Mike Blake|Reuters
Após levar três atletas para Londres-2012, Mauritânia virá com dupla para o Rio Mike Blake|Reuters

Equipes nanicas são quase metade das 207 delegações dos Jogos

Olimpíada terá países pequenos e que virão sem expectativa de medalha

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo, O Estado de S. Paulo

31 de julho de 2016 | 05h00

Se Belize, Gâmbia e Vanuatu não ficassem tão longe do Brasil, poderiam trazer os atletas para os Jogos do Rio juntos no mesmo micro-ônibus que não causariam aperto aos competidores. Juntos, os três países virão para a Olimpíada mais numerosa da história com apenas 11 atletas – um time de futebol – e são exemplos do quanto a festa mundial do esporte pode ser das multidões e também dos quase solitários.

O desfile de abertura, na próxima sexta-feira, vai apresentar o número recorde de 207 delegações. A presença no Rio de 11,4 mil atletas, porém, não deixa clara a forma como essa soma se tornou tão elevada. Quase metade dos países, 101, vai trazer aos Jogos equipes com até dez competidores. 

O menor é o "Time Tuvalu". O arquipélago da Oceania de 10 mil habitantes será representado no Rio por apenas um atleta. Timuani Etimoni terá a dura tarefa de tentar ser competitivo nos 100 m rasos, prova em que tem como melhor marca na carreira 11s72, índice bem acima do recorde mundial, os 9s58 do jamaicano Usain Bolt, favorito ao ouro. 

"Até queríamos ter levado mais atletas, mas não conseguimos vaga nas seletivas de tênis de mesa e levantamento de peso, as nossas apostas", afirmou o secretário-geral do comitê olímpico do país, Tito Isala.

O discurso do espírito olímpico de "o importante é competir" é o que move a vinda de atletas com poucas expectativas de resultados expressivos. Para Ilhas Salomão, o prêmio é ter conseguido garantir a presença de um trio. "Somos um país pequeno e distante do Brasil. Muita gente daqui adora a nação pelo futebol e ir até esse país já vale pelo valor, história e a experiência. Isso é maior do que qualquer preocupação que podemos ter sobre a sede", disse o diretor do comitê olímpico local, Ronald Bei Talasasa.

A delegações com poucos atletas, geralmente vindas de países com pequenas populações, trazem curiosidades, como San Marino. A pequena república de 61 km² encravada no norte da Itália aposta em duas irmãs para subir ao pódio. Os destaques do quinteto de atletas são as atiradoras Arianna e Alessandra Perilli, rivais na prova de fossa olímpica, no tiro ao prato. "Somos só cinco atletas olímpicos em um país de 33 mil habitantes. É muita emoção poder disputar uma Olimpíada com minha irmã, uma grande satisfação. Espero que seja muito proveitoso", disse Alessandra.

Com 206 países membros, o COI é mais numeroso do que a ONU e adota uma política de inclusão para organizar cada Olimpíada. Todos os afiliados têm direito a pelo menos uma vaga masculina e outra feminina na natação e no atletismo. No Rio, a entidade vetou a presença do Kuwait (leia mais abaixo), mas terá duas delegações transnacionais: Atletas Olímpicos Refugiados e Atletas Olímpicos Independentes.

O COI também aposta em um programa de bolsas para auxiliar atletas de países de maior necessidade. No Rio, estão confirmados 839 competidores que recebem assistência financeira, técnica e cobertura de gastos com passagens. O Brasil levará a segunda maior delegação dos Jogos, 479, atrás apenas dos 561 americanos. Os atletas da casa serão mais numerosos do que as 90 menores delegações somadas. Somente o elenco à disposição do técnico Rogério Micale no futebol masculino iguala a quantidade da soma de competidores dos nove países que terão dois atletas cada./ Colaborou Demetrio Vecchioli

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Independentes e Refugiados formam equipes que não estão no mapa

Competidores vão disputar medalhas no Rio sob a bandeira do COI

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

31 de julho de 2016 | 05h00

Dez competidores escolhidos pelo COI serão os primeiros a carregar nos Jogos a bandeira dos Atletas Olímpicos Refugiados. Nascidos em países como Síria, Sudão do Sul, Etiópia e República Democrática do Congo, eles vão estrear a presença nas competições de uma delegação formada por vítimas de conflitos. Assim como os refugiados, a equipe dos Atletas Olímpicos Independentes é outra a estar no evento sem existir no mapa.

As duas únicas delegações que não representam nações com territórios delimitados têm juntas 19 competidores. O time dos refugiados foi uma iniciativa tomada pelo COI em março após o começo da crise migratória. A entidade recebeu 43 pedidos de inscrições de atletas. Todos eles passaram a receber assistência, mas somente dez foram contemplados com a vaga olímpica.

A escolha se deu pela análise individual do potencial competitivo e da situação dos refugiados. A lista final tem cinco corredores do Sudão do Sul, dois nadadores da Síria, um maratonista da Etiópia e dois judocas da República Democrática do Congo. Esses dois últimos, inclusive, escolheram o Brasil como o país de refúgio: Yolande Mabika e Popole Misenga.

Os dois vieram ao Rio em 2013 para disputar o Mundial da categoria, mas abandonaram a delegação para evitar os problemas de um país assolado pelas guerras civis.

INDEPENDENTES

A outra delegação que não é um país terá somente atletas do Kuwait. O comitê olímpico de lá foi punido pelo COI em outubro do ano passado por alterações promovidas pelo governo nas leis esportivas. Os atletas terão de disputar as competições sob outra bandeira.

