Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Competidores se animam com possível entrada do breaking no programa olímpico

Modalidade pode entrar já nos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024; no final do próximo ano o martelo será batido

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2019 | 04h30

A possível entrada do breaking no programa olímpico para os Jogos de Paris, em 2024, está mexendo com os dançarinos (e agora atletas) da modalidade. O Comitê Organizador da competição incluiu esse elemento da cultura urbana, que pode integrar o torneio ao lado de surfe, skate e escalada esportiva. No final do próximo ano o martelo será batido, mas a tendência é pela inclusão de todos.

“Recebemos essa notícia com muita alegria. É um passo muito grande para a nossa arte. Faz algum tempo que o breaking já vem sendo tratado pelo lado esportivo por causa das competições. Fazer parte da Olimpíada é um salto grande para a valorização. Ainda existe preconceito e isso pode ajudar”, comentou Leony Pinheiro, um dos principais atletas do Brasil na modalidade e que chegou às quartas de final no Red Bull BC One.

Para o Comitê Olímpico Internacional, o breaking está alinhado às propostas de tornar os Jogos um evento mais plural, urbano e conectado aos jovens. A experiência já tinha dado certo na versão de inverno, com a inclusão de modalidades mais “radicais”. E será tendência para as próximas edições. Um bom teste foi feito com a estreia do breaking nos Jogos da Juventude, em Buenos Aires, no ano passado. Acabou sendo um sucesso e ganhou pontos para entrar no programa das competições adultas.

“Até 2024 podem haver mudanças, mas os Jogos da Juventude foi um teste e funcionou bem. A maneira que julgam é a mesma que adotaram nos eventos mundiais”, diz Leony, que tem 23 anos e começou a praticar o breaking na periferia de Belém (PA). Ele começou a competir em 2011 e passou a chamar a atenção por ter um jeito próprio de dançar, utilizando ritmos paraenses como o carimbó e o tecnobrega.

Já foi considerado o melhor do Brasil em três anos (2013, 16 e 17). “Eu comecei em 2008, era um hobby. Era moleque. Fiz caratê, capoeira, teatro. O breaking foi por acaso. Encontrei um pessoal dançando e comecei a ensaiar. Depois me aprofundei na cultura e a razão social daquilo. Vivo profissionalmente disso, consigo ganhar meu dinheiro e consigo me manter simplesmente dançando. É um sonho para qualquer B-Boy”, diz.

Ele consegue se manter participando de eventos, atuando como jurado, dando aula e ministrando workshops. No começo, lembra que era complicado, mas agora acha que a realidade olímpica pode ajudar a combater o preconceito com o breaking. “Eu sofri muito. Tem gente que discrimina por não conhecer, tem situações que a família não apoia. É muito difícil ser profissional da dança, ainda mais para um B-Boy. Com esse novo horizonte, não vamos ter mais esse preconceito que eu sofri e muita gente ainda vive”, conta.

Ele sabe que um garoto criado no bairro 40 horas, em Belém, poderia ter tido um caminho mais complicado na vida. Para ele, o breaking ajudou bastante. “Depois que entendi isso, olhei para trás e vi que o que o breaking fez com minha vida foi muito lindo, pois me ajudou a não ir para o caminho errado e moldou meu caráter. Sou exemplo de muitos outros B-boys.”

Uma possível entrada no programa olímpico pode mudar bastante a realidade de todos envolvidos com o breaking. Existe a possibilidade de surgirem patrocínios e apoios. “Dá para melhorar muito e espero que isso aconteça. É uma galera que precisa de incentivo e tem talento”, afirma, citando que em alguns países o breaking está mais avançado, como China, EUA, França e Rússia. “Poder representar o Brasil nos Jogos Olímpicos fazendo minha arte seria gratificante.”

Critérios de julgamento ainda serão definidos

Os critérios de julgamento e as formas de disputa do breaking nos Jogos Olímpicos ainda serão definidos. Mas a modalidade deve seguir o mesmo caminho de outras que possuem um lado mais artístico, como nado sincronizado, ginástica artística e patinação no gelo. Atualmente, os critérios que somam pontos são dinâmica, limpeza, musicalidade e originalidade, por exemplo.

FabGirl foi a primeira B-Girl brasileira a participar do Mundial. Atualmente, ela é jurada em competições e está envolvida nesse meio. “Esse é um momento histórico, como se fosse dividir o breaking entre as correntes artísticas e esportivas. Acredito que a gente vai criar essas duas vertentes: uma com pessoas que trabalham com viés mais artístico e outras que se configuram como esportivo”, diz.

Ela começou a praticar aos 18 anos e hoje está com 36. “Fui competidora por muito tempo, trabalho muito como jurada, e sei que muita gente não queria que aprovasse para a Olimpíada. Vejo o lado positivo e negativo. Quem sabe posso ser treinadora de alguma atleta, ou time. Me vejo muito nessa cena ainda”, comenta.

A B-girl jogou futebol por cinco anos e sabe que a realidade do esporte no Brasil é complicada, por causa da falta de patrocínio. “Pelo lado esportivo, tem coisas que dão um pouco de desânimo. Quando jogava futebol, a gente não tinha apoio nenhum. E fico pensando nessa realidade para o breaking. São muitos desafios.”

Na opinião dela, como a modalidade possui jurados, classificações e campeonatos, pode ser configurada como esportiva. “Na dança é subjetivo, não tem nada fechado. Para a linha esportiva, deve perder um pouco da capacidade de criar e utilizar movimentos obrigatórios com diferentes graus de dificuldade. Mas isso vamos ver mais para frente”, avisa. “Em 2024, não sei se estarei lá competindo, mas pretendo colaborar com o meu País de alguma forma. Quem sabe como técnica.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.