Antonio Lacerda|EFE
Antonio Lacerda|EFE

Crise afetou Jogos Olímpicos do Rio, dizem dirigentes

Federações reclamam da qualidade da água, atrasos e cortes de funcionários; evento-teste da ginástica teve falhas de iluminação

Jamil Chade, enviado especial a Lausanne, e colaboração Daniel Batista, O Estado de S. Paulo

20 de abril de 2016 | 07h00

Documentos confidenciais obtidos com exclusividade pelo Estado revelam que a crise política e econômica no Brasil afetaram de forma profunda a organização dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, chegando até mesmo a colocar em questão a capacidade dos organizadores em erguer alguns dos locais do evento e colocando a segurança dos atletas em risco. Nesta terça-feira, em um discurso, o presidente do COI, Thomas Bach, admitiu que o evento ocorre em circunstâncias "sem precedentes" e pede "solidariedade" de todos com o Brasil. 

Atrasos persistentes, qualidade da água "medíocre", corte de orçamentos e redução de funcionários foram alguns dos problemas mencionados num documento preparado para a Assembleia Geral da Associação Internacional de Federações Esportivas (Asoif), a entidade que reúne a cúpula de todas as modalidade que estarão no Rio.

O Comitê Rio-2016 afirma que o relatório surgiu após o último encontro entre as federações antes dos Jogos e que nesta fase é natural a discussão de detalhes e de uma análise geral da estrutura. Entretanto, tudo está sendo resolvido e a promessa é que não terá nenhum problema durante os Jogos. Na terça-feira, diversas federações esportivas ensaiaram numa reunião em Lausanne uma rebelião contra os organizadores dos Jogos, alertando até mesmo que foram "vítimas" de decisões políticas de levar o torneio para o Brasil. Faltando apenas três meses para o evento, a reunião foi a última entre todas as federações e os organizadores e revelou um forte clima de desconfiança. 

O COI vai enviar um grupo para permanecer na cidade brasileira na esperança de resolver a crise que, segundo os dirigentes, afeta "todos os campos de jogo". Num documento de 17 de março e distribuído unicamente aos dirigentes nesta terça-feira, a constatação das federações revela a dimensão da crise. Segundo o informe, além de questões como "a qualidade medíocre da água afetando várias federações, a capacidade geral de sustentar os Jogos, a redução de funcionários do Comitê Organizador Local e o atraso na planificação operacional, a questão das finanças no nível federal, estadual e municipal dominou a preparação". 

O informe ainda contradiz a versão oficial da Rio-2016 de que não houve corte de orçamento. "O Comitê Organizador anunciou 30% de economia no restante dos gastos, o que várias federações esportivas já começaram a sentir", apontou.

Para a Associação, a responsabilidade pela situação é da crise política e econômica no Brasil. "Isso precisa ser julgado diante do fato de o governo do Brasil, enfrentando um escândalo de corrupção em um ambiente político volátil, está sendo confrontado por um aumento na inflação de 50%, do desemprego e uma queda de 35% no valor da moeda brasileira em relação ao dólar", indicou. O documento revela como o grupo criado pelo COI passou a ter reuniões frequentes. Um dos encontros mais importantes ocorreu no dia 2 de fevereiro, segundo o relato. Durante a reunião, os organizadores informaram sobre os ajustes que foram obrigados a fazer. Segundo o informe, porém, as propostas e a situação de Deodoro foram alvos de "preocupações". 

SEM LUZ

Num outro documento da Federação Internacional de Ginástica (FIG) de 18 de abril, a entidade aponta que o evento-teste realizado no Rio nos últimos dias foi alvo de duras críticas por parte dos dirigentes. Com cortes no orçamento, o resultado foi uma iluminação precária. Num trecho intitulado "problemas importantes", a entidade alerta que cinco falhas no abastecimento de luz ocorreram, inclusive prejudicando os dados Omegas - que mantém as contas dos competidores. Uma das falhas ainda ocorreu, segundo o informe, enquanto atletas estavam em competição. "Isso coloca a segurança dos atletas em risco", indicou.

