Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Corredor etíope quer representar Brasil e sonha com dois ouros

Após a prata nos Jogos do Rio e o protesto na linha de chegada, atleta treina no CT Paralímpico em São Paulo

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

03 Março 2018 | 17h20

Tamiru Demisse já colocou como meta ganhar duas medalhas de ouro, uma nos 1.500 m e outra nos 800 m. Pode ser nos Jogos Paralímpicos de Tóquio, em 2020, ou no ParaPan de Lima, no ano que vem, porque talvez ainda não consiga agilizar o processo de naturalização. No momento, tem apenas um protocolo de solicitação de refúgio, que o permite trabalhar por aqui.

+ Darlan Romani termina em quarto no arremesso de peso do Mundial Indoor

Ele nasceu na Etiópia e representou seu país nos Jogos do Rio. Conquistou a medalha de prata na Paralimpíada nos 1.500 m na classe T13, para atletas de baixa visão. Demisse até poderia ter ganhado o ouro, mas achou que já tinha ultrapassado a linha e diminuiu o ritmo para cruzar os punhos acima da cabeça, como protesto. Perdeu o lugar mais alto do pódio, mas chamou atenção para o massacre que estava acontecendo com o povo Oroma na África.

“Depois que protestei, sabia que teria problemas se retornasse para a Etiópia. Lá mataram muitos estudantes, dois dos meus amigos foram mortos em protestos na minha cidade, meu irmão de 15 anos ficou preso três semanas... Era um estado de emergência e por isso protestei”, diz o corredor ao Estado.

Pelo gesto, ele decidiu permanecer no Brasil após os Jogos Paralímpicos e ficou morando no Rio de Janeiro. O maratonista Feyisa Lilesa, seu compatriota e prata na Olimpíada em 2016, enviava um pouco de dinheiro para ajudá-lo a se manter. Em comum, além da amizade, estava o mesmo símbolo de protesto feito com os punhos ao cruzar a linha de chegada. “Ele me ajudou por um período”, conta.

No Rio, o atleta treinava no Parque do Flamengo sozinho. “Era muito calor”, lembra. A barreira da língua era uma dificuldade, pois ele falava apenas a língua oromo e outros dialetos da Etiópia. Aos poucos foi melhorando sua comunicação, em português e inglês, e aí descobriu que existia um Centro de Treinamento do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) em São Paulo.

Arriscou mudar de cidade e foi parar em um centro para refugiados. Mas logo percebeu que ali, apesar de ter o mínimo, não era o local ideal para um atleta de elite. “A região era ruim para treinar e eu só podia comer e dormir lá, não tinha como descansar. Então tomava o café da manhã e tinha de sair. Voltava para o almoço e tinha de sair novamente. Se ia treinar no parque do Ibirapuera, só podia tomar banho no final da tarde. Era complicado.”

De tanto ver Tamiru parado na rua, esperando para poder voltar ao centro para refugiados, um taxista acabou fazendo amizade com ele e nessas conversas indicou para o etíope onde ficava o CT Paralímpico. Ao chegar lá, a situação do atleta mudou radicalmente. Ele passou a ter um treinamento para atleta de ponta e melhores condições para a prática do atletismo, além de conseguir moradia com a ajuda da Associação Desportiva para Deficientes.

“O Tamiru é um grande atleta, de enorme potencial, e é uma situação desafiadora para ele. Inicialmente oferecemos toda nossa estrutura de treinamento, nossos técnicos, a pista, o espaço, só que a gente percebeu que ele precisava de mais. Então passamos a complementar essas condições esportivas oferecendo também alimentação e materiais esportivos. Com isso o CPB passa a dar uma assistência total para ele, para que possa estar acolhido aqui no Brasil e continue sendo um grande atleta”, explica Mizael Conrado, presidente do CPB.

O etíope compete como atleta de baixa visão por causa de um problema que teve na vista quando tinha 16 anos. Ele é cego do olho esquerdo e enxerga mal com o direito. “Minha família diz que eu fiquei doente e fui perdendo a visão. Antes enxergava normalmente”, afirma o rapaz, que começou tarde no atletismo. “Eu comecei a correr em 2012, antes só estudava. Eu nem sabia sobre Jogos Paralímpicos na Etiópia, não tinha informação disso lá. Não existia técnicos especialistas nisso, então passei a treinar com atletas sem deficiência. E ganhava as provas.”

Tamiru lembra que a saudade da mãe, do pai e do irmão é grande. Mas ele quer tocar sua nova vida no Brasil e vestir a camisa verde e amarela nas competições. “Agora acho que será mais fácil. Eu moro aqui, treino aqui e meu futuro é representar o Brasil. Eu não tenho dinheiro ou patrocinador, e a documentação está em processo legal. Acho que vou tentar disputar mais três edições dos Jogos Paralímpicos. Depois disso, vou tentar me dedicar à maratona”, conclui o atleta, sorrindo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.