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 Bolt está em processo de recuperação após sofrer uma lesão Divulgação

Conheça a origem da lenda Usain Bolt

Aos 29 anos, o velocista ainda guarda seu jeito de menino, como contam professores

Nathalia Garcia - Enviada especial a Kingston, O Estado de S. Paulo

11 de julho de 2016 | 07h00

O jamaicano Usain Bolt faz do atletismo um espetáculo. Deixa o público boquiaberto com sua velocidade quase sobrenatural, característica que fez do raio sua marca registrada, e ganha a empatia dos fãs com atitudes irreverentes. O astro de 29 anos interage com as câmeras, faz caras e bocas, dança, brinca e interpreta nas pistas, compartilhando com o mundo a essência do garoto que cresceu em Trelawny.

"Usain não mudou, ainda é um menino. Ele cresceu fisicamente, sim, e emocionalmente também. Mas ainda gosta de coisas de adolescentes, ama comer nuggets de frango e jogar videogame. Ele diz que pensa nos jogos de videogame quando está na linha de largada", conta Webster Thompson, professor sênior da escola William Knibb Memorial, onde Bolt estudou dos 12 aos 17 anos.

O jeito brincalhão do velocista de 1,96 m de altura também está vivo na memória de Lorna Jackson, que deu aulas de espanhol para o astro e atualmente ocupa o cargo de vice-diretora da escola. "Ele sempre foi alto e vinha por trás da gente e cutucava a nossa cabeça", relembra. Dentro da sala de aula, ela admite que o menino Bolt não mostrava interesse pelo idioma estrangeiro.

Segundo a dupla, ele era um aluno dentro da média e não precisava de reforço fora do período escolar, das 8 h às 14h30. E isso era uma condição intrínseca para que também pudesse se dedicar ao esporte. "Dizemos para todos os alunos que eles são estudantes primeiro e atletas posteriormente. Não temos dificuldade em tirá-los da equipe se o desempenho acadêmico não for bom o suficiente", explica Thompson.

A rigidez vem da origem do sistema educacional inglês, em vigência na Jamaica. Brigas, drogas e desacato aos professores são motivos para detenções no país. Além disso, os alunos da escola William Knibb Memorial usam uniformes e não podem exibir tatuagens e joias. 

A ajuda extra dos professores era oferecida apenas quando ele precisava dedicar algumas horas a mais aos treinos da equipe de atletismo. A competitividade sempre foi ferrenha entre os velocistas jamaicanos de todas as idades. Desde cedo já era sabido que Bolt tinha potencial, mas o limite de seu imenso talento ainda era desconhecido.

"Quando ele veio à William Knibb, fomos informados de que havia alguém com um talento especial. Mas nós não tínhamos ideia de quão vasto o seu talento se tornaria. Nem o próprio Usain sabia", diz Lorna.

O responsável por "lapidar o diamante bruto" que era Usain Bolt foi Pablo McNeil, ex-atleta olímpico. Mas a história do garoto com o atletismo começou ainda na escola primária, chamada Waldensia. Na época, a paixão pelo críquete falava mais alto. O estímulo para mudar de rumo veio aos 7 anos, a partir de uma aposta feita pelo reverendo Devere Nugent. Sempre atrás do colega Ricardo Geddes, Bolt ganharia um almoço de graça se pudesse vencê-lo. O incentivo deu resultado, e ele deliciou-se com a refeição. Foi essa a origem de uma filosofia que o multicampeão olímpico e mundial sustenta até hoje: uma vez que eu te supere, você nunca mais me derrotará. 

Na ocasião, ele ainda viu a possibilidade de ter retorno a partir do próprio esforço e aproveitar melhor a vida. Dessa forma, passou a investir mais energia no atletismo.

Bolt continua sendo estimulado por apostas com os colegas. Quem adivinhasse ou chegasse mais próximo do tempo que ele correria na prova dos 100 metros no Mundial de Berlim, em 2009, ganhava a brincadeira. O investimento foi de cem euros para cada participante. Para desgosto do corredor, que cravou o recorde mundial (9s58), Daniel Bailey, da Antígua e Barbuda, levou a melhor.

LEGADO

A lenda do atletismo é um "talismã" para o colégio. Bolt é visto pelos alunos do William Knibb como um exemplo de que não há limite ao alcance de um sonho. É isso que o jamaicano tenta passar aos estudantes quando visita o local. Ele também ajuda com recursos materiais, como a doação de um ônibus escolar. Além disso, o contrato do velocista com sua fornecedora de material esportivo tem uma cláusula que exige a doação de uniformes para a equipe de atletismo da escola todo ano.

O mais novo projeto é a reforma do local de treinamento. Serão investidos dez milhões de dólares jamaicanos (cerca de R$ 260 mil) na criação do clube Be a Bold Bolt Believer (seja um corajoso seguidor de Bolt, em tradução livre). A inauguração está prevista para setembro deste ano. "Bolt é um tesouro para a Jamaica. Nós o compartilhamos com o mundo e também devemos dividir a escola", exalta Webster Thompson.

