Wilton Junior|Estadão
Nadador iria se preparar fora do País, mas viagem foi abortada Wilton Junior|Estadão

Nadador iria se preparar fora do País, mas viagem foi abortada Wilton Junior|Estadão

Coronavírus atrapalha planejamento de atletas brasileiros para os Jogos de Tóquio

Com programação de competições alterada, quem luta por vaga ou está garantido no Japão tem de mudar preparação

Felipe Rosa Mendes, Paulo Favero , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Nadador iria se preparar fora do País, mas viagem foi abortada Wilton Junior|Estadão

Já são dezenas de eventos esportivos cancelados ao redor do mundo por causa do coronavírus e a lista aumenta a cada dia. Faltando menos de cinco meses para os Jogos de Tóquio, principal competição da temporada, a preocupação agora é tentar controlar a proliferação da doença e por isso as aglomerações de torcedores não são bem-vindas.

Só que cada torneio adiado, transferido de local ou cancelado mexe bastante com a preparação dos atletas. Muitos ainda buscam pontos no ranking, índices ou classificação para a Olimpíada e a Paralimpíada. Por causa disso, o coronavírus tem atrapalhado os competidores de elite, que precisam refazer agenda e alterar viagens e vivem a ansiedade de possíveis mudanças no calendário internacional.

O nadador Guilherme Costa participaria neste fim de semana do Troféu Cidade de Milão. A competição seria o primeiro passo da preparação especial na altitude italiana, quando ele passaria 21 dias treinando em Livigno, 1.816 metros acima do nível do mar. Mas após os inúmeros casos de coronavírus na Europa, a missão foi abortada. "A competição foi cancelada", contou o atleta ao Estado. Como opção, ele vai adaptar em sua casa um equipamento do COB (Comitê Olímpico do Brasil) para simular a altitude em seu próprio quarto.

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Tenho de ficar o máximo de tempo possível dentro do quarto pelos próximos 20 dias, para fazer mais efeito e simular a altitude
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Guilherme Costa, nadador

O equipamento pode ser programado para simular até 2.800 metros de altitude. O aparelho conta com uma bomba e com um tubo, que sugam o ar do quarto. Com esse mecanismo, o ar vai se tornando cada vez mais rarefeito, até chegar à "altitude desejada" – Guilherme vai estabelecer 2.500 metros como referência. É como se todo o quarto se tornasse uma bolha, com característica única em comparação aos demais cômodos da casa.

"Tenho de ficar o máximo de tempo possível dentro do quarto pelos próximos 20 dias, para fazer mais efeito e simular a altitude. Vou ficar no mínimo 12 horas por dia assim. E vou aproveitar este tempo, já que não vou viajar, para fazer uma análise técnica para acertar minha virada nas provas."

Quem também teve de mudar seus planos foi Alana Maldonado, que disputaria entre 6 e 17 de março um evento em Tóquio preparatório para os Jogos Paralímpicos. A competição foi cancelada e a delegação de nove pessoas não viajou. "É uma pena porque seria um evento-teste para a Paralimpíada e a gente iria ficar lá dez dias depois treinando", afirmou a judoca, que é líder do ranking em sua categoria com boa vantagem na ponta. "Temos mais duas competições que valem pontos, na Inglaterra e no Azerbaijão", diz.

A situação foi pior para 20 nadadores paralímpicos, que competiriam em Lignano em um das etapas do circuito mundial. O evento foi cancelado e quando os atletas chegaram na Itália, incluindo o multicampeão Daniel Dias, receberam a notícia e tiveram de voltar para o Brasil.

Situação inusitada passou Hugo Calderano, do tênis de mesa. Ele precisa somar pontos no ranking mundial para tentar chegar em uma situação boa no evento olímpico para evitar cruzamentos precoces contra atletas chineses, considerados os mais fortes. As três próximas competições importantes são no Catar, semana que vem, e depois no Japão e na China. Apesar de não ter nada oficial, é possível que esses eventos sejam cancelados e com isso ele não poderia somar mais pontos.

