Fabio Motta/Estadão
Robert Scheidt, acima, vai em busca de sua sexta medalha olímpica. Fabio Motta/Estadão

Com número recorde, Time Brasil tem novatos que querem mostrar serviço

Delegação brasileira terá 465 atletas na olimpíada

Marcio Dolzan e Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2016 | 05h00

O Brasil vai entrar na Olimpíada com uma delegação formada majoritariamente por novatos. Dos 465 atletas que representarão o País nos Jogos, 316 estarão pela primeira vez nesta competição. Além disso, algumas modalidades estreiam, como badminton, ginástica de trampolim e hóquei sobre grama.

O perfil dos atletas é o mais variado possível, com representantes de quase todos os estados e até de outros países. E é nesse caldeirão de sotaques que o Brasil tentará atingir sua melhor colocação na história dos Jogos, justamente no momento que entra em ação com o maior número de atletas.

A jogadora Izabella Chiappini, por exemplo, fará sua estreia nos Jogos Olímpicos junto com o polo aquático feminino, pois o Brasil nunca conseguiu participar da competição antes. A menina de 20 anos é um grande talento da nova geração e atuará justamente em casa.

“A preparação está sendo boa. Fomos para China, Itália, Holanda, Espanha e estamos treinando forte. Mas sabemos que será muito difícil, porque as outras seleções já vêm treinando há muito mais tempo. De qualquer forma, a gente espera ter uma boa atuação para tentar uma boa colocação”, diz.

Sua família é toda voltada para o polo aquático. Seus pais jogaram, seu irmão joga e a relação sempre foi dentro da piscina. “Desde pequena eu convivo com isso. Ficava na borda da piscina vendo eles treinarem”, conta Iza, que tem hoje o pai como auxiliar da seleção brasileira.

O grande talento da menina é na hora de decidir. Artilheira por onde passa, foi eleita a segunda melhor jogadora do mundo e sonha alto. “Espero que nossa participação na Olimpíada ajude o polo aquático. Na minha carreira, espero jogar mais edições dos Jogos e quero ser considerada a melhor jogadora do mundo. Eu sempre treinei bastante, mesmo depois de acabar as atividades, e acho que também tem um pouco de talento envolvido”, afirma.

O caso de Iza é semelhante ao de outras atletas. Aos 22 anos, a atacante Bia, da seleção feminina de futebol, vai disputar os Jogos pela primeira vez.”É um sonho sendo realizado”, disse a jogadora, que é tricampeã sul-coreana pelo Hyundai Red Angels. Hospedada com o restante do time na Vila dos Atletas desde o início da semana, ela afirmou que o clima olímpico ajuda. “É o melhor possível pra gente. A Olimpíada é nosso sonho, nosso foco e nosso objetivo.”

 

O ginasta Sérgio Sasaki é outro que já se sente plenamente um atleta olímpico. E esse sentimento aumentou no domingo, quando ele chegou à Vila. “A expectativa era grande. Todo mundo queria vestir esse uniforme do Time Brasil e vir para a Vila para sentir o espírito olímpico”, afirmou. “Estar aqui dentro da Vila já ajuda a aumentar o foco na competição.”

A experiência olímpica ajuda a transformar os atletas. Mesmo que as chances de medalha sejam remotas, para alguns atletas passar por esse teste é importante para o futuro. Bruna Takahashi, do tênis de mesa, foi chamada para os Jogos do Rio e é a atleta mais nova da delegação, com 16 anos.

Nos Jogos Pan-Americanos de Toronto, no ano passado, ela era apenas uma promessa e nem convocada foi. Mas os bons resultados na reta final a colocaram na equipe e agora ela terá a chance de adquirir experiência para muitas outras Olimpíadas que pode ter pela frente.

Esse foi o caso de Ana Sátila, da canoagem slalom. Nos Jogos de Londres ela era a caçula da delegação, com apenas 16 anos, mas agora chega ao Rio com uma experiência de Olimpíada nas costas e até com chance de brigar por uma medalha.

“Creio que cresci no esporte com essa experiência. Na época não consegui alcançar vaga nas semifinais, mas hoje estou mais maduro e chego com mais responsabilidade. Em 2012 tudo era novo, hoje consigo driblar mais isso e focar nos meus objetivos”, explica.

VETERANOS

O Time Brasil também conta com atletas experientes. São 149 atletas que já disputaram uma Olimpíada antes e que vão ajudar o País a ir em busca das medalhas. O velejador Robert Scheidt, por exemplo, vai em busca de sua sexta medalha: ele tem duas de ouro, duas de prata e uma de bronze.

No total, dos 465 atletas do Time Brasil, 36 já subiram ao pódio. Entre os vitoriosos estão nomes como Jaqueline, Sheilla, Thaisa e Serginho, do vôlei, Sarah Menezes, Mayra Aguiar, Rafael Silva e Tiago Camilo, do judô, e Arthur Zanetti, da ginástica artística, entre outros.

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'Gringos' vestem a camisa verde-amarela para a Olimpíada

Dos 465 competidores do Time Brasil, 23 nasceram fora do País

Demétrio Vecchioli, enviado especial ao Rio, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2016 | 05h00

O Brasil chega aos Jogos do Rio com uma delegação recorde em número de atletas brasileiros e também de estrangeiros. Dos 465 competidores do Time Brasil, 23 nasceram fora do País. Alguns deles foram criados em terras brasileiras, mas a maioria cresceu no exterior e só durante a preparação para o Rio-2016 começou a defender o País.

Rosângela Santos, por exemplo, é carioca da gema, neta de fundadores da Mocidade Independente de Padre Miguel. Mas ela nasceu nos Estados Unidos, num período no qual os pais foram morar lá. Voltou para cuidar de uma pneumonia quando ainda era bebê e ficou no Rio.

Nas piscinas o Brasil também tem seus ‘gringos’. Cada uma das duas equipes de polo aquático tem um goleiro estrangeiro. Mas as duas histórias são completamente opostas. Tess Oliveira - assim como a irmã Amanda, também convocada - nasceu nos EUA e cresceu no Brasil. Vai à primeira Olimpíada. Já o goleiro Slobodan Soro vai aos Jogos pela terceira vez.

Sérvio, ele ganhou o bronze em Pequim e repetiu a façanha em Londres. Por um projeto da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), foi contratado para defender o Brasil, ainda que nunca tivesse morado aqui. Sua naturalização foi concedida em caráter especial pelo governo, mas só recentemente ele foi liberado esportivamente para defender o Brasil. 

Outro que sofreu para se naturalizar foi o lutador Eduard Soghomonyan, mas na ordem contrária - a cidadania “civil” só saiu no mês passado, um ano após ele começar a competir. Ele vive no Brasil desde 2012 e, inicialmente, não teve apoio da confederação de luta. 

Já as de rúgbi e hóquei sobre a grama apostaram na busca por atletas estrangeiros com passaporte brasileiro ou que tivessem a oportunidade de obtê-los. O britânico Juliano Fiori, do estreante rúgbi sevens, chegou à seleção depois que seu pai, brasileiro, encontrou a delegação sem querer em um aeroporto e contou que seu filho jogava na Inglaterra. 

Descendentes de brasileiros, aliás, são maioria entre os estrangeiros. São os casos, entre outros, do remador Xavi Vela, cujo irmão disputará a Olimpíada pela Espanha, e Nathalie Moellhausen, campeã mundial de esgrima pela Itália.

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'O tae-kwon-do me permitiu reformar a casa da família', conta Venilton Teixeira

Atleta lutou contra a ameaça do tráfico e a pobreza da periferia de Macapá para virar aposta no esporte

Antonio Pita, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2016 | 05h00

Franzino e ainda com marcas da adolescência no rosto, Venilton Teixeira, de 21 anos, soube cedo aliar força à determinação para despontar como aposta da equipe de tae-kwon-do nos Jogos Olímpicos do Rio. Nunca conheceu o pai; a mãe o deixou três dias após o parto. Dos 17 irmãos, cinco morreram. Os colegas dos primeiros treinos foram aliciados por quadrilhas de traficantes de drogas na periferia de Macapá. Seu maior incentivador, o avô, morreu antes de vê-lo ganhar a primeira medalha, há quatro anos.

“É difícil jogar contra a corrente, mas eu consegui”, disse Teixeira, único representante do Amapá do Time Brasil nos Jogos, ao Estado.

Venilton é o 9.º colocado no ranking mundial da categoria até 54 kg. No último ano, ficou com o bronze no Mundial da Rússia. Também subiu ao topo do pódio no aberto dos EUA. As viagens foram sua primeira motivação no esporte: já passou por Turquia, México, Coreia do Sul e Egito. “Isto é só o começo. No próximo ciclo olímpico, estarei no auge”, prevê o rapaz. 

O tae-kwon-do é uma luta baseada em técnicas defensivas, com movimentos de precisão. A prática inspira no atleta autoconfiança para superar limites, com paciência e disciplina. A filosofia coreana por trás de um projeto social em Cuba do Asfalto, periferia alagadiça de Macapá, foi determinante para o jovem atleta.

“O bairro era muito perigoso, e o risco da criminalidade, muito grande. Muitos amigos seguiram esse caminho porque era o mais fácil”, conta.

Na época, aos 14 anos, ele era o mais indisciplinado entre dez crianças, irmãos e primos, que moravam com a avó Venina. “Cansei de correr atrás dele com a vassoura para tirar da rua”, disse a senhora de 58 anos, que trabalhou de diarista a carregadora de entulho para sustentar a casa. O avô do garoto era ambulante. Venilton também o ajudava, vendendo de açaí a crochê.

“Tudo que era projeto social eu corria com ele. Tentei capoeira e hip hop, mas ele não gostava porque seu nome não era chamado no microfone. Eu dizia: ‘calma, você ainda vai dar muita entrevista’”, relembrava Venina, enquanto preparava o lanche para o treino do neto, na semana passada. “Ele só pensou em desistir quando o avô morreu. Não tinha forças nem para chorar”, revelou.

Um acidente de carro impediu o avô de assistir pela televisão a final do primeiro Campeonato Brasileiro do neto. “Ele me dava muita força no esporte. Foi mais um incentivo para continuar treinando e chegar onde estou”, disse Venilton, que planeja ir mais longe.

“O tae-kwon-do me permitiu reformar a casa da minha família. Quero fazer um projeto para permitir isso a outras crianças”, completou. 

Seu irmão mais novo, de 14 anos, já segue os passos. A avó, que nunca assistiu a uma luta, tenta controlar a ansiedade e o nervosismo para pegar um avião, sair de Macapá pela primeira vez e torcer pelo neto nos Jogos Olímpicos do Rio, nas competições que começam no dia 16 de agosto. “A medalha vem, com certeza. Para mim, ele vale ouro”, disse.

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Atletismo é a modalidade com mais representantes no Time Brasil

Especialistas dizem que número de 67 atletas classificados para os Jogos já é uma conquista

Nathalia Garcia, enviada especial ao Rio, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2016 | 05h00

Com 67 atletas - 36 homens e 31 mulheres -, o atletismo é o esporte com mais representantes do Brasil nos Jogos Olímpicos. A modalidade bateu também o seu próprio recorde de participantes. Nos Jogos de Atlanta, em 1996, o atletismo brasileiro contou com 42 integrantes. Essa quantidade na Olimpíada do Rio já é vista como uma conquista por especialistas.

“Só o fato de a gente conseguir classificar um número grande de atletas, isso já é um bom resultado para a gente. Era a nossa primeira meta: estabelecer o recorde de participantes nos Jogos Olímpicos”, exaltou o técnico Nélio Moura.

À medida que o número de representantes cresce, aumenta a ambição por resultados. De acordo com o treinador, o segundo objetivo da delegação brasileira é conseguir classificar dez atletas para as finais. O principal nome é Fabiana Murer, do salto com vara.

Apesar das projeções, Nélio evita enumerar quantas medalhas o atletismo pode conquistar no Rio. “Historicamente, a gente conquista uma ou nenhuma medalha. É difícil do ponto de vista estatístico estabelecer um número de medalhas. A gente quer conquistar alguma.”

O segundo colocado na lista de representantes é o futebol, com 36 nomes. Na sequência, aparece a natação (33). A partir daí, os esportes coletivos dominam a lista - handebol, polo aquático, basquete, vôlei e rúgbi. Na outra extremidade, estão as modalidades que o Brasil têm menos tradição.

É o caso do badminton, que levará apenas dois atletas - Ygor Coelho e Lohaynny Vicente - e que o Brasil nunca havia se classificado para disputar uma Olimpíada. Também é inédita a classificação do ciclismo de pista, que terá Gideoni Monteiro no Omnium.

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