*A repórter viajou a convite do Escritório de Turismo da Jamaica

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Prazer em comer faz Bolt abrir um restaurante

Estabelecimento faz sucesso entre moradores locais e turistas no almoço

Nathalia Garcia - Enviada especial a Kingston, O Estado de S. Paulo

11 de julho de 2016 | 07h00

"Quando não estou competindo na pista, estou desfrutando boa comida e ótima música, quero compartilhar esse meu lado com vocês". É com essa frase, retirada do cardápio do Usain Bolt's Tracks & Records, que o astro do atletismo dá as boas vindas aos visitantes em seu restaurante, em Kingston, na Jamaica.

Prato favorito de Bolt, "Jerk Pork" é o carro-chefe do estabelecimento aberto em 2011. A receita tem carne de porco, com um tempero especial da cozinha caribenha, acompanhada por batata doce e bolinho de farinha. Faz sucesso entre os visitantes. No almoço, jamaicanos e turistas compartilham o ambiente. No jantar, clientes locais são maioria.

As bebidas alcoólicas também dão toque especial ao cardápio. O ponche de rum leva o nome "Nine.58" em referência ao recorde mundial dos 100 metros rasos, obtido pelo velocista em 2009. Mas não é aconselhado beber na mesma velocidade, os efeitos podem ser devastadores. Há ainda o "Bolt Shot", drinque que mistura licores de banana, café e maçã, criado pelo próprio atleta olímpico.

A decoração ajuda na imersão ao mundo de Bolt. As reproduções das placas dos recordes mundiais dos 100 m e dos 200 m estão dispostas na entrada do restaurante. No andar superior, uma exposição de itens colecionáveis – uma camisa autografada, o par de sapatilhas usado por ele na temporada 2009 e alguns recortes de jornal – dão vida ao ambiente.

Mas não é só de atletismo que vive o local. Um telão e diversas televisões mostram eventos esportivos. Se você tiver sorte, pode encontrar Bolt bebendo cerveja e assistindo a um jogo de futebol com amigos.

*A repórter viajou a convite do Escritório de Turismo da Jamaica

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Atletismo deu à Jamaica 66 das 67 medalhas nos Jogos

Modalidade monopoliza subidas do país ao pódio em Olimpíadas

Nathalia Garcia - Enviada especial a Kingston, O Estado de S. Paulo

11 de julho de 2016 | 07h00

Das 67 medalhas conquistadas pela Jamaica desde que participou dos Jogos Olímpicos pela primeira vez, em 1948, 66 delas foram obtidas no atletismo – a exceção deve-se a David Weller, no ciclismo, em Moscou-1980. Há quatro anos, o país fez a sua melhor campanha da história ao colocar 12 atletas no pódio em Londres. De acordo com Michael Fennell, presidente da Associação Olímpica da Jamaica, a meta para o Rio-2016 é garantir "uma conta semelhante".

Para cumprir tal objetivo na Olimpíada, a entidade sabe que a presença de Usain Bolt na delegação jamaicana é fundamental. Depois de mais de uma semana de mistério, o nome do astro deve ser confirmado hoje para as provas de 100 m e de 200 metros rasos.

Mas outros atletas também carregam grande responsabilidade. É o caso dos velocistas Yohan Blake e Shelly-Ann Fraser-Pryce – bicampeã olímpica e tri mundial. As novidades podem ficar por conta de Elaine Thompson, que cravou 10s70 nos 100 m na seletiva jamaicana e igualou o recorde nacional, e de Nickel Ashmeade.

A Associação Jamaicana de Atletismo (JAAA) também evita apontar números e reconhece que a pressão por conquistas, especialmente nas provas de velocidade, é grande. "Se a gente for para os Jogos Olímpicos e voltar com cinco medalhas, vão pensar que falhamos. As pessoas na Jamaica querem ver resultados", diz Ludlow Watts, que vai gerenciar os jamaicanos no Rio.

A tradição da Jamaica nas pistas está longe de se repetir nas provas de campo. Mas O’Dayne Richards, do arremesso de peso, tentará mudar esse cenário. Medalha de bronze no Mundial de Pequim, no ano passado, o atleta pode surpreender. "O'Dayne tem se destacado nas disputas internacionais e esperamos que ele vá bem no Rio", projeta Michael Fennell. Atletas de outros esportes também tentam quebrar essa hegemonia do atletismo. Porém, a limitação de recursos é um entrave para a o desenvolvimento deles na Jamaica. "Uma das chaves do alto nível é competir regularmente em outros países e isso tem um alto custo", explica Fennell.

No Rio, a esperança é Alia Atkinson, da natação. Em 2015, tornou-se a primeira mulher negra campeã mundial em piscina curta, em Doha. Meses depois, garantiu ao seu país a inédita medalha em mundiais de piscina longa (50 metros). A missão também cabe a Yona-Knight Wisdom (saltos ornamentais) e Toni-Ann Williams (ginástica artística).

*A repórter viajou a convite do Escritório de Turismo da Jamaica

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