Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Nathalia Garcia, Gonçalo Júnior e Ronald Lincoln Jr., O Estado de S. Paulo

05 Agosto 2015 | 05h00

A medalha de ouro na pistola de ar 10 metros nos Jogos Pan-Americanos de Toronto mostra que Felipe Wu está no caminho certo para alçar voos mais altos, mas pouco deve influenciar na rotina de preparação para a Olimpíada do Rio. Um dos principais nomes do tiro esportivo ainda treina diariamente no quintal de casa, em São Paulo.

No estreito corredor, o alvo fica posicionado a 7 metros de distância. Dessa forma, Felipe tem de fazer algumas adaptações para se adequar à medida oficial. “Eu coloco uma máscara por cima do alvo, que deixa ele menor. O tamanho fica mais parecido com o que seria a 10 metros”, explica.

No entanto, essa limitação impede o atleta de se especializar na pistola 50 metros, sua preferência atualmente. Ele treina para essa categoria apenas nos fins de semana, quando viaja para o Curitiba. Felipe frequenta o Clube de Campo Santa Mônica ao lado da namorada e também atiradora Rosana Ewald, mas reconhece que o pouco tempo de dedicação é insuficiente no alto rendimento.

Mudar-se de vez para o Paraná não está nos planos de Wu. O atirador concilia a carreira de atleta com o curso presencial de Bacharelado em Ciência e Tecnologia na Universidade Federal do ABC. Mas ele sabe que é preciso mais esforço de sua parte à medida que a Olimpíada se aproxima. “Certamente eu terei que ir para outro lugar para treinar alguns meses antes dos Jogos Olímpicos.” No Pan de Toronto, Felipe conquistou a primeira vaga olímpica do Brasil no estande de tiro. Ainda que a decisão final seja da Confederação Brasileira de Tiro Esportivo (CBTE), tudo indica que o atleta representará o País na pistola de ar 10 metros em 2016.

A questão financeira também impede que ele priorize a pistola 50 metros. “Sairia mais ou menos R$ 700 por semana, o que daria R$ 36 mil até os Jogos Olímpicos. O problema é que não tem munição boa no Brasil. A gente traz o que sobra de competição e tem que economizar.”

Além do auxílio do programa Bolsa-Atleta, Felipe recebe salário do Exército desde 2013. A parceria abriu a possibilidade de Wu competir na categoria de longa distância mais cedo. Se não fosse militar, teria de esperar até os 25 anos. A maioria dos atletas chega ao tiro esportivo a partir das Escolas Militares pelo investimento necessário desde o início. “Recebi mensagens de algumas pessoas perguntando como entrar para o tiro. Vou falar que precisa gastar R$ 15 mil para começar? Falta apoio, incentivo para comprar material, para receber os atletas.”

Para Felipe Wu, há muito preconceito com a prática da modalidade e essa visão impede a aquisição de patrocínios individuais. “Poucas pessoas conhecem como é o tiro esportivo, muita gente já pensa em violência porque relaciona com arma. E arma está ligada à violência na nossa cultura. É muito ruim.”

A própria legislação brasileira também é um obstáculo na carreira do atleta. “Somos tratados como qualquer atirador que quer ter uma arma de defesa em sua casa, a burocracia é a mesma.” Depois dos Jogos Sul-Americanos de Santiago, no ano passado, o Comitê Olímpico do Brasil (COB) deu duas novas pistolas para Felipe. “Tive de fazer a papelada de importação, demorou três meses para ficar pronto”, afirma.

A modalidade ainda tem de lidar com algumas dificuldades durante o transporte das armas em viagens internacionais. De acordo com Wu, cada companhia aérea tem suas normas a serem cumpridas, e os países de destino lidam com a situação de maneiras diversas. “Quando a gente pede autorização nos Estados Unidos e na Alemanha, eles emitem um papel, a polícia confere o número e libera. Mas tem países que exigem muitos papéis. Demorei sete horas para ser liberado do aeroporto na Rússia”, conta.

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Ronald Lincoln Jr., O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2015 | 05h00

Durante o Pan de Toronto realizado em julho, o Brasil conquistou apenas uma medalha nas competições de remo, e a expectativa para a Olimpíada é ainda mais desanimadora, na opinião de Fabiana Beltrame. A atleta catarinense é o principal destaque da modalidade no País: campeã mundial em 2011, vencedora da primeira etapa da Copa do Mundo deste ano e dona da prata que impediu a seleção de voltar do Pan em jejum. Portanto, fala com conhecimento sobre a competição.

Fabiana admite que considera remota as chances de alcançar pódio em 2016. Sua especialidade é o skiff simples leve, categoria que não é olímpica. Para participar dos Jogos de Londres (2012), ela teve de se adaptar ao skiff duplo, mas, faltando um ano para a Olimpíada, ainda não conseguiu arranjar parceira, situação que faz com que cogite passar para o skiff pesado, em nova mudança de categoria.

A troca exigirá que Fabiana reformule o ritmo de treinamentos e dê início a um árduo trabalho para ganhar massa muscular. A decisão só deve ser tomada por ela e pelo técnico Júlio Soares no fim deste mês, após o término da próxima etapa da Copa do Mundo de remo. Por enquanto, ela prossegue com os treinamentos no skiff leve no espelho d’água da Lagoa Rodrigo de Freitas (zona sul do Rio), palco da disputa olímpica.

