Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Construção do campo de golfe vira polêmica, alvo do MP e de ativistas

Área de preservação ambiental recebe esporte que volta aos Jogos após 112 anos; Comitê Rio defende a escolha, apesar de críticas

Sílvio Barsetti, O Estado de S. Paulo

24 Março 2015 | 00h01

Depois de 112 anos, o golfe volta à Olimpíada e já tem lugar assegurado entre as principais polêmicas dos Jogos de 2016. Tudo por causa da decisão da prefeitura de ceder uma área de preservação ambiental para a construção do campo, que vai receber os melhores golfistas do mundo. Duas ações ajuizadas pelo Ministério Público do Estado questionam a transação e uma delas pede a paralisação das obras.

O campo de golfe, orçado em R$ 60 milhões, é de responsabilidade da Fiori Empreendimentos. Em troca, a prefeitura permitiu a exploração comercial de parte do terreno, localizado na Barra da Tijuca, na zona oeste, e por meio de uma lei complementar mudou o zoneamento para abrigar o projeto – o que levou dois funcionários da Secretaria de Meio Ambiente a entregar o cargo.

Ali, a cinco quilômetros do Parque Olímpico e a poucos passos da Lagoa de Marapendi, devem ser erguidos 23 prédios, cada qual com mais de 20 andares, num condomínio que valeria cerca de R$ 1 bilhão. O gabarito anterior estabelecia o limite de seis pavimentos para imóveis construídos na área.

O MP vê irregularidades na concessão da licença ambiental para o campo de golfe olímpico e alega que o estudo técnico foi indevido. Na primeira das ações, ressalta que é preciso impedir a remoção de vegetação nativa e da fauna, a criação de lagos artificiais e o “prosseguimento de toda e qualquer obra de construção das edificações previstas” para o local.

Enquanto isso, ativistas do 'Ocupa Golfe' acampam há quatro meses em frente ao estande do empreendimento. Eles se revezam em torno de cadeiras de praia, lonas e caixas de isopor para denunciar irregularidades e também querem o embargo das obras.

Estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Pedro Correa, de 19 anos, lamenta o que considera “uma devastação” de um dos espaços mais bonitos da cidade. “Desmataram uma área extensa e agora lutamos para o replantio das espécies nativas e a volta de animais para o seu habitat.”

O grupo conta com quase 10 mil simpatizantes em redes sociais. No local, em meio a quatro pistas da Avenida das Américas, cerca de 50 jovens se dividem em três turnos para exibir faixas e cartazes de protesto. Quando a reportagem do Estado esteve no acampamento, pôde-se ouvir a manifestação de vários motoristas, que por ali passavam em alta velocidade. Alguns buzinavam em apoio ao movimento, outros preferiam ofendê-los.

Uma das queixas dos que contestam a solução da prefeitura do Rio diz respeito ao não aproveitamento do campo de um dos clubes mais bem cotados de golfe da América Latina: o Itanhangá Golf Club. Em carta que veio a público ano passado, o presidente do IGC, Alberto Fajerman, revelou que jamais tinha sido procurado pela organização dos Jogos para avaliar a possibilidade de seu clube sediar competições durante a Olimpíada. Ele enfatizou que o local poderia se adequar e atender as exigências do Comitê Olímpico Internacional (COI).

O presidente da Empresa Olímpica Municipal (EOM), Joaquim Carvalho, garante que houve motivos suficientes para a exclusão. “Como você vai botar dinheiro público em áreas privadas? Além disso, o tamanho do campo (do clube) é incompatível e ali, no Itanhangá, não tem como abrigar 20 mil pessoas.” Para ele, o investimento vai revitalizar uma área “que estava degradada e onde havia exploração regular de areia, que não tinha significado nenhum”. Joaquim sustenta que a fauna e a flora não foram nem serão afetadas com a construção do campo e dos prédios.

“Não é prioridade para a prefeitura ter um campo de golfe. Se fosse com dinheiro público, talvez pudesse haver o questionamento. O investimento no campo olímpico é 100% privado”, disse.

O executivo afirmou ainda que a irrigação do campo de golfe, permanente, não consome água da central de abastecimento do Estado. “Ali há dois lagos artificiais. Não tem uma conta de água milionária. A água bate na grama, a terra absorve, vai para o lençol freático e volta para o lago. Perde-se entre 15% e 20% em evaporação. Não é água para consumo humano.” Essa é uma outra polêmica que já se materializou com protestos de vizinhos, contrariados com o que chamam de desperdício de água num período de crise hídrica.

Uma outra ação partiu do MP para apurar se o prefeito Eduardo Paes teria cometido ato de improbidade administrativa no acordo com a Fiori Empreendimentos para a construção do campo de golfe, permitindo ao grupo “vantagens excessivas e injustificadas”. Por meio de sua assessoria, o prefeito informou que não vai se manifestar sobre o caso porque não foi citado pela Justiça.

MAL-ESTAR

No fim de fevereiro, em conversa informal com repórteres, Paes comentou que “não teria feito este campo de golfe nunca” se dependesse dele e acrescentou que só deu continuidade ao projeto porque “todos os pareceres” indicavam que os demais campos existentes no Rio – além do Itanhangá, o do Gávea Golf – não serviam para os Jogos. Durante um encontro com universitários no Rio, o presidente do COI, Tomas Bach, apresentou outra versão sobre a escolha e disse que Eduardo Paes “pressionou muito pela construção desse campo.”

Sobre a denúncia de desrespeito ambiental, a Fiori sustenta que “é mera executora do projeto” concebido pelo Comitê Rio-2016 e nega eventual prejuízo à fauna e flora. O Rio-2016, de acordo com seu diretor de Comunicação, Mario Andrada, afirma que o “ganho ambiental” na área “é um sucesso” e que a cidade será agraciada “com o melhor campo esportivo público do Brasil”.

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