Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Roberta Pennafort e Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

21 Agosto 2016 | 05h00

Um carnaval fora de época em pleno gramado do Maracanã. É o que os organizadores da cerimônia de encerramento da Olimpíada anunciam para a noite deste domingo. Se na abertura a missão era apresentar as maravilhas da cidade-sede, agora o clima é de festa, de comemorar o sucesso dos Jogos ao som de samba, frevo, forró, baião, xaxado e outros ritmos brasileiros.

Criada pela carnavalesca Rosa Magalhães, dona do maior número de títulos do carnaval no Sambódromo carioca (seis campeonatos em 32 anos), a cerimônia terá ícones tanto dos desfiles das escolas quanto do carnaval de rua. Baianas, passistas, casais de mestre-sala e porta-bandeira, ritmistas e um carro alegórico com esculturas de papagaios vão remeter à Sapucaí.

Na trilha sonora, pelo menos dois sambas-enredo históricos: É Hoje (é hoje o dia da alegria/ e a tristeza não pode pensar em chegar), da União da Ilha (1982) e Festa Para um Rei Negro (Ô-lê-lê, ô-lá-lá/ pega no ganzê/ pega no ganzá)”, do Salgueiro (1971). O Cordão da Bola Preta, bloco centenário que sai pelas ruas do centro do Rio desde 1918 – o mais antigo da cidade, é acompanhado atualmente por 1 milhão de pessoas – será representado pela atriz Leandra Leal, sua porta-estandarte.

O ponto de partida do roteiro, que exalta o talento brasileiro, será a Serra da Capivara (PI), sítio arqueológico que reúne os mais antigos vestígios e ocupação humana da América do Sul, de 50 mil anos atrás – coincidentemente, presente no noticiário esta semana por seu estado de penúria: sem repasses, o parque pode fechar. O ápice será o carnaval. “O Rio é uma cidade que tem como hino uma música de carnaval, Cidade Maravilhosa.

A cerimônia marca o fim do fogo olímpico, portanto, tem um toque melancólico. Mas vamos mostrar uma festa alegre, que marque um recomeço. Há uma certa semelhança com o desfile das escolas campeãs do carnaval. Só que lá sempre falta algo, e aqui não faltará nada”, garantiu Rosa, que ganhou um Emmy, o principal prêmio da TV mundial, pela abertura dos Jogos Pan-Americanos de 2007, no mesmo Maracanã. O segmento artístico da cerimônia foi elogiado pela beleza das fantasias e alegorias que retratavam a fauna brasileira.

SEM ENSAIO

A carnavalesca se ressentiu da proibição de fazer um ensaio geral da cerimônia no campo do Maracanã – ontem, ocupado pela disputa do ouro e do bronze do futebol masculino – e também das medidas limitadas das entradas do estádio: “O Maracanã impõe restrições, pois sua maior porta tem quatro por cinco metros. Mesmo assim, garanto que teremos surpresas, como um elemento que vai chegar a 20 metros de altura”, contou.

O fato de a abertura ter sido criada por um trio de cineastas (Fernando Meirelles, Andrucha Waddington e Daniela Thomas) e o encerramento estar a cargo de uma artista plástica, figurinista e cenógrafa, muda “a cara” da festa. As projeções permanecem, mas agora os trajes (desenhados por Rosa e confeccionados no barracão de sua atual escola, a São Clemente, nos últimos meses) e os elementos cênicos levam suas duas marcas: a riqueza de detalhes e o acabamento caprichado.

Os 3 mil integrantes do elenco, 300 dançarinos profissionais e 2.700 voluntários, foram coreografados pelo norte-americano Bryn Walters, que conta quatro Olimpíadas no currículo. Eles ensaiaram num terreno próximo ao Maracanã, numa área com as mesmas medidas do palco montado sobre o gramado (128 por 63 metros). É o mesmo local que serviu ao treinamento para a abertura. Mas, dessa vez, o sigilo que cercou os preparativos foi menor.

'JÁ DEU CERTO'

“A abertura definiu o tom dos Jogos, criou um ânimo positivo na cidade. É assim em todos as edições: se a cerimônia vai bem, os jogos acompanham. Havia uma angústia sobre como seria a Olimpíada no Rio, que se dissipou ali”, avaliou Flavio Machado, vice-presidente do consórcio Cerimônias Cariocas 2016.

“Agora o clima é de ‘já deu certo’, é bem mais para cima. É para lavar a alma”, sintetizou o diretor de cerimônias da Rio 2016, Leonardo Caetano.

