Carlos Garcia Rawlins/Reuters
Carlos Garcia Rawlins/Reuters

Como um imigrante cubano se tornou um deus polonês do vôlei

Wilfredo León saiu de Cuba para ver até onde seu talento poderia levá-lo. Jogador de uma equipe profissional na Itália, ele agora quer ganhar o ouro para a Polônia.

Matthew Futterman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2021 | 08h27

Há aproximadamente 11 mil atletas participando da Olimpíada, cada um com sua história. Aqui está uma delas, sobre o melhor jogador de vôlei do mundo. Ele é um filho adotivo da Polônia, nascido há 28 anos em Cuba. Se isso parece curioso, aqui vai uma dica a respeito da explicação: as manifestações contra a falta de alimentos e outras necessidades humanas básicas que aconteceram por todos os lados em Cuba no último mês também têm muito a ver com a história de Wilfredo León, um dos mais recentes e melhores esportistas exportados; mais uma estrela do esporte perdida por seu país para as riquezas dos esportes modernos.

“Em Cuba, eles te dizem, enquanto se está crescendo, que todos os maiores campeões do passado sofreram com essas condições, que o sofrimento irá ajudá-lo a ser o melhor”, disse León de sua casa em Varsóvia, enquanto se preparava para viajar para Tóquio. “Isso não é verdade. Para dar o seu melhor você precisa de boas instalações, um bom lugar onde possa descansar, boa comida, médicos. Essa é a única maneira de você ter uma vida longa no esporte.”

León, o ponteiro estrela de seu time profissional na Itália e, mais recentemente, da Polônia, há muito é considerado um dos melhores jogadores de vôlei do mundo. Mas esta é a primeira vez que ele está competindo por seu país adotivo em uma Olimpíada devido aos demorados processos pelos quais teve de passar: primeiro, para conseguir permissão para sair de Cuba e, depois, tornar-se apto para representar a Polônia na Olimpíada.

Sua presença na seleção do país fez da Polônia uma candidata à medalha de ouro, vencendo quatro das cinco partidas nas eliminatórias, em grande parte por causa de León. Com 2,02 m, ele salta tão alto e tão rápido que pode parecer que seus joelhos estão na mesma altura da parte de baixo da rede. Ele também tem a rara habilidade de usar seu saque viagem como uma arma de ataque: em sua primeira Olimpíada, o saque de León permaneceu levando ao chão os adversários que tentaram defendê-lo.

Ele está sempre à espreita, então, de repente, voa do fundo ou pela lateral da quadra para finalizar um ponto. É impossível ignorá-lo, mas exagerar em sua marcação pode ser perigoso, pois pode ser uma manobra de atenção. Durante o terceiro set contra o Japão na semana passada, com o placar empatado em 24 e a Polônia querendo terminar a partida, três jogadores japoneses se prepararam para defender a jogada de León, mas a bola acabou indo para o companheiro de time dele, Bartosz Kurek, que cravou a bola na área da quadra sem ninguém.

León disse que, quando começou a jogar pela seleção nacional júnior de Cuba, havia 10 jogadores na sua faixa etária que eram quase tão bons quanto ele. Depois de dois anos, oito deles haviam desistido. Outras estrelas cubanas, que poderiam ter formado uma seleção cubana impressionante, estão agora espalhadas por todo o mundo, incluindo Yoandy Leal, que joga pelo Brasil, e Osmany Juantorena e Angel Dennis, que representam a Itália.

Assim como outras estrelas cubanas, León disse que recebeu várias ofertas de cidadania depois que deixou o país insular em 2014, com algumas delas incluindo uma quantia significativa de dinheiro. Ele escolheu a Polônia principalmente porque tinha uma namorada polonesa, Malgorzata León, que agora é sua esposa e mãe de seus dois filhos, e porque a Polônia adora vôlei. “Eu não estava interessado em usar minha vida privada como um plano de negócios”, disse ele. “Você deve escolher um país porque o ama.”

O vôlei, porém, foi a primeira paixão de León, desde que seus pais o inscreveram em um programa recreativo para mantê-lo longe das ruas de Santiago de Cuba. Aos 11 anos, León estava disputando torneios no exterior pela seleção nacional de juniores.

Ele também estava vivendo por longos períodos no último andar de um alojamento onde a chuva caía pelo teto e ele tinha que carregar dois baldes de água de um poço próximo e subir quatro lances de escada com eles para tomar banho ou lavar sua roupa. Aos 14 anos, León media 1,93 m e foi convidado a começar a treinar com a equipe profissional. As condições melhoraram um pouco depois disso, lembrou, mas não muito. Ele já havia competido na Cidade do México, onde viu restaurantes e lojas cheias de comida e roupas, e sabia que uma vida melhor talvez estivesse ao seu alcance.

Em 2011, um colega de equipe que devia um favor a uma jornalista polonesa pediu a León que desse a ela uma entrevista. Essa entrevista, que foi realizada pela internet, levou a mais algumas conversas online com a mesma repórter e, em seguida, a um encontro no torneio da Liga Mundial em Gdansk, no norte da Polônia.

“Depois de passarmos quatro dias juntos, sabíamos que havia uma ligação especial entre nós”, disse Malgorzata León, que era a repórter em questão. Foi apenas em 2019 que ele se tornou apto a jogar pela seleção polonesa e representar um país de aproximadamente 38 milhões de pessoas cuja população é predominantemente branca, León é um dos poucos milhares de residentes negros.

Ele disse que seu lar adotivo o acolheu. Agora, León quer nada mais do que trazer a medalha de ouro, construindo seu legado no esporte que ama. “É um esporte em que você tem que ter uma mente aberta e ajudar seus companheiros de equipe para poder voar com os demais”, disse ele. “É um esporte simples, mas apenas se todos trabalharem para se mexer com um só.”

A Polônia não ganha uma medalha de ouro na Olimpíada, nem mesmo chega a uma partida final de vôlei desde 1976, mas seu povo há muito ama o esporte. É provavelmente o segundo esporte mais popular no país, ficando atrás do futebol. León, que escolheu a Polônia como país para representar em parte por causa dessa cultura, elevou o esporte a outro nível.

Kevin Barnett, que participou de duas Olimpíadas e é comentarista de vôlei da NBC Sports, disse que seu ex-companheiro de equipe, Vital Heynen, que atualmente é o técnico da seleção polonesa, disse a ele que não tinha mais que concorrer com o basquete pelos melhores jogadores altos do país. “Eles estão todos escolhendo o vôlei”, disse Barnett.

Apesar de perder sua primeira partida, Heynen disse que o time estava se recuperando completamente. “Oito partidas perfeitas é demais para qualquer um”, disse Heynen depois da vitória da Polônia sobre o Japão na fase de grupos. “O que é mais importante é ver as coisas melhorando. Estamos começando a ter aquela chama olímpica.” TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA 

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