Coreia do Sul transforma Centro de Treinamento em fábrica de campeões olímpicos

Atletas de diversas modalidades treinam juntos

Raphael Ramos - Enviado especial a Seul, O Estado de S. Paulo

16 de julho de 2016 | 17h00

Shabu-shabu é um dos pratos preferidos dos sul-coreanos. Em uma panela com água fervendo são colocados carnes, verduras, legumes, cogumelos, frutos do mar, crustáceos, macarrão e vários tipos de temperos. O nome shabu-shabu vem do barulho da água e o resultado dessa mistura é um sabor ímpar.

Pois a receita do sucesso esportivo na Coreia do Sul é muito semelhante a um shabu-shabu. Desde 1966, o Comitê Olímpico do país resolveu reunir atletas de diversas modalidades em um único centro de treinamento. Se no shabu-shabu o gosto de cada alimento provoca uma explosão de sabores, a vivência em conjunto de diferentes tipos de esportistas transformou o Centro de Treinamento Nacional Taereung em uma fábrica de campeões. Todos os atletas que conquistaram mais de 200 medalhas olímpicas para o país nas últimas cinco décadas foram forjados no local. 

Em um terreno de mais de 300 mil metros quadrados nas montanhas que cercam a capital Seul, estão 14 ginásios para a prática de 21 modalidades, além de 13 prédios de alojamento com capacidade para receber 468 pessoas, laboratórios, clínicas e refeitórios. Ali, os atletas têm tudo que precisam para se tornarem campeões olímpicos. Do alimento mais básico aos equipamentos de medicina esportiva mais sofisticados. O quadro de funcionários é composto por 140 pessoas. Uma média inferior de quatro atletas para cada profissional.

Os sul-coreanos criaram em Taereung um sistema de formação que une técnica, estratégia e força. Com métodos de treinamento próprios, rigidez e disciplina, fizeram da troca de experiências entre as modalidades um diferencial.

“Decidimos concentrar todos os atletas em um único centro para que eles compartilhassem as mesmas instalações, equipes médicas e treinadores. Unimos esforços porque entendemos que esse é o caminho para obter bons resultados”, explica Jong-Sam Choi, responsável pela administração de Taereung.

Quando a reportagem do Estado visitou o local na última terça-feira, por exemplo, estavam treinando no mesmo horário, a poucos metros de distância, as equipes de judô, tae-kwon-do e levantamento de peso. Após a atividade, todos dividiram o mesmo refeitório.

Os números confirmam que os sul-coreanos acertaram em suas escolhas. Nas últimas três edições dos Jogos, o país ficou entre os dez primeiros colocados no quadro de medalhas, algo que o Brasil nunca conseguiu. Em Londres-2012, os asiáticos surpreenderam e alcançaram a 5.ª posição. Para os Jogos do Rio, a meta é conquistar dez ouros e terminar novamente entre os dez melhores.

O sucesso de Taereung, porém, começa longe dos muros do centro de treinamento. A raiz do sistema esportivo está no trabalho de base, com a criação de programas que incentivam crianças a praticar esportes desde cedo.

Esse conceito ganhou impulso após os Jogos de Seul, em 1988. Assim, com maior oferta, ficou mais fácil selecionar futuros campeões. Para não desperdiçar talento e conseguir transformar potencial em resultado, a estratégia adotada foi estimular a concorrência, algo comum em outras áreas da sociedade sul-coreana. “Só os melhores dos melhores entram em Taereung. Nossos métodos de avaliação são bastante rígidos”, conta Choi.

“Já participei de treinamentos no exterior e percebi que há uma diferença enorme nas horas de trabalho em relação a nós. Aqui, treinamos manhã e noite, todos os dias. Mas cada gota de suor vale a pena”, diz Park Jong-Man, chefe da equipe de tae-kwon-do.

Ninguém no mundo ganhou mais medalhas olímpicas no tae-kwon-do do que a Coreia do Sul. Os sul-coreanos também têm resultados expressivos em outros esportes, como esgrima, judô e tiro com arco. Em um país com uma área territorial semelhante ao Estado de Santa Catarina e 50 milhões de pessoas (25% do número de habitantes do Brasil), foi preciso fazer escolhas. E eles apostaram as suas fichas em esportes cujas disputas são individuais. “Optamos por esportes que custam menos. Modalidades coletivas são mais caras”, admite Choi.

A exceção é o handebol, que entre as mulheres já conquistou seis medalhas olímpicas. No Rio, os sul-coreanos também confiam no time feminino de vôlei. “Na última Olimpíada, não subimos no pódio por um fio. Agora, o foco está em conquistar uma medalha”, diz o técnico Lee Jung-Chul.

O bom momento do vôlei passa pela mudança de perfil e, sobretudo, estatura das atletas sul-coreanas. A atual geração é, em média, oito centímetros mais alta do que a anterior. A ponteira Kim Yeon-Koung, capitã da seleção, por exemplo, mede 1,92 m.

Mas, a força do esporte sul-coreano não está apenas nos músculos ou na altura dos seus atletas. O poder também está na mente. O país possui um centro de pesquisa só para analisar o cérebro dos jogadores. Depois, uma equipe de médicos e psicológicos é responsável por aplicar os resultados desses estudos nos treinamentos realizados em Taereung.