A FIG ainda apontou que a Rio-2016 não cumpriu o prometido no que se refere à iluminação no centro de treinamento. "A exigência mínima de 1500 Lux na sala de competição e 800 Lux no treinamento não foram atendidas diante de corte de custos e em detrimento dos atletas e da produção de TV", explicou. " Temos sérios problemas com os Jogos ", disse Ron Frohlich, representante da FIG ao Estado, culpando o corte de orçamento pela situação. 

Na segunda, a luz voltou a falhar no evento-teste da ginástica e a competição ficou parada por 15 minutos. O COL diz que houve uma pequena queda de luz e o que o gerador foi ativado.

COBRANÇAS

​Nesta terça, Agberto Guimarães, diretor esportivo da Rio-2016, assumiu que nem todas as federações tiveram suas "expectativas atendidas".  Mas prometeu que irá lidar com todas as demandas. Carlos Arthur Nuzman, presidente da Rio-2016, justificou o fato de que, em 2009, o cenário da escolha do Brasil para sediar o evento era "completamente diferente". Segundo ele, 98% das obras estão prontas.

Para os dirigentes estrangeiros, a explicação de Nuzman não resolve e apelam para que haja uma mudança na forma de escolher as futuras sedes. Marius Vizer, presidente da Federação Internacional de Judô, deixou claro que o evento apenas foi para o Rio por "uma decisão política". "Fomos vítimas de votos e de uma decisão política e agora precisamos limpar a história com falta de recursos", atacou. 

Francesco Ricci Bitti, presidente da Associação de Federações Esportivas, respondeu alertando que "todos nós fomos vítimas". Nuzman rebateu a crítica. "Tivemos mais de 60 votos", insistiu. Mas Ricci Bitti admitiu ainda que o que o Rio tem feito "não é suficiente". "Eles fizeram bastante. Mas perderam detalhes muito importantes em todos os campos de jogo", disse. Bach, segundo ele, não está satisfeito. "Ele está preocupado, como eu e vocês", disse o italiano às federações.

De acordo com Ricci Bitti, o COI informou às federações que vai designar grupo "de alto escalão" para viajar ao Rio de Janeiro para acompanhar a preparação e tentar resolver cada uma das crises de maneira pontual. Ainda assim, as federações não hesitaram em buscar o brasileiro. Assim que o evento terminou, representantes da Federação Internacional de Tênis se aproximaram a Nuzman. "Estamos muito preocupados", disseram. A Federação Internacional de Levantamento de Peso também se queixou da falta de aprovação de mudanças solicitadas. Ricci Bitti admitiu que os atrasos ocorreram por conta da falta de dinheiro. 

Um dos problemas é ainda o velódromo, ainda não concluído. O presidente da Federação de Rugby, Bernard Lapasset, também aponta problemas na grama, a arquibancada e a iluminação do local onde ocorre sua modalidade, em Deodoro. Um dos membros da missão enviada ao Rio será Christophe Dubi, diretor de Esportes do COI. Ao Estado. ele admitiu que "o que tira o sono é a quantidade de trabalho que há até agosto". 

CONFIRA ALGUNS DOS PROBLEMAS

GINÁSTICA 

Corte de gastos afetou iluminação dos locais de competição durante evento-teste. 

RÚGBI

Federação internacional critica grama, arquibancada e iluminação do estádio em Deodoro.

TÊNIS

Entidade internacional reivindica melhorias nas instalações. 

VELA E REMO

Água com qualidade considerada medíocre. 

CICLISMO

Atraso no velódromo, que tem obras ainda por terminar.

DEODORO

Falta de dinheiro afetou operação final de montagem de locais de competição no complexo olímpico. 

VERBA

Incerteza sobre a irrigação de recursos para última etapa de preparação de todas as instalações esportivas.

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