Reprdução|Instagram
Fernanda Oliveira e o filho Arthur, de 4 anos Reprdução|Instagram

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Atletas têm de se virar para matar saudade dos filhos e familiares durante a Olimpíada de Tóquio

Por causa da pandemia, COI impediu que delegações levassem parentes e crianças pequenas para o Japão

Felipe Rosa Mendes , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Fernanda Oliveira e o filho Arthur, de 4 anos Reprdução|Instagram

As dificuldades impostas aos atletas pela pandemia não se restringiram à preparação para a Olimpíada. Com o início das disputas nos Jogos de Tóquio, as restrições causadas pela covid-19 apresentaram novo obstáculo: a distância da família. Mamães e pais olímpicos se viram e contam com apoio dos cônjuges para matar a saudade das crianças e competir com mais tranquilidade, a cerca de 18 mil quilômetros dos seus lares, no caso do Time Brasil.

É o caso da experiente velejadora Fernanda de Oliveira. Em sua sexta Olimpíada, ela está acostumada a ter os familiares por perto. Nestes Jogos, compete longe dos pais, do marido e dos dois filhos. "Não é um costume meu ficar longe deles por muito tempo. Meu máximo até agora era ter ficado 18 dias ausente. Essa é a primeira vez que serão quatro semanas longe de todos, dificulta bastante", disse ao Estadão a mãe da pequena Roberta, de 7 anos, e do Arthur, de 4.

Em razão da pandemia, o Japão vem limitando a entrada de turistas nos últimos meses. Até mesmo os torcedores estrangeiros foram vetados, algo único na história das Olimpíadas. As delegações estão mais enxutas também. A preocupação é que os Jogos aumentem o número de casos de covid-19 no país, o que realmente vem acontecendo nos últimos dias. Por isso, o número de credenciais também foi limitado aos comitês olímpicos de cada país participante. No caso do Comitê Olímpico do Brasil (COB), se restringiram ao corpo técnico e de preparação física.

Fernanda admite que, se não fossem as restrições, estaria acompanhada do marido, Diogo Horn, e dos dois filhos. "Minha família sempre me acompanhou, desde os Jogos de Sydney-2000. A Roberta já estava no Rio-2016. A ideia inicial era tê-los aqui comigo para poder ver as crianças, matar a saudade. Mas não tivemos escolha. Foi bem difícil sair de casa, embarcar, e está sendo bem difícil agora para mim e para eles também", afirmou a primeira medalhista olímpica da vela feminina brasileira, ao lado de Isabel Swan, em Pequim-2008.

A solução é conversar pelos aplicativos de celular, o que não é um procedimento tão novo assim, mas que funciona. "A minha filha mais velha entende o que está acontecendo, até curte um pouco. Mas o pequeno não entende nada. Até me dá ‘castigo de gelo’, não quer me ver muito no vídeo", diz Fernanda, de 40 anos, que conta com o marido para a “jornada dupla” em casa em Porto Alegre. "Ele está cuidando das crianças sozinho, está sendo pai e mãe e trabalhando também. Um ponto negativo da pandemia foi a menor convivência das crianças com os avós. Preservamos bastante a vida deles."

A distância também dói em Tandara, referência da seleção de vôlei, embora ela tenha passado por um período de adaptação. "Está um pouco mais fácil agora porque na Liga das Nações ficamos longe por 37 dias", contou a mãe de Maria Clara, de 5 anos. "Expliquei para ela antes de vir. Fico até emocionada de falar... Disse que a mamãe ia viver o seu sonho, eu disse que ia precisar muito dela, que ela ajudasse o papai, que ficasse bem. Ela externou isso para a professora na escola: ‘sabe, professora, eu estou com muita saudade da minha mãe, mas estou muito feliz porque ela está vivendo o sonho dela'", relatou Tandara.

Os pais também sofrem com a saudade, principalmente os de primeira viagem. Dono de duas medalhas olímpicas, Arthur Zanetti tinha planos de levar o filho Liam, de apenas dez meses, e a mulher Jéssica para o Japão. Pediu até autorização para o pediatra, que teria aprovado. "Para a Olimpíada, você tem de abrir uma exceção. É a cereja do bolo", disse o ginasta ainda em 2020. Mas os planos precisaram mudar por causa das restrições dos Jogos de Tóquio. Liam ficou com a mãe em Santo André (SP).