“Em um ano apenas não dá para reagir. Não é de uma hora para outra que o barco começa a andar”, explica Fabiana em entrevista ao Estado. “O remo é um esporte que exige preparação de longo prazo. São necessários, no mínimo, quatro anos de trabalho para ter resultados satisfatórios, para chegar a uma final ou medalha. Agora é trabalhar para o futuro, para essa Olimpíada realmente é muito difícil.”

Mas que futuro? A atleta, de 33 anos, decidiu encerrar a carreira após os Jogos do Rio. “Espero mudanças para as novas gerações. É necessário que haja uma evolução no planejamento das categorias de base. Pegar a garotada e levar para treinar fora (do Brasil) e competir bastante. Assim fazem lá fora, competem em alto nível desde cedo.”

Fabiana ainda cita o exemplo da canoagem brasileira, que surpreendeu no Pan ao conquistar 14 medalhas, das quais, três de ouro. “A gente deveria ter um centro de treinamento só da seleção brasileira, para ter aquela união, poder treinar isolados. Ainda dependemos muito dos clubes, assim fica difícil.”

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Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2015 | 05h00

Isaquias Queiroz tem dois sonhos. O primeiro é o mesmo da maioria dos brasileiros: ter uma casa própria. O segundo é mais específico: quer se consolidar como o maior atleta da história da canoagem brasileira. No primeiro caso, o problema não é propriamente financeiro. Ele é beneficiário do Bolsa Pódio, do governo federal, e tem apoio da confederação, que recebe verba da Lei Piva (R$ 2,9 milhões em 2014), além do patrocínio do BNDES.

O problema são os sacrifícios da carreira. Isaquias divide um chalé com os outros membros da equipe de canoagem em Lagoa Santa, município de 50 mil habitantes em Belo Horizonte (MG). É quase um internato, com horários rígidos para tudo: treinar, descansar, comer e dormir. Tudo é tão cronometrado que ele ficou bronqueado com o atraso da reportagem do Estado causado pela neblina que fechou o aeroporto de Congonhas semana passada.

O descanso acabou prejudicado, e ele ficou de mau humor. É tudo tão puxado que ele tem, na varanda desse chalé, um simulador de remadas. Com ele, o técnico Jesus Morlán corrige a posição do braço de seu pupilo de perto, o que não consegue fazer dentro da lagoa.

Nos raros momentos de descanso, Isaquias vai para Ubaiataba, no sul da Bahia, reencontrar a mãe, servente na rodoviária da cidade e que sustentou os seis filhos praticamente sozinha – o marido morreu de derrame em 1999. Foi no rio que corta a cidade, o das Contas, que ele deu as primeiras remadas. Na época das cheias, que impedem os treinos, o atleta leva o simulador para lá, para não perder tempo. No meio de tanto treino, o canoísta de 21 anos não tem um canto só seu. Esse é o 1º sonho.

O segundo está encaminhado, mas depende do carimbo de uma medalha olímpica. No Pan, ele acrescentou ao currículo três medalhas de ouro no C1 1000 metros, no C2 1000 metros e no C1200 metros. Antes, havia sido o primeiro brasileiro campeão mundial júnior. No Campeonato Mundial de Canoagem de 2013, ganhou o bronze na prova nos 1000 metros, a primeira do Brasil na história do torneio. Em tempo: o “c’ é canoa, o primeiro número indica os atletas na embarcação e o segundo, a distância da prova.

Com o passar da conversa, Isaquias fica mais manso e conta parte de sua lenda. Quando era criança, antes de começar a remar, caiu em cima de uma pedra. Foi ao hospital e acabou perdendo um rim. Para os amigos, virou o Sem-Rim. Os rivais dizem agora que ele ganhou um terceiro pulmão.

As histórias são remadas: ele fala de um jeito ritmado, pesando as palavras dentro de cada causo. Sem-Rim é direto e espontâneo. Já bateu de frente com a Confederação Brasileira de Canoagem por falta de reconhecimento e quase jogou tudo pro alto. “Chorei com vontade de ir embora. Achava o treino uma chatice porque a gente abre mão de tudo, mas é o nosso trabalho”, conta o campeão.

Isaquias quer acumular recordes e medalhas e levar consigo a modalidade inteira. Ele não pensa só na chance de medalha nos Jogos de 2016, mas já se prepara para Tóquio. Nessa trajetória, dá crédito ao treinador, que deu um impulso decisivo à canoagem do Brasil. Em 2016, se o rio seguir seu curso normal, ele deverá duelar com o alemão Sebastian Brendel, como em tantas provas anteriores. “Não me sinto pressionado. Estou treinando como me manter na ponta”.

Depois do Pan, Isaquias ficou mais perto do segundo sonho. Em sua terra natal, foi convidado para subir ao palco da banda de Binho Alves. Era um show de arrocha. Dançou, cantou e viu que era o profeta de sua terra. “Esse retorno foi diferente. Foi a primeira vez que me senti como uma celebridade”.

 

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