio genético depois de vários meses parada, e oresultado de um trabalho duro, com os técnicos Nélio e TâniaMoura, para chegar ao ouro. Fabiana Murer protagonizou uma dascenas mais absurdas, passando da concentração total aodesespero, pelo sumiço de uma das varas para a prova de salto,e não pôde mostrar a performance que tinha lhe valido aterceira marca da temporada. A seleção feminina de futebol mostrou o quanto é forte esabe jogar bonito, seguindo no entanto no patamar da prata. Enquanto isso, as garotas da classe 470 da vela comemoravamtanto, que Fernanda Oliveira (que correu com a proeira IsabelSwan) até se confundiu, chamando de ouro a medalha que era debronze. Nas lutas, literalmente, o judô revelou o rosto de umadeterminada Ketleyn Quadros (até 57kg), bronze olímpico aos 20anos. E o taekwondo, a determinação de Natália Falavigna (maisde 67kg) na conquista do bronze, sem ter passado à final pordecisão da arbitragem. Mas, acima de tudo, de Pequim ficou a imagem da alegriapelo ouro, por parte das jogadoras da seleção de vôlei, sob aorientação do técnico José Roberto Guimarães (que tem ao lado opreciosíssimo trabalho do preparador físico José Elias deProença). Ficou o ouro para a levantadora Fofão, assimapelidada ainda juvenil pelo próprio Zé Roberto, rainhafinalmente coroada, aos 38 anos.

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