A delegação de Independentes não disputará a Olimpíada pela primeira vez. A estreia foi em 1992, quando contou com competidores nascidos em países que formavam a Iugoslávia.

As outras participações da equipe foram em 2000. Batizados de "atletas individuais", representantes de Timor Leste foram a Sidney enquanto o país enfrentava um sangrento processo de independência. Nos Jogos de Londres, em 2012, o grupo foi formado por atletas de Sudão do Sul e de Antilhas Holandesas, país que havia sido desmembrado do COI. 

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Família do Malauí faz 'vaquinha' para preparar nadadora

Campanha ajuda Ammara Pinto a se preparar na África do Sul

Mariana Durão, O Estado de S. Paulo

31 de julho de 2016 | 05h00

Polyanna Pinto mora no Malauí, na África, e está em busca de hospedagem no Rio durante a Olimpíada. Até aí nada diferente de milhares de turistas que tentam driblar os preços abusivos cobrados na cidade, ainda mais inflacionados no período olímpico. Mais do que amante dos esportes, entretanto, ela tenta acompanhar a filha de 18 anos, Ammara Pinto, que disputará os 50 m livres e está entre os cinco representantes da nação. As duas sofreram um baque em abril, com a morte do patriarca da família e maior incentivador da carreira da filha. Em busca do sonho olímpico, a atleta recorreu a um site de crowdfunding (financiamento coletivo).

A mãe conta que Ammara nada desde os 6 anos, faz parte da Confederação Africana de Natação Amadora e treina 12 jovens. O pai da atleta, Dean Pinto, presidia a Malawi Aquatic Union (MAU). Foi ele quem levou Ammara e a irmã Zahra – que esteve nos Jogos de Pequim, em 2008 – para o esporte. Pinto morreu há quatro meses dos Jogos, de malária, deixando um vácuo no suporte psicológico e financeiro à nadadora.

Classificada para a Rio-2016 pelo critério da universalidade – garante aos 206 membros do Comitê Olímpico Internacional o direito de escolher uma vaga masculina e uma feminina nos esportes da natação e atletismo –, Ammara recorreu à internet para patrocinar sua preparação. Foi a irmã Zahra quem criou uma página no site Go Fund Me e levantou recursos para custear os treinos em um centro de alta performance na África do Sul. Desde 22 de junho foram arrecadados US$ 2.350 (R$ 7.600) com a participação de 59 colaboradores. 

A meta de Ammara é bater seu próprio tempo na modalidade (registra 30s20, enquanto o recorde da prova é de 23s73) e encontrar um patrocinador disposto a apostar em seu talento e treiná-la para buscar um índice olímpico que a classifique para a Olimpíada de 2020, em Tóquio. No site, a nadadora conta um pouco de sua história nas piscinas. Invicta em competições em seu país nos últimos quatro anos, ela quebrou recordes e é considerada a nadadora mais rápida do Malauí.

"Minha família e eu fomos abatidas pela tragédia da morte de meu pai. Ele era meu herói, meu mentor e motivador. Sem ele, essa experiência (de participar dos Jogos) se tornou extremamente difícil", escreveu na página “Olympics for Ammara Pinto".

No último dia 5, ela fez uma postagem de agradecimento no site. "Estou treinando na África do Sul duas vezes por dia em piscina aquecida: às 6h30 e às 17h. Meus treinadores são incríveis e estão fazendo um ótimo trabalho."

O Malauí participou de oito Olimpíadas, mas nunca ganhou medalhas. O boxeador Peter Ayesu registra o melhor resultado, ao ser semifinalista no peso-pena em Los Angeles-84.

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Estreias de Sudão do Sul e Kosovo realizam os sonhos de atletas locais

Estrelas dos países não vão mais precisar disputar a Olimpíada por outras bandeiras

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

31 de julho de 2016 | 05h00

Guor Marial precisou aguardar a segunda Olimpíada da carreira para poder representar o Sudão do Sul, país onde nasceu e viveu os dias mais complicados da sua vida. Se em Londres o maratonista teve de se contentar em ser um dos atletas independentes, virá ao Brasil como um dos dois representantes da nação estreante.

Aos 32 anos, o corredor vai defender a bandeira de um país que se tornou independente em 2011, graças a um referendo, e que tem uma história tão sofrida quanto à dele. Os longos anos de guerra civil contra o Sudão causaram histórias tristes.

Marial, por exemplo, teve 28 familiares mortos durante o conflito e ainda adolescente, fugiu para o Egito e depois, para os EUA, onde mora até hoje. O corredor retornou poucas vezes para o país onde nasceu e causou repercussão antes dos Jogos de 2012 ao recusar o convite de disputar a competição pelo Sudão.

"Se eu fizesse isso, estaria traindo meu povo. Seria uma desonra pelas milhões de pessoas que morreram pela nossa liberdade", explicou na época. Com a formalização do Comitê Olímpico do Sudão do Sul, no ano passado, ele poderá representar a mais nova nação afiliada do COI.

CHANCE DE MEDALHA

Kosovo também chegará pela primeira vez para uma Olimpíada, porém tem boas chances de medalha. O país declarou independência da Sérvia em 2008 e aposta na judoca Majlinda Kelmendi, bicampeã mundial.

A atleta levará a bandeira do país na cerimônia de abertura e já esteve presente nos Jogos de Londres. Naquela ocasião, como Kosovo ainda não havia sido reconhecido pela COI, a judoca disputou a competição pela Albânia. "Sou do Kosovo e, quando venço, quero que a bandeira e o hino do meu país estejam lá", afirmou.

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