"Estamos preocupados com as consequências para os eventos e principalmente para os Jogos de Tóquio. Mas confiantes de que o COI e o Comitê Organizador vão tomar as melhores decisões conforme as orientações da OMS (Organização Mundial de Saúde). O mais importante é preservar a segurança dos atletas, torcedores e envolvidos", comentou Calderano.

As últimas chances de classificação olímpica para brasileiros dos saltos ornamentais e nado artístico para os Jogos de Tóquio serão em dois eventos marcados para abril no Japão. Por enquanto não houve qualquer sinalização de cancelamento das competições, dada a importância delas, mas os atletas nacionais estão cientes dos problemas que podem ocorrer.

"Seguimos observando e nos planejando para as certezas e eventuais incertezas, mas até que seja confirmada uma mudança, nosso planejamento de treinamento segue igual. Estamos monitorando de perto este assunto, mas, por enquanto, vida normal, com cautela e seguindo todas as precauções", explicou Tammy Galera, que busca vaga olímpica.

O Brasil vai enviar cinco atletas dos saltos ornamentais e do dueto de nado artístico para tentar a classificação. Segundo o técnico Oscar Urrea, a Federação Internacional de Natação ainda não se pronunciou. "Estamos acompanhando as notícias, mas o nosso planejamento segue igual até que algo mude oficialmente", diz, ciente de que podem ocorrer alterações no planejamento. "Tudo depende de qual seria essa suposta mudança. Se mudarem para um espaço de tempo de um mês, a preparação é a mesma. Se mudarem para seis meses, é outra preparação. Mas isso a gente só pode saber caso decidam mudar."

SKATE

A situação no skate é semelhante. O Mundial de Park, competição que dá o maior número de pontos para o ranking olímpico, será em Nanjing, na China, de 26 a 31 de maio. Dois eventos importantes da modalidade em abril, que seriam no país, foram suspensos. "Estamos atentos e em diálogo direto com a World Skate, inclusive para ajudar a encontrar soluções para o calendário", explicou Eduardo Musa, presidente da Confederação Brasileira de Skate (CBSk).

Ele lembra que o mais importante é tranquilizar os atletas. "Ajustar a rotina de treinos não é o mais complexo. Certamente todo esse momento de expectativas e indefinições é o que requer nossa maior atenção. Entendemos que é um trabalho de preparação muito mais emocional que físico. Temos mantido um diálogo transparente e transmitindo as informações que recebemos sempre que há nova atualização. Mas, realmente, precisamos esperar o desdobramento das coisas e seguir focados em nossa preparação."

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Esgrimista brasileira não teme permanecer na Itália: ‘Vou continuar treinando aqui’

Atleta está em um país bastante afetado pelo coronavírus, mas garante que está segura em busca da vaga olímpica

Entrevista com

Bia Bulcão

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

29 de fevereiro de 2020 | 13h00

A esgrimista Bia Bulcão está treinando na Itália para conseguir sua vaga olímpica para os Jogos de Tóquio. O país é um dos mais afetados pelo coronavírus, mas a atleta de 26 anos garante que está segura em sua cidade próxima a Roma e que o foco do problema está em outras regiões do país.

Como está a situação na Itália após os casos de coronavírus?

O problema está mais no norte, na região da Lombardia. Eu estou em Frascati, uma cidade pequena, a 30 minutos de Roma, e não tem nenhum caso ou risco, a vida está seguindo normalmente. Quando voltei de competição, notei que no aeroporto as pessoas estão tendo mais cautela, usando máscaras, mas não teve medidas de emergência.

Você teve de mudar sua rotina ai por causa desse problema?

Minha rotina continua a mesma, apenas tomo cuidado com a minha saúde, lavo bem as mãos, presto atenção na alimentação, essas coisas.

Você pensa em retornar ao Brasil antes do previsto?

