WASHINGTON ALVES/COB/DIVULGACAO
WASHINGTON ALVES/COB/DIVULGACAO

Com dinheiro público, Nuzman transformou COB numa entidade multimilionária

Ex-jogador de vôlei, cartola foi casado com jornalista e fracassou na tentativa de fazer do Brasil uma potência olímpica

Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2017 | 14h05

Os discursos carregados de emoção e gafes nas cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos, no ano passado, foram os últimos atos de protagonismo do presidente do COB (Comitê Olímpico do Brasil), Carlos Arthur Nuzman, 75 anos, antes de ser investigado e acusado de fazer parte de um esquema de corrupção internacional para a compra de votos para a escolha do Rio como sede da Olimpíada de 2016.

Nos Jogos do Rio, Nuzman fracassou ao não atingir a meta proposta pelo COB de alçar o Brasil entre os dez primeiros colocados pelo número total de medalhas - com 19 pódios (sete ouros, seis pratas e seis bronzes), o País ficou apenas na 13.ª colocação. O cartola também decepcionou em abril deste ano, quando perdeu a eleição à presidência da Organização Desportiva Pan-Americana (Odepa). Apontado como favorito, acabou ficando em terceiro - e último - lugar. No mês seguinte, pediu demissão da Organização Desportiva Sul-Americana (Odesur), entidade que presidia havia 14 anos.

No ano passado, também encerrou um casamento de quase duas décadas com a jornalista Márcia Peltier. Os fracassos acumulados nos últimos anos contrastam com uma carreira como dirigente esportivo que chamou atenção pela rápida ascensão. Ex-jogador de vôlei, Nuzman defendeu o Brasil nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1964. Após abandonar as quadras, não demorou muito tempo para chegar ao posto mais importante da modalidade e assumir a presidência da CBV (Confederação Brasileira de Vôlei) em 1975.

A união de marketing com bons resultados obtidos pela seleção o fizeram liderar, em 1979, um movimento de oposição ao major Silvio de Magalhães Padilha e lançar a sua candidatura ao COB. Com a promessa de aumentar o número de medalhas conquistadas pelo Brasil nos Jogos de Moscou-1980 (mesma estratégia usada para a Rio-2016), desafiou o poderoso major e o seu principal cabo eleitoral, o então presidente da Fifa, João Havelange. À época, foi chamado de inovador, mas acabou derrotado.

O vôlei se popularizou com Nuzman e o cartola perseguiu o comando do COB por 15 anos até que, em 1990, assumiu a vice-presidência da entidade numa época em quem novos grupos de investidores entraram no esporte e os patrocinadores passaram a ter maior visibilidade na mídia. Acumulou o cargo no COB com o comando da Confederação de Vôlei e foi eleito presidente da entidade em 1995. O seu plano era transformar o Brasil em uma potência olímpica a médio prazo. Dizia que, em oito anos, formaria uma geração de atletas vencedores.

Mesmo com a injeção de dinheiro público na entidade, não conseguiu fazer do Brasil uma potência olímpica passadas mais de duas décadas. Foi na sua gestão que o COB passou a contar, a partir de 2001, com recursos da Lei Agnelo/Piva, que destina parte da arrecadação das loterias federais ao esporte, e transformou-se em uma entidade multimilionária. Em 2002, por exemplo, foram repassados R$ 50 milhões. Para 2017, o COB trabalha com uma estimativa de arrecadar R$ 210 milhões.

A primeira grande conquista de Nuzman à frente do COB no cenário internacional veio em 2002, quando o Rio ganhou o direito de sediar os Jogos Pan-Americanos de 2007. Com o apoio de políticos, em 2009, Nuzman liderou a candidatura do Brasil para os Jogos Olímpicos de 2016. A vitória veio em 2009. Anos mais tarde apareceram as acusações de que a escolha foi fraudulenta.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.