Divulgação
Divulgação

Conheça a 'vida tripla' de Fernanda Decnop, velejadora do Rio-2016

Além da vela, ela mostra que leva jeito para a música e para a veterinária

Igor Ferraz, O Estado de S. Paulo

08 Agosto 2016 | 05h07

Seria simplista demais classificar Fernanda Demétrio Decnop Coelho apenas como mais uma velejadora dos Jogos Olímpicos de 2016. Isso porque, além da pressão que enfrenta para competir nas regatas mais disputadas do mundo, que terão início nesta segunda-feira, ela tem de conciliar o esporte de alto rendimento com os outros interesses da sua ‘vida tripla’. 

Além de atleta da classe Laser Radial, Fernanda Decnop também é veterinária especializada no tratamento de animais grandes e, inclusive, deve participar dos Jogos Paralímpicos do Rio cuidando de um cavalo. Mas ainda não é só isso: ela também é vocalista da Empürios (pronuncia-se ‘empírios’, como corrige a própria Fernanda), banda de Metal Progressivo do Rio de Janeiro, com letras compostas em inglês.

Mas, afinal, de onde surgiu o interesse por três áreas tão diferentes como a vela, a veterinária e a música? Fernanda explica: “Meus pais já eram meio envolvidos com a vela, mas na forma de passeio. A família da minha mãe sempre teve barquinhos pequenos para andar no final de semana. Com isso, sugeriram a nós três (Fernanda e suas duas irmãs) que entrássemos em uma escolinha de vela. E, desde que entramos na água, nos apaixonamos. O interesse pela veterinária também surgiu nesta época, pois tem a parte de gostar de animais desde pequena, mais especificamente quando fui para a fazenda de uma amiga, onde adquiri este fascínio por cavalos e outros animais de grande porte.”

A afeição à música, porém, surgiu de um jeito um pouco diferente, mas também tem a ver com a família: “Uma das minhas irmãs, Renata, começou a tocar guitarra aos 14 anos de idade e também despertou o interesse em mim. Na época, eu tinha 17. Eu sempre gostei de música e sempre tive a vontade de aprender algum instrumento. De repente, ela me perguntou: ‘Vamos fazer uma banda?’, e eu respondi: ‘Mas o que eu vou fazer na banda, vou dançar?’ (risos). Daí, ela me sugeriu que eu cantasse, mas eu não sabia cantar! Então, eu entrei numa aula de canto e comecei a treinar.”

BANDA

Cerca de nove anos depois dos primeiros treinos de voz, era lançado o álbum ‘Cyclings’, o primeiro da Empürios, mais precisamente em fevereiro de 2013. A musicalidade do grupo - que ainda conta com a irmã de Fernanda, Renata Decnop, na guitarra - surpreendeu no álbum de lançamento e possui ótimas avaliações nas principais bibliotecas de música on-line. Com timbres pesados e arranjos complexos, a música da banda também se destaca pela habilidade que a velejadora-veterinária mostra nos vocais.

“A banda ainda existe, mas está meio ‘parada’ porque é muito difícil de conciliar. Afinal, os outros membros também trabalham em outras áreas. Para se juntar, é difícil. Mesmo assim, conseguimos gravar um disco. Nos dedicamos bastante a isso. Foram dias e noites de ensaio, de gravação, shows, divulgação… É uma trabalheira danada!”, conta.

VETERINÁRIA

Fernanda Decnop se formou como veterinária em 2010. Porém, ainda não conseguiu viver o dia-a-dia na medicina animal. Fernanda reconhece que, no atual ciclo olímpico, o foco esteve prioritariamente na vela e a rotina de treinos só aumentou. Atualmente, ela treina de segunda a sábado, mas garante: após a vida de atleta, ela pretende mergulhar ‘de cabeça’ novamente em sua área profissional de formação. Vale lembrar que, na vela, a ‘vida útil’ de um atleta pode se estender um pouco mais do que em outros esportes. Robert Scheidt, por exemplo, irá para sua sexta Olimpíada aos 43 anos.

