Thomas Coex/AFP
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Diversas estrelas olímpicas do Japão refletem um país que vem mudando lentamente

Atletas multirraciais como Naomi Osaka e Rui Hachimura têm contribuído para redefinir o que significa ser japonês. Mas com frequência são vistos como forasteiros

Hannah Beech e Hikari Hida, The New York Times

27 de julho de 2021 | 20h00

Quando a equipe olímpica japonesa desfilou na cerimônia de abertura do Jogos Olímpicos na sexta-feira, na frente do resto da delegação estava o porta-bandeira Rui Hachimura, uma estrela da NBA em ascensão nascido e criado no Japão.

Sua origem é evidente quando inclina a cabeça e agradece o público, seu amor pelo sukiyaki feito por sua mãe, e mesmo a sua aparição num anúncio de noodles instantâneos mostrando uma sardinha bebê cantando um Yodel. Mas ele também está ajudando a redefinir o que significa ser japonês.

Numa nação insular conhecida por sua homogeneidade racial, Hachimura, 23 anos, é filho de mãe japonesa e pai do Benin. Ele é alto, como deve ser um integrante da ala-de-força do Washington Wizards, e negro, como condiz com a nova geração do país de atletas mestiços.

Pelo menos 35 membros da forte equipe olímpica japonesa composta de 583 atletas são mestiços, com chances de medalhas no tênis e no judô e outros competindo no boxe, vela, atletismo, rúgbi e esgrima, entre outros esportes.

No grupo estão dois dos atletas mais potentes da equipe japonesa: Hachimura e Naomi Osaka, campeã de tênis cujo país é do Haiti e a mãe japonesa. Na sexta-feira, Naomi, 23 anos, subiu um lance de escadas em forma de pirâmide como se subisse o Monte Fuji e acendeu a pira olímpica no topo.

Que dois dos papéis mais importantes da cerimônia de abertura tenham sido desempenhados por atletas multirraciais revela o quão ávido está o Japão para apresentar sua face diversa para o mundo. A popularidade de Naomi Osaka e Rui Hachimura no Japão já havia sido confirmada quando a Nissin, fabricantes de macarrão instantâneo colocou o rosto deles na embalagem do Cup Noodle, uma honra no campo da publicidade similar a aparecer uma caixa de cereais matinais.

Mas mesmo com o Japão celebrando as realizações dos seus atletas “hafu” - “metade", como meio japonês e meio outra coisa - o país ainda precisa lidar com a xenofobia numa sociedade cuja noção de nacionalidade está ligada à raça.

“Durante toda minha existência tem sido um desafio para os que estão à minha volta entender o que é ser japonês”, disse Sewon Ozakawa, boxeador meio-médio, cuja mãe é japonesa e o pai é de Gana.

A lista crescente de atletas olímpicos do Japão mestiços reflete como o país, com uma população que envelhece rapidamente, teve de abrir suas portas para a imigração, apesar da poderosa tradição de isolamento. Hoje, cerca de 1 em cada 50 crianças nascidas no Japão tem um dos pais nascido no exterior, de acordo com o Ministério da