O mesmo aconteceu com o pequeno Théo, de 11 meses, filho de Leonardo de Deus. Já em solo japonês, o nadador ganhou uma surpresa. "Ele falou ‘papai’ pela primeira vez. Eu estava tentando escutar esse ‘papai’ pessoalmente, mas consegui escutá-lo por vídeo. Tinha de escutar essa palavra antes de nadar. Vai me dar muita energia e muita força para eu poder dar o meu melhor", disse o atleta de 30 anos.

Mães e pais olímpicos se agarram aos seus objetivos em Tóquio para superar a saudade. "O que dá forças é ter um objetivo muito grande, que é representar o Brasil em mais uma edição dos Jogos Olímpicos, dar o melhor de mim. Afinal, fiz tanto para estar aqui", disse Fernanda de Oliveira. "Estou realizando um sonho. Tenho de agradecer a minha família, que está sempre do meu lado, meu pai, meu marido e a Maria Clara, por estar dando essa força. Ela é o meu propósito. Ela é o que me faz levantar todo dia e tentar ser uma pessoa melhor." 

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Atleta espanhola criticou COI por não poder levar filho em período de amamentação

Ona Carbonell, referência mundial do nado artístico, teve pedido negado pela entidade apenas duas semanas antes do início dos Jogos de Tóquio

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2021 | 10h00

Os desafios causados pela pandemia na Olimpíada também geraram situações delicadas entre mães olímpicas. O caso mais grave foi protagonizado pela espanhola Ona Carbonell, referência mundial do nado artístico. Ela não pôde levar seu filho Kai para Tóquio apesar da criança, de 11 meses, estar em período de amamentação.

A atleta e sua equipe fizeram um pedido formal ao Comitê Olímpico Internacional (COI) para permitir a presença da criança nos Jogos. A resposta negativa veio apenas duas semanas antes do início dos Jogos. Segundo ela, a entidade argumentou que o impedimento se devia às regras impostas pelo governo japonês

Pelas redes sociais, ela criticou o COI e desabafou. “Apesar de terem aparecido algumas notícias que sugeriam a possibilidade de que nós, esportistas, pudéssemos viajar para os Jogos Olímpicos de Tóquio acompanhados de nossos filhos lactantes ou de tenra idade, fomos informados pelas entidades organizadoras sobre algumas medidas extremamente drásticas que impossibilitam essa opção para mim”, escreveu a espanhola,  em post que viralizou no mundo olímpico.

“Depois de receber inúmeras expressões de apoio e incentivo para ir a Tóquio com Kai, queria manifestar minha decepção e desilusão porque terei de viajar sem ele. Nossa única possibilidade é esperar o fim desta pandemia para que a normalidade volte e, com ela, as medidas necessárias para que a conciliação entre família e esporte de elite durante uma competição seja mais fácil para todos”, completou.

De acordo com a atleta, o COI só permitiria a presença do filho e do pai, Pablo Ibáñez, se ficassem em quarentena constante num hotel até o fim dos Jogos. “Para eu poder amamentar o Kai no momento em que ele precisasse, eu teria que deixar a Vila Olímpica e a bolha do meu time para ir até o hotel. Isso colocaria em risco meus companheiros de equipe.”

Somente no sábado o Comitê Organizador dos Jogos se pronunciou sobre o caso. “Assim que ouvimos sobre este caso, afirmamos: ‘temos que encontrar soluções’”, afirmou o diretor executivo dos Jogos, Christophe Dubi. O caso, contudo, ficou sem uma solução.

Nascida em Barcelona, Ona Carbonell é recordista em número de medalhas em Mundiais entre as mulheres, com 23. Somente os americanos Michael Phelps e Ryan Lochte, com 33 e 27, respectivamente, superam a espanhola. Ela soma ainda dois pódios olímpicos. Foi prata no duelo e bronze por equipes em Londres-2012. No Rio-2016, terminou em quarto lugar no dueto. Em Tóquio, ela disputa sua terceira Olimpíada da carreira.

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