Porém, Fernanda terá uma grande chance de se provar uma grande profissional no Rio-2016. Não apenas nas competições de vela dos Jogos Olímpicos, mas também no hipismo paralímpico. Isso porque ela pode acabar cuidando de um cavalo de uma atleta uruguaia durante o evento: “Ainda não está fechado, mas após a Olimpíada eu devo viajar para Portugal, onde o animal mora, para conhecê-lo, conhecer sua rotina, seus veterinários, bater um papo... Espero acompanhá-lo aqui nos Jogos Paralímpicos.”

VIDA DE ATLETA

Medalha de bronze no Pan-Americano de Toronto, em 2015, Fernanda conta sobre os obstáculos que enfrentou até se classificar para os Jogos do Rio. Para o Mundial da classe Laser de 2015, disputado em Omã, ela chegou a abrir uma campanha de financiamento coletivo para conseguir ir para a competição. O crowdfunding, apoiado por 98 pessoas, conseguiu arrecadar R$ 12 mil, mas, mesmo assim, a quantia não era suficiente para os altos gastos com a viagem.

“A Confederação tem seus patrocinadores e também conta com recursos do COB. Mas é uma verba restrita, e neste ano, especialmente, foi mais destinada a atletas do Top 10 do ranking mundial. Eu, por exemplo, ainda estou longe desta posição. Portanto, para o Mundial, eu estava sem apoio. Com isso, recorri ao financiamento coletivo.” Apesar de não ter atingido a meta, a campanha acabou abrindo algumas portas para Fernanda, permitindo-a disputar a competição, mas ela reconhece que este tipo de problema acaba tirando - e muito - o foco dos atletas.

“Recebi apoio do COB, eles pagaram algumas coisas, como a hospedagem. Além disso, também consegui um patrocínio novo da Marina da Glória (local das competições de vela nos Jogos Olímpicos de 2016). No Mundial, não consegui o resultado que eu esperava, pois ter de ir atrás destas coisas burocráticas acaba tirando um pouco do nosso foco. Acho que a gente acaba perdendo um pouco a concentração”, conta a velejadora, que também é atleta da Marinha desde 2009.

Nos Jogos Pan-Americanos do ano passado, uma polêmica envolveu os atletas militares que prestaram continência no pódio. Fernanda também fala sobre sua experiência como atleta da Marinha e trata de amenizar a polêmica: “Além do respeito à Marinha, que dá a tanta gente a chance de viver a vida de atleta, a continência é uma forma de respeito à nossa bandeira. Quando a gente entra na Marinha ou nas Forças Armadas, aprendemos uma forma diferente de respeito à pátria. Na verdade, nada tem a ver com ditadura militar, e tudo tem a ver com respeito e uma forma de homenagear a instituição que nos proporciona tantas conquistas e tanto apoio. Se não fosse a Marinha, eu não estaria onde estou hoje. Portanto, sem dúvidas e com toda honra, eu prestaria continência para o Hino Brasileiro no pódio.”

Agora, no Rio-2016, Decnop fala sobre as possibilidades de medalha para a vela brasileira nos Jogos, mas prefere se manter longe da pressão: “Considero que a vela brasileira está muito bem. Temos chances claras de medalha em várias classes. Para mim, não quero muita cobrança. Prefiro focar no meu desempenho, em cada momento da regata… Chegar lá confiante que eu fiz a melhor preparação possível para os Jogos e o resto será consequência.”

Na Olimpíada do Rio de Janeiro, sua cidade, Fernanda provavelmente viverá seu grande momento como atleta da vela brasileira. Mas ela indica que ainda quer conquistar muito mais, tanto no esporte como em suas ‘vidas paralelas’ que dividem espaço com o tempo investido em treinamentos nas águas da Marina da Glória: “Eu costumo dizer que gostaria de ter três vidas, só para viver intensamente cada uma delas”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.