Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

COI anuncia que Rio-2016 passará por 'forte redução' de gastos

COI cria grupo de trabalho para economizar e rever contratos

Jamil Chade - Correspondente em Genebra, O Estado de S. Paulo

09 de dezembro de 2015 | 16h46

A crise econômica e política no Brasil vai afetar os Jogos Olímpicos do Rio em 2016 e o COI anuncia que vai rever todos os contratos existentes para o evento. "Todos os lugares que possamos economizar, teremos de economizar", disse Cristopher Dubi, diretor dos Jogos. "Vamos cortar a gordura". 

Nesta quarta-feira, o Comitê Olímpico Internacional ouviu dos organizadores do evento e do prefeito Eduardo Paes, por teleconferência, explicações sobre como cortes nos gastos serão realizados. "É inevitável que haja um impacto nos Jogos", disse Craig Reedie, vice-presidente do COI e que teme uma inflação nos custos. "Eles (os brasileiros) tem dificuldades políticas e econômicas", afirmou. 

Dubi anunciou a criação de um grupo de trabalho que irá examinar cada um dos contratos de fornecedores para os Jogos do Rio, no esforço de identificar áreas que poderão sofrer cortes. "Tem contratos que precisam ser negociados. Nos próximos seis meses, eles precisam ser avaliados", disse, se recusando a falar em valores e em quanto terá de ser reduzido no orçamento. 

Ao Estado, ele confirmou que o esforço aponta para uma "forte redução". "É até uma questão de cidadania, diante da situação econômica do Brasil", disse. 

A reunião foi marcada por uma negociação sobre como cortar gastos para o evento. Com a criação do grupo de trabalho, o COI e as federações esportivas serão convidadas a avaliar o que estariam dispostas a abrir mão. "É importante que todos possamos contribuir", disse Dubi. 

Segundo o Estado apurou, a cerimônia de abertura terá seu custo reduzido, assim como os investimentos nos eventos-teste serão controlados. Em cada apartamento dos atletas na Vila Olímpica, um dos dois monitores de televisões previsto será retirado. Também não haverá condição para que cada um dos membros do COI, com mais de cem pessoas, tenham um carro com motorista à sua disposição durante o evento. Os restaurantes para os dirigentes também terão de ser compartilhados com os atletas e alguns dos privilégios serão reduzidos.

A Rio-2016 chegou a ensaiar uma recusa em pagar pelo ar condicionado na Vila Olímpica, mas acabou desistindo da ideia. 

Por enquanto, porém, Dubi garante que não vai ver um pacote de resgate do COI. "Paes nos deu garantias de que isso não seria necessário", explicou Dubi. 

O presidente da Rio-2016, Carlos Arthur Nuzman, também apresentou ao COI medidas de limitação orçamentária. "Precisamos ajustar tudo e isso é normal", disse Nuzman. Em sua intervenção, Paes teria esclarecido a situação econômica de forma "franca".

Mas Nuzman desconversou ao ser questionado como ocorreriam os cortes. "Tentamos explicar a situação. O importante é que teremos grandes jogos e estamos explicando o que estamos fazendo", disse. "Nada vai afetar os atletas e a organização dos Jogos Olímpícos. Estamos trabalhando por sete anos", insistiu

Nuzman e Paes garantiram que o dinheiro público vai ser disponibilizado. Mas o percurso final na preparação do Rio vai coincidir com um acirramento decisivo na definição do processo de Impeachment e o temor dos dirigentes estrangeiros é de que o governo abandone os Jogos da lista de suas prioridades. 

Em termos econômicos, o medo é de que a situação do País impeça a entrada de recursos. "Quando demos os Jogos ao Brasil em 2009, parte da motivação foi a situação de expansão econômica e o envolvimento direto do ex-presidente Lula", contou um alto funcionário do COI ao Estado. "Hoje, o Brasil está em recessão e o evento não está mais no radar das autoridades, que tentam sobreviver no cargo."

A Rio-2016 deixou claro que não aceitará ultrapassar a marca de R$ 7,4 bilhões. Mas, quando recebeu todas as exigências e planos de cada uma das federações esportivas, parceiros comerciais e do COI, a constatação dos organizadores era de que a conta não fechava. 

Agências de notícia como a Associated Press e a Bloomberg apontam que um corte de cerca de R$ 2 bilhões foi obrigado a ser implementado. Mas, Mário de Andrada, diretor de Comunicações da Rio2016, rejeita o valor citado."A informação é incorreta. Simplesmente, incorreta", disse. "Existe um plano de economia. Mas não chega nem na metade deste valor", apontou. "Temos um compromisso de realizar os Jogos com recursos privados e, portanto, com um orçamento equilibrado. Estamos discutindo agora diferentes opções de economia", explicou.

IMPEACHMENT

Outra preocupação do COI é com o Impeachment de Dilma Rousseff. "A realidade política foi lidada na reunião", admitiu Dubi, que contou que Paes foi "transparente". "Mas o prefeito deu garantias de que a população ainda quer o evento", disse o representante do COI. "Paes nos deu garantias de que a energia vai continuar", afirmou. 

Nawal Moutawakel, inspetora do COI para os Jogos no Rio, não disfarçava a constatação de que o Rio terá "importantes desafios". Mas deixa claro que a questão da corrupção envolvendo as empresas de construção no Brasil não é seu problema. "Os contratos são com a cidade do Rio", disse. O COI, segundo ela, não irá pedir uma auditoria dos contratos. 

O Centro Internacional de Transmissão dos Jogos, por exemplo, foi erguido pela Odebrecht. Nawal, porém, se recusou a comentar o fato de que o presidente da empresa, Marcelo Odebrecht, está preso por suspeita de corrupção. O Parque Olímpico também é obra da Odebrecht. 

Dubi também rejeitou qualquer auditoria no evento. "Recebemos garantias de que os contratos foram assinados com regras rigorosas. Não temos razão para duvidar disso", completou. 

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