EFE
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Clarissa Thomé, Fabio Grellet e Paulo Favero, O Estado de S. Paulo

19 Agosto 2016 | 05h33

A bandeira do Brasil tremulando no Forte São João, na Urca, em frente à raia de disputa da vela nos Jogos Olímpicos, ajudou a guiar as velejadoras Martine Grael e Kahena Kunze rumo ao ouro. Elas sabiam que, sempre que entrava a rajada, a bandeira tremulava forte. Foi por esse conhecimento, aliado ao talento das duas, que o País conquistou o lugar mais alto do pódio na classe 49er FX.

“A gente estava assistindo a todas as regatas anteriores e também tínhamos informações de como foi nos outros dias. A gente viu que estava bem aberto, ventava nos dois lados da raia, às vezes mais forte, às vezes mais fraco. Na quarta perna, contornamos a boia indo para a esquerda e a galera estava indo para a direita. A dinamarquesa veio com a gente, o que deu uma segurança. Esperamos, veio a rajada, e conseguimos cruzar muito bem e aproximar de novo”, disse Martine.

A medal race foi emocionante e as quatro equipes (Brasil, Nova Zelândia, Dinamarca e Espanha) sabiam que podiam chegar ao ouro ou ficar sem medalha, pois a diferença de pontos era mínima. Logo na largada, a dupla italiana, já sem chance de pódio, saiu na frente, seguida pela neozelandesas.

Martine e Kahena sempre ficaram na terceira posição, o que no mínimo já garantiria a prata. Entre a terceira e a quarta boia, Martine e Kahena navegavam mais rápido, enquanto as neozelandesas seguiam mais lentas. “A Kahena fez um trabalho muito bom. A gente estava vindo muito rápido e facilita quando o barco está rápido”, disse Martine.

Só que Martine e Kahena, após a boia 4, escolheram o melhor lado da raia e chegaram à última boia na liderança, dez segundos à frente da dupla da Nova Zelândia e 34 segundos das dinamarquesas. As brasileiras mantiveram o ritmo, fecharam a prova dois segundos à frente e comemoraram o ouro com muita festa e se jogaram na água da Baía de Guanabara.

“Foi uma decisão difícil porque a gente resolver ir sozinha para um lado e abandonou as duas para o outro lado. Mas acho que foi a única chance que a gente teve para passar, senão elas iam dominar a gente. Decidimos na hora, porque o vento muda muito aqui, então tem de estar sempre ligada com o olho para fora da raia e pensando na estratégia”, contou Kahena.

Elas só souberam que a estratégia arriscada de se afastar das adversárias e avançar pela esquerda deu certo ao cruzar a linha de chegada. “Foi a decisão mais difícil que a gente teve de tomar”, afirmou Martine. “Quando a gente conseguiu cruzar na frente das neozelandesas, eu pensei: é essa a oportunidade. Deu até um nervoso na última manobra, achei que fosse errar. Mas acabou que deu tudo certo.”

Para sua parceira Kahena, se elas tivessem seguido as adversárias, o pódio estaria ameaçado. “No final deu super certo. A gente usou uma estratégia diferente da equipe da Nova Zelândia, que estava vencendo. Optamos por ir para outro lado da raia, o que somou muito. Na última volta, passamos as duas e nos concentramos em marcar a adversária para poder chegar à frente delas”, completou Kahena, entusiasmada. História. As duas ganharam a única medalha da vela brasileira nos Jogos do Rio. Com o pódio de Martine e Kahena, a modalidade chegou a 18 medalhas na história dos Jogos, sendo uma das mais vitoriosas do País. “Foi um campeonato incrível, com as quatro primeiras chegando na medal race praticamente com os mesmos pontos. Gostaria muito que tivesse uma medalha para a quarta colocada, pois elas velejaram muito bem durante a semana”, comentou Kahena, sobre as espanholas Tamara Echegoyen e Berta Moro.

A performance da dupla brasileira também chamou a atenção de um especialista no assunto. O velejador Robert Scheidt, que tem cinco medalhas olímpicos e no Rio bateu na trave com a quarta posição na classe Laser, elogiou o desempenho das brasileiras na medal race. “Elas tiveram um mérito enorme em conseguir a recuperação. As neozelandesas estavam muito confortáveis no início da regata. A Martine vinha em terceiro, já tinha a prata garantida, mas teve o mérito de passar as neozelandesas e ganhar o ouro. Elas velejaram de maneira excepcional. Foi merecido o ouro.”