“Concentração e respiração são fundamentais. A fração de 0,001 segundo pode mudar uma disputa. Nada é por acaso”, ensina Kim Jin Goo, chefe do Centro de Medicina Esportiva da Universidade de Konkuk.

*O repórter viajou a convite do Ministério da Cultura, Esporte e Turismo da Coreia do Sul

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Parque Olímpico é exemplo de legado

Local continua como principal polo esportivo do País

Raphael Ramos - Enviado especial a Seul, O Estado de S. Paulo

16 de julho de 2016 | 17h00

Quase três décadas depois da Olimpíada de Seul, a Coreia do Sul impõe um enorme desafio ao Rio: utilizar com melhor eficiência do que os asiáticos as instalações construídas para os Jogos. O Parque Olímpico de Seul continua como principal polo esportivo do País. Em média, mais de 16 mil pessoas usam todos os dias as suas instalações. A cada ano, quase 6 milhões de usuários passam pelo local. Modernizada, a estrutura do parque se transformou, após a Olimpíada de 1988, em um celeiro de jovens talentosos que, anos mais tarde, passaram a defender a bandeira do país nos Jogos.

Um dos espaços mais frequentados é o ginásio de ginástica. Em seu subsolo há dezenas de salas para prática de tênis de mesa, badminton (duas manias nacionais), academias e até campos virtuais e pistas de golfe. O espaço é administrado por uma autarquia criada após os Jogos especialmente para cuidar do legado da competição.

Para usar as instalações do Parque, os frequentadores têm de pagar mensalidades que custam, em média, o equivalente a US$ 80 (R$ 263). O dinheiro é usado para a manutenção e frequente modernização do local. Academias particulares de Seul com estrutura semelhante chegam a cobrar até US$ 300 (R$ 983) de mensalidade.

Outro espaço bastante disputado do Parque Olímpico é o Centro Aquático. Sede das provas de natação e saltos ornamentais nos Jogos de 1988, hoje no local são realizadas aulas de natação e hidroginástica para aproximadamente 5 mil pessoas por mês. Instalações utilizadas pelos atletas durante os Jogos foram transformadas em academias e salas para aulas de dança e pilates.

A 3,5 quilômetros de distância do Parque e ligado por uma avenida está o Estádio Olímpico, palco das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos de 1988. O local compõe um complexo com mais cinco arenas, com destaque para o campo de beisebol. Por ano, o espaço recebe 120 partidas da modalidade.

“A nossa maior renda vem da operação do espaço e com marketing. Recebemos dezenas de eventos, planejados desde a construção do estádio. É preciso ter isso em mente antes mesmo dos Jogos Olímpicos”, explica Yeo-chan Yoon, diretor de esportes e marketing da Prefeitura de Seul.

Construídos numa área antes desabitada da cidade, o Parque e o Estádio Olímpico fazem parte hoje de uma das regiões mais nobres da capital sul-coreana. Localizado ao sul do rio Han, que divide a cidade em duas, o distrito de Songpa possui um dos metros quadrados mais caros de Seul. Bem ao lado está Gangnam, bairro famoso após ser tema de música do rapper Psy.

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Coreanos querem aprender com brasileiros

Jogos Olímpicos do Rio servirão de modelo para os Jogos de Inverno de 2018

Raphael Ramos - Enviado especial a Seul, O Estado de S. Paulo

16 de julho de 2016 | 17h00

O Rio servirá como modelo para os Jogos de Inverno de 2018, em PyeongChang. A Coreia do Sul enviará uma comitiva ao Brasil para acompanhar os bastidores e toda a operação da Olimpíada. “Quero aprender com o Rio e aplicar em 2018”, disse o presidente do Comitê Olímpico Sul-coreano, Kim Jung-haeng.

Entre os integrantes da comitiva asiática estará o secretário-geral e vice-presidente executivo do Comitê Organizador dos Jogos de PyeongChang, Hyung-koo Yeo. “Vamos ver no Rio como operar uma Olimpíada, principalmente em relação ao fluxo de espectadores e à gestão da Vila dos Atletas”, disse.

O maior desafio está na logística. Os sul-coreanos, inclusive, pretendem firmar com o Comitê Rio-2016 um convênio para que brasileiros que estão trabalhando na organização dos Jogos visitem PyeongChang nos próximos meses. “Queremos a cooperação e o apoio do Rio com o objetivo de aumentar a eficiência dos nossos serviços”, disse Yeo.

Os sul-coreanos também pretendem utilizar os Jogos Olímpicos no Rio para promover PyeongChang. Por isso, vão montar uma casa temática em Copacabana durante a Olimpíada com o objetivo de atrair turistas ao país em 2018.

Os Jogos de Inverno têm a metade do tamanho em relação às Olimpíadas de Verão. PyeongChang, por exemplo, terá a participação de 100 países e 6.300 atletas. No Rio, serão ao todo 206 nações e 12.500 participantes.

A Coreia do Sul gastará US$ 11,3 bilhões (R$ 37,2 bilhões). Serão construídas seis arenas e reformados outros seis espaços de competição. A partir de novembro do ano que vem, os organizadores já começarão a estocar neve em galpões climatizados. A Olimpíada será realizada em fevereiro de 2018 e há o temor de que as temperaturas possam estar elevadas durante o evento.

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