Ricardo Moraes/Reuters
Ricardo Moraes/Reuters

Cúpula do COI negociou com indiciado por venda de ingressos

E-mails revelam ligação entre dirigentes e o irlandês Pat Hickey, que fornecia entradas para o mercado negro

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2016 | 05h00

A cúpula do Comitê Olímpico Internacional (COI) negociou com o dirigente indiciado por venda de ingressos no Rio, Pat Hickey, um esquema para permitir que seus interesses e pedidos fossem atendidos para a distribuição de entradas para a Rio2016. Isso é o que revelam e-mails encontrados pela polícia da cidade carioca entre o dirigente e membros do COI.

Em agosto, Hickey, presidente do Comitê Olímpico Irlandês, foi preso no Rio, acusado de fornecer de forma ilegal ingressos para o mercado negro. Na semana passada, ele e mais nove pessoas, entre eles executivos da empresa THG, foram indiciados. A polícia do Rio indicou que a companhia, mesmo sem ter direitos de vender entradas, as comercializava a preços inflacionados. Todos negam as irregularidades. 

Naquele momento, o COI insistiu que o assunto era um problema do Comitê Olímpico Irlandês, deixando claro que iria tentar se distanciar de qualquer defesa de Hickey. Tanto o COI quanto a Rio2016 também insistiam que a empresa suspeita, a THG, não tinha qualquer contrato com os Jogos. A entidade internacional também apontava que, se houvesse uma investigação, ela caberia aos irlandeses. 

Mas e-mails revelados pela polícia na semana passada apontaram que Hickey havia solicitado diretamente ao presidente do COI, Thomas Bach, um número maior de ingressos. As autoridades esperavam ouvir Bach quando o alemão viajasse ao Brasil para os Jogos Paralímpicos. Mas, pela primeira vez desde 1984, um presidente do COI não estará no evento. A entidade não deu explicações sobre sua ausência. 

Agora, outros e-mails apontam que a cúpula do COI estava por meses negociando o assunto com Hickey. 

Hickey havia solicitado no dia 10 de abril que o COI abrisse uma exceção e que permitisse que o Comitê Irlandês fosse designado como parceiro na venda de ingressos. Os irlandeses, por sua vez, escolheriam a empresa THG como o "sub-agente". Hoje, essa é a empresa acusada de fazer parte do esquema de vendas ilegais. 

ACORDO

Num e-mail que também foi enviado ao CEO dos Jogos, o brasileiro Sidney Levy, Hickey indicava o plano e chegava até mesmo a envolver Bach. "Tive também uma conversa ontem com o presidente Bach e expliquei a estratégia e ele confirmou que ele a aceitaria", indicou o irlandês.

Na mesma mensagem Hickey explica que esteve em contato "pelas últimas semanas" com Pere Miró, o vice-diretor-geral do COI.  

Menos de quatro horas depois, o diretor-executivo do COI, Christoph Dubi, confirmava que a negociação já estava ocorrendo. "Entendo que discussões já estão ocorrendo com Howard (Stupp, diretor jurídico do COI) para preparar um rascunho", indicou Dubi. 

Num email de 16 de abril de 2015, o diretor jurídico do COI, Howard Stupp, apresentou o que seria o rascunho do acordo e sugeriu ao próprio Hickey que um e-mails fosse escrito por diretor-executivo da entidade, Christoph Dubi. A mensagem daria uma solução para o pedido do irlandês e aceitando a proposta do dirigente hoje indiciado. 

"Surigo que o COI escreva a seguinte carta a Pat", explicou Stupp. "Ela poderia estar em nome de CHD", indicou. Essas seriam as iniciais para Christoph Dubi.

"O COI nota que a situação com relação aos Jogos do Rio é fora do ordinário, ou seja, que a Rio2016 indique o Comitê Irlandês (OCI) como o ATR (agente oficial) para o Jogos do Rio e que o OCI, por sua vez, apontará o THG como seu sub-agente para os Jogos", indicou. 

Procurado pela reportagem, o COI se recusou a fazer qualquer comentário ao ser questionado pelo Estado sobre os e-mails citando dois de seus mais altos dirigentes. "Não temos comentários, já que  assunto é alvo de inquérito", indicou Mark Adams, porta-voz do COI. 

Abafa - Se o COI insiste até agora que não tem relações com a empresa THG no Rio, os e-mails também provam que a entidade internacional havia dado à companhia sob suspeita um contrato para os Jogos de Inverno de 2018, em PyeongChang.

Já com as prisões em andamento, o consultor de comunicação, Jon Tibbs. entrou em contato com Hickey, que ainda estava solto, para alertar sobre a necessidade de dar a entender quer os irlandeses estavam investigando a situação caso o assunto chegasse à imprensa. No dia 9 de agosto, ele escreveu: "Podemos usar esses contatos com o COI para mostrar que já tomamos ação. Podemos usar com a imprensa se e quando a relação com PyeongChang 2018 se tornar pública", completou.  

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