Agora campeãs olímpicas, tanto Martine quanto Kahena evitam falar sobre o futuro da parceria para o próximo ciclo olímpico. Dizem que querem curtir o momento e descansar um pouco após essa conquista em casa. A Confederação Brasileira de Vela aposta nelas como substitutas dos grandes ídolos do esporte, como Robert Scheidt e Torben Grael.

Martine lembra que elas devem sentar para conversar sobre o assunto, mas é Kahena que rasga elogios e deixa uma esperança de continuidade para os Jogos de 2020. “Eu faria tudo de novo, passaria novamente esses quatro anos com a Martine. Tivemos momentos incríveis, obviamente com altos e baixo, mas valeu a pena.”

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Clarissa Thomé, Fabio Grellet e Paulo Fávero, O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2016 | 05h18

Ao atravessar a linha de chegada dois segundos à frente das adversárias nos Jogos do Rio, Martine Grael, de 25 anos, garantiu a oitava medalha olímpica da família, dando continuidade à trajetória da “dinastia Grael”, velejadores há três gerações na Baía de Guanabara.

Para Torben, pai de Martine e coordenador técnico da equipe brasileira, o segredo é a paixão. “A gente curte muito o esporte. Quando faz as coisas com o coração, a gente vai passando a experiência de geração para geração”, afirmou. Ele disse ter sentido uma “emoção diferente” ao ver o ouro da filha. “Estando de fora você se emociona muito mais. Você não tem controle. Não pode fazer nada.”

Os irmãos Torben e Lars foram primeiros a ganharem medalhas olímpicas, numa família que navega a Baía de Guanabara desde os anos de 1920. Lars tem dois bronzes (Seul-1988 e Atlanta-1996). Torben é o maior medalhista da família – foi premiado cinco vezes (ouro em Atenas-2004 e Atlanta-1996, na classe Star; bronze em Seul-1988 e Sydney-2000, na Star; e prata e Los Angeles-1984, na classe Soling). Mas, para ele, Martine já o superou. “Ela me passou. Eu só fui ganhar medalha de ouro bem depois do que ela (aos 36 anos). Ela já tem o título de velejadora do ano, já é campeã mundial. Tudo antes de mim. Essa comparação só serve de incentivo para ela. Cada um faz a sua história”, disse.

Para o pai, Martine enfrentou pressão maior em função do nome da família, de competir em casa e por sua dupla ser a última chance de medalha da vela nesta edição dos Jogos. “Elas se saíram magnificamente. Estavam bem seguras”. Além de Martine, o filho mais velho, Marco, também competiu na classe 49er. Ele ficou em 11.º e não foi à medal race por um ponto.

“As conquistas são deles. O fato de a gente ter conseguido mostra a eles que é possível. Quando eles começaram a velejar, a gente fez questão de que eles curtissem o esporte e os amigos que poderiam fazer. O resto é de cada um. Eu tenho dois irmãos. Um é competitivo como eu e o outro tem uma cabeça diferente, é ambientalista, não gosta tanto de competição.”

Antes de nascer. Martine veleja desde a barriga da mãe – Andrea Grael competiu em regatas até o sétimo mês de gravidez. “Mais importante do que ganhar mais uma medalha foi velejar na Baía de Guanabara, ter tido essa torcida maravilhosa e ganhar aqui”, disse Andrea, que nunca viu o marido ao vivo vencer em Olimpíada. Ontem, ela não se conteve e nadou até a filha.

Kahena Kunze também vem de família de velejadores. O pai, Claudio Kunze, também conquistou títulos no esporte. Mas não conseguiu assistir à prova da filha. “Ele estava muito nervoso. A última perna não quis nem ver. Mas eu estava confiante. Eu pulei na água. Eu nadaria até Niterói para encontrá-las”, disse Audrey Kunze, mãe de Kahena.

Kahena vibrou com a mãe e sabe que as conquistas da família Grael no esporte são incríveis, mas também espera deixar um legado para as próximas gerações. “Minha família está muito orgulhosa. Meus pais sempre velejaram, meu pai ganhou algumas regatas, e agora me olham babando com esse ouro. Espero influenciar jovens, porque a vela é um pouco apagada no Brasil. Espero que o esporte se torne mais popular”, afirmou.

