Deuses a favor

Mais um dia perfeito como o que o Rio providenciou ontem para a abertura oficial dos Jogos Olímpicos (sim, estou falando de condições atmosféricas) e seremos obrigados a supor que entidades poderosas andam conspirando lá no Olimpo para que o festival poliesportivo batizado em sua homenagem contrarie gloriosamente o séquito dos mortais estraga-prazeres.

Sergio Rodrigues, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2016 | 03h00

Estes rondaram a tocha, literal ou metaforicamente, com seus extintores de incêndio e baldinhos d’água. Descobriram horrorizados que a fotogênica, exibida, linda ex-capital é, oh, uma cidade com problemas! Encontraram mais um motivo para gritar “fora Temer” ao protestar contra um evento que, tendo a paternidade comprovada de Lula, só lhes ocorria festejar há poucos anos.

É óbvio que foi um erro atrair tanta atenção para nós nesse momento. Mas os anos Lula eram tempos eufóricos, pouco razoáveis, e esquecemos que seriam necessários anos, talvez décadas de dever de casa, antes de podermos abrir os salões e convidar o mundo inteiro para uma festança sem constrangimento.

Agora é tarde. O mundo foi convidado a vir ao Rio – e veio! Espalham-se pela cidade inteira jovens de todas as nacionalidades, alegres, boquiabrindo-se com as vistas que se descortinam a cada esquina. Curiosamente, apesar do bombardeio de notícias negativas, não parecem ter medo dos mosquitos, dos tiros, das obras padrão mequetrefe de Eduardo Paes.

Procuram Pokémons? Alguns sim, mas a maioria procura outra coisa – ou não procura nada, porque já achou. Quem sabe achou a ferveção do Baixo Suíça, na Lagoa. Ou o estiloso Club France, na Hípica. Talvez a chiquérrima Casa da Itália ou o footing do Boulevard Olímpico com seu painel de street art de tamanho recorde.

Se o legado olímpico se restringisse à derrubada do viaduto da Perimetral, que aleijava a região portuária, não seria pequeno. Quanta cidade semimorta ali embaixo, como plantas trancadas no armário! E no entanto, exposta ao sol, revive. É essa também a esperança do futebol brasileiro.

Foi um retrato doloroso de potencial desperdiçado a equipe que na quinta-feira, em Brasília, empatou em zero a zero com uma pouco mais que esforçada África do Sul. Quem vai derrubar o viaduto da Perimetral que construíram no coração do futebol brasileiro? Quando foi que trancaram no armário o futebol do Neymar?

Mesmo descontado o proverbial “nervosismo da estreia”, foi um jogo triste. Um lampejo aqui e outro ali sugerem que ainda há vida resistindo – sufocada, pisada, sofrida – sob camadas de insegurança, nervosismo, desarticulação, precipitação, burrice futebolística mesmo.

Teremos desaprendido? Não creio. Mas os tempos são confusos, parece que não sabemos bem o que queremos como país, quem somos e para onde vamos. O futebol, que sempre nos traduziu, não poderia deixar de traduzir também este momento. Seria um bom começo implodir o viaduto figurado que nos sufoca. Que caia ainda este mês, vale a torcida.

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E a festa de abertura correu sem os vexames que estavam no script de muitos. A exceção foi a jornalista Glória Maria, da TV Globo, dizer que uma cena protagonizada por índios retratava o mundo há “bilhões de anos”.

Pontos altos: Paulinho da Viola tomando posse do Hino Nacional; a caminhada sobre os edifícios falsamente tridimensionais (e tudo de belo que se projetou no chão); o voo do 14-Bis; Benjor fazendo o Maracanã pular; o clipe de “A flor e a náusea” deturpando o poema de Drummond em nome de uma boa causa – e de arrepios garantidos. Houve momentos menos felizes, mas, sem ostentação e apostando na singeleza, o espetáculo foi bonito, alegre, honesto. Aquele Brasil ali dá de goleada no que anda frequentando o noticiário.

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