Meu plano não é voltar para o Brasil agora e seguir com meu planejamento visando a classificação olímpica. Claro, se a situação piorar, posso rever o que vou fazer. Mas por enquanto a ideia é continuar aqui com meus treinos.

Quais são suas chances de classificação olímpica?

São boas. Tenho na próxima semana um Grand Prix nos Estados Unidos, para tentar a vaga pelo ranking mundial. Caso não consiga, depois em abril tem o pré-olímpico. Só o vencedor classifica, mas tenho boas chances. Estou me preparando para isso e espero fazer uma boa prova para alcançar o resultado.

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Revezamento da tocha vai ser o grande desafio dos japoneses antes da Olimpíada

A partir do dia 26 de março, artefato vai passar por várias cidades; evento vai ser menor do que o planejado

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

29 de fevereiro de 2020 | 13h00

O revezamento da tocha olímpica será o grande desafio para o Comitê Organizador dos Jogos de Tóquio nas próximas semanas. A cerimônia da “chama sagrada” será celebrada na Grécia no dia 12 de março, depois haverá uma volta por sete dias no país europeu, e na sequência, a partir do dia 26 de março, começará oficialmente o revezamento em solo japonês – o objeto chegará no dia 20 em Miyagi.

Só que o Comitê Organizador já indica que o evento será bem menor do que o planejado, para evitar que o coronavírus se espalhe ainda mais durante esse período que provavelmente terá aglomeração de pessoas. “Nós pretendemos anunciar nossa política básica na próxima semana”, explicou Masa Takaya, porta-voz do comitê.

No projeto inicial, o revezamento começará em Fukushima, local que sofreu com o terremoto de 2011. E passará por 47 prefeituras, e os principais cartões-postais do país, até chegar na cerimônia de abertura, marcada para 24 de julho em Tóquio. A tendência é que o Comitê Organizador reduza a quantidade de pessoas envolvidas em cada etapa do revezamento.

Serão 121 dias de celebração e a estimativa preliminar indica que cerca de 10 mil pessoas carregarão a tocha olímpica no Japão. O evento conta com patrocinadores globais como Coca-Cola e Toyota, e costuma reunir grandes atletas e celebridades em cada etapa do percurso. É o aquecimento para a Olimpíada e até por isso, os organizadores sabem que não podem falhar.

Recentemente, um evento para voluntários dos Jogos foi cancelado, a fim de evitar a aglomeração de pessoas nesse período mais crítico do inverno. Shinzo Abe, Primeiro Ministro do Japão, pediu o fechamento das escolas públicas até abril, para manter as crianças em casa. O foco total está em garantir que a nação passará por esse momento sem grandes traumas para poder confirmar a realização da Olimpíada no verão.

Diversos eventos esportivos estão sendo cancelados no Japão para diminuir o risco de que o coronavírus se espalhe em um ritmo mais rápido. Neste domingo (sábado à noite no Brasil), por exemplo, será realizada a Maratona de Tóquio, mas apenas com a presença de atletas de elite e cadeirantes – muitos ainda estão em busca de índice para competir nos Jogos Olímpicos. Cerca de 200 pessoas disputarão a prova de 42.195 metros enquanto 38 mil corredores que estavam inscritos não puderam participar. Muitas outras competições pelo país foram suspensas.

COB orienta atletas a evitar viagens a China e Coreia do Sul

O Departamento Médico do Comitê Olímpico do Brasil (COB) orientou os atletas e comissões técnicas a evitar viagens para China e Coreia do Sul. "São totalmente contraindicadas", disse. A medida é mais rigorosa que as recomendações do Ministério da Saúde, que não inclui a Coreia como um destino a ser evitado.

A equipe médica da entidade elaborou um documento apresentando como se dá a transmissão do coronavírus e quais as formas de prevenir. O COB avisou que “seguirá as orientações das Federações Internacionais e definirá a participação em competições e treinos realizados em áreas de risco junto às Confederações Brasileiras Olímpicas.” O COB também garante que dará todo suporte aos atletas para não terem prejuízo em sua preparação.

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