Todos eles estavam dentro da área de competição e puderam ver a façanha da dupla mais de perto. Mas os avós de Martine torceram, mesmo que de longe, para que a neta chegasse ao ouro. Normando Soffiati, de 80 anos, mal encerrava uma ligação telefônica, ontem à tarde, e o celular já começava a tocar novamente. A série de quase dez ligações seguidas tinha uma justificativa: a neta, Martine Grael, acabara de conquistar o ouro no torneio olímpico de vela.

“É a maior emoção da minha vida”, resumiu, entre uma ligação e outra, enquanto tentava ingressar na área onde seria realizada a premiação, na Marina da Glória, na zona sul do Rio.

Normando acompanhou a regata junto com a mulher, Márcia Soffiati, de 74 anos, mas preferiu assistir pelo telão, enquanto Márcia ficou à margem da água, vendo os barcos ao longe.

“Torço muito, tinha muita expectativa por essa medalha”, disse a avó de Martine. “A gente sabia que teria medalha, só não sabíamos a cor”, completou Normando. “Martine tem muito sangue frio. Ela soube esperar o momento de definir a regata”. Sem conseguir entrar na área de premiação, o casal assistiu à cerimônia das medalhas separado da neta por um alambrado. / C.T., F.G. e P.F.

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Clarissa Thomé, Fabio Grellet e Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2016 | 05h15

Amigos e familiares de Martine Grael e Kahena Kunze se juntaram ao público geral para acompanhar a prova do Rio-2016 à beira-mar, na Praia do Flamengo. Um telão exibia a competição, enquanto o narrador explicava as manobras e a posição das velejadoras, mas muitos preferiram permanecer próximos à água. Dali era impossível saber com exatidão quem estava vencendo, mas foi fácil descobrir quando as brasileiras ultrapassaram as neozelandesas na regata: entre gritos e aplausos, a comemoração se estendeu até o final da prova, minutos depois.

Assim que a medalha de ouro foi garantida, amigos das duas velejadoras não quiseram esperar que elas desembarcassem para cumprimentá-las: saltaram ao mar e foram nadando até o barco, mais de 50 metros distante da margem. A comemoração sobre as águas se estendeu por mais de 15 minutos, até que as campeãs chegasse, à terra firme.

“Na linha de chegada foi emocionante, nem conseguia nadar de tanto que o coração batia. É um momento indescritível. Subir e receber essa medalha ao lado de amigos e familiares não tem preço. Minha primeira Olimpíada começar assim, imagina a segunda. Estou muito feliz”, afirmou Kahena. “Aqui é nosso jardim, comecei a velejar aqui, a Martine também. Olhamos uma para outra e falamos que seria mais um treino, que daria tudo certo”, completou.

Antes que os nomes de Martine e Kahena fossem anunciados pelo sistema de som para a cerimônia de entrega das medalhas, houve três premiações de outras classes. Apesar da demora, o público não arredou pé – só foi embora após aplaudir as duas velejadoras. Elas também pularam a divisória e foram parar nos braços dos amigos. Levantadas pelos fãs, sacudiram as bandeiras do Brasil.

“Eu só tenho que agradecer a todas as pessoas que vieram torcer pela gente. Fiquei muito feliz com a quantidade de amigos que estavam aqui, parecia um Maracanã, foi muito legal”, festejou Martine. “Não esperava comemoração tão grande. Eu amei. Todos os meus amigos estavam aqui”, continuou.

Isabel Swan, que fez dupla com Martine na busca por uma vaga na Olimpíada de Londres, em 2012, também estava emocionada com a conquista da garota. “Fico muito feliz. A Martine sempre teve um amor maravilhoso pela vela. Eu acompanhei ela e tentei ao máximo fazer uma campanha de alto rendimento quando estávamos juntas. Esse ciclo ela conseguiu ir muito bem ao lado da Kahena, com tudo de melhor, e com todo amor e dedicação que elas tiveram, chegaram nessa medalha mais do que merecida. Sinto que eu de alguma forma, lá atrás, ajudei um pouco. Estou feliz e emocionada”, disse.

Mesmo quem nem tinha ingresso para a disputa pôde acompanhar a prova, de longe: a área onde ficava o telão era cercada apenas por um alambrado. Embora distante, ele era grande o suficiente para ser visto a partir desse ponto. “Estava saindo da praia quando vi a aglomeração e resolvi parar. Agora vou poder dizer pra todo mundo que já vi o Brasil ganhar uma medalha olímpica”, comemorou a secretária Amanda Fogaça, de 31 anos.

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