O encerramento conta com orçamento bem menor do que a abertura, o que é tradição nos Jogos. Valores não são divulgados, mas a primeira cerimônia custou R$ 100 milhões, e a segunda, “menos da metade”, segundo organizadores. Marcada para as 20 horas, será também bem mais curta: terá cerca de 2h30 de duração, 1h30 a menos. Ainda há ingressos à venda no site ingressos.rio2016.com. Os preços vão de R$ 200 a R$ 3.000.

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Roberta Pennafort e Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2016 | 05h00

Sucesso em todo o mundo, a cerimônia de abertura da Olimpíada recorreu a ícones do Rio: a praia, a favela, a Bossa Nova, o funk, o pagode, o passinho, a garota de Ipanema, o compositor Tom Jobim, o sambista Paulinho da Viola. Para a despedida dos jogos, a opção dos criadores foi por uma festa mais brasileira do que carioca. Hinos nordestinos, como Asa Branca e Mulher Rendeira, fazem parte da trilha sonora.

“A vibração agora é distinta. Vamos ao Brasil profundo, ao fazer artesanal, às rendeiras, à cerâmica. Nosso País é muito rico, uma cerimônia só não daria conta. Vai ser um passeio da raiz até o contemporâneo”, explicou a produtora artística Alicia Ferreira. “O legado passado de geração em geração será simbolizado por Martinho da Vila, que vai cantar com a família (três de seus oito filhos, as cantoras Maíra, Juliana e Analimar, além da neta Dandara).”

Entre os artistas convidados estão também o compositor pernambucano Lenine, que vai cantar a sua Jack Soul Brasileiro, que exalta a multiplicidade cultural brasileira, a cantora potiguar/carioca Roberta Sá, vestida como Carmen Miranda, e o grupo baiano As Ganhadeiras de Itapuã.

O conjunto paulistano de percussão corporal Barbatuques estará no primeiro segmento, que remete ao momento da criação. “Vamos fazer um medley de músicas próprias. Trabalhamos com a origem e o limite do som, que nasce da forma mais simples, do corpo, assim como os atletas testaram os limites do corpo na Olimpíada”, compararam os compositores Renato Epstein e André Hosoi, integrantes do grupo.

A parte protocolar da cerimônia será iniciada com a entrada do chefe de Estado do Brasil – vaiado na abertura, o presidente em exercício, Michel Temer, deve ser substituído pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ). A parada dos atletas será bem mais ágil do que o desfile da abertura, pois os esportistas entram juntos, separados apenas por bandeiras.

ADEUS, PIRA

Dois momentos são de grande expectativa: a apresentação de oito minutos de um grupo de 100 pessoas que vieram do Japão, que tem como objetivo anunciar os próximos Jogos, em Tóquio, em 2020, e a extinção da chama olímpica, a ser reacendida em solo japonês. Simultaneamente, a pira instalada para apreciação do público na Candelária, no Centro do Rio, será apagada. O aviador Santos Dumont, que emocionou os espectadores ao “sobrevoar” o estádio e a cidade na abertura, voltará à cena.

“A cerimônia marca o fim do fogo olímpico, portanto, tem um toque melancólico. Mas vamos mostrar uma festa alegre, que marque um recomeço”, contou a carnavalesca Rosa Magalhães, responsável pela cerimônia de encerramento. “Esse momento do apagamento da chama é triste, mas ideal para mostrar o que o brasileiro tem de melhor: vivemos de sorriso”, disse Abel Gomes, diretor executivo de criação da cerimônia e sócio da SRCOM, empresa que realiza o réveillon de Copacabana.

O CEO da holding italiana FilmMaster Group, parceira da SRCOM na Olimpíada, Andrea Varnier, que trouxe a experiência da cerimônia de encerramento dos Jogos de Inverno de Turim, em 2006, lembrou que a festa tem um caráter mais relaxado, de celebração dos feitos dos atletas. “Eles participam mais. Não há mais pressão”.

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Jamil Chade e Leonencio Nossa, O Estado de S. Paulo

21 Agosto 2016 | 05h00

A cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos marca o início do tempo de fazer contas. O ciclo de grandes eventos, que incluiu a Olimpíada e a Copa do Mundo de 2014, consumiu pelo menos R$ 66 bilhões de recursos públicos, um valor superior ao PIB de quase 80 países, sem falar no dinheiro gasto com os Jogos Pan-Americanos, em 2007, e os Mundiais Militares, em 2011. Os dados foram levantados pelo Estado a partir de planilhas de custos apresentadas pelos comitês organizadores dos projetos.

O debate sobre a fase dos megaeventos vai além da matemática e incluiu discussões acaloradas sobre estádios considerados “elefantes brancos” em Manaus, Brasília e Cuiabá, um complexo esportivo na Barra da Tijuca, no Rio, que gera dúvidas em relação à manutenção, e dramas coletivos e políticos, como a derrota da seleção brasileira para a alemã por 7 a 1, a onda de protestos de 2013 que minou a popularidade da presidente Dilma Rousseff e abriu caminho para seu impeachment, a aposta de uma parceria entre lideranças do PT e do PMDB com empreiteiros e investidores em grandes obras e o rombo nos orçamentos da prefeitura carioca e da União.

Quando o Rio ganhou o direito de receber os Jogos em 2009, a escolha de um mercado emergente parecia óbvia. Sete anos depois, o evento desembarcou num país em recessão, com problemas para atrair patrocinadores, em uma crise política, questionamento social e desemprego com taxa de 11%.

Tanto a Olimpíada quanto a Copa foram negociadas por um grupo que incluía especialmente o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), o prefeito do Rio Eduardo Paes (PMDB), empreiteiras como a Odebrecht e cartolas envolvidos em escândalos há pelo menos uma década. Operações da Polícia Federal e do Ministério Público minaram o poder e a influência do grupo, que tinha por discurso a parceria entre os setores público e privado.

A promessa é que os eventos originalmente não contariam com recursos públicos. Hoje, governos como o do Distrito Federal, do Amazonas e do Mato Grosso pressionam o Planalto e o Congresso para compensar os rombos causados pelas obras do Mané Garrincha, da Arena Amazônia e da Arena Pantanal. No caso da Olimpíada, mesmo a Vila dos Atletas, um condomínio de 31 prédios de luxo edificado naa Barra da Tijuca pela Odebrechet e pela construtora Carvalho Hosken, foi praticamente todo financiado pela Caixa Econômica Federal.

O governo interino de Michel Temer foi obrigado ainda a sair ao resgate do evento olímpico. “A sociedade brasileira precisa ver isso como um investimento”, argumentou Andrew Parsons, presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro.

PROMESSAS

Algumas promessas foram abandonados no caminho. Em 2009, os organizadores diziam que os Jogos seriam usados para despoluir a Baía de Guanabara. Em meio às provas de vela, barcos eram vistos na água recolhendo lixo.

O projeto de desenvolvimento tocado por Lula e pela presidente Dilma Rousseff, que incluía os grandes eventos, engessou a atuação de movimentos populares e sindicatos ligados ao PT. Com um efetivo de 23 mil agentes no Rio, o atual governo procurou desvincular problemas na segurança com os Jogos. Numa rápida visita ao parque olímpico na última quinta-feira, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, disse que a morte do soldado Hélio Vieira, da Força Nacional e as mortes de pelo menos quatro moradores do Complexo da Maré, no Rio, em ações punitivas da polícia, não têm ligação com a Olimpíada. “Nós entendemos que não há vínculos.”

A corrupção também marcou os sete anos de preparação da cidade. As obras em Deodoro foram alvos de uma operação da Polícia Federal, enquanto o próprio Maracanã passou a ser investigado pela Operação Lava Jato. No total, o MPF tem cinco investigações abertas em relação ao evento.

Um dos legados, porém, será a nova estrutura de transporte na cidade, como a linha 4 do metrô, até a Barra da Tijuca, o corredor de ônibus BRT e o VLT, Veículo Leve Sobre Trilhos, que ligou o aeroporto Santos Dumont à rodoviária. Os custos ficaram R$ 10 bilhões acima do orçamento inicial, de R$ 28,8 bilhões. Ainda que com custos inferiores aos Jogos de Londres em 2012, a Olimpíada brasileira terá gastos 40% superiores ao que foi aplicado para a Copa do Mundo de 2014, que saiu por R$ 27 bilhões.

Assim como ocorreu com a Fifa em 2014, o COI em 2016 não esconde sua satisfação com a renda. A entidade do futebol arrecadou R$ 15 bilhões, contra R$ 18 bilhões pelo COI. “A entidade, os patrocinadores e os parceiros comerciais estão muito satisfeitos”, disse ao Estado o presidente de honra do COI, Jacques Rogge. “Com o fim da Olimpíada, termina a fase de complexo de vira-lata do Brasil”, comemorou Mario Andrada, diretor executivo da Rio-2016.

Longe das estratégias de comunicação, a aposta nos megaeventos deixou um legado misto. O fim de uma década de obras, planos e pressões não gerou todas as mudanças prometidas. Não houve um atalho para o desenvolvimento. Mas a Olimpíada e a Copa colocaram o Brasil no foco internacional e se transformaram em espelhos do País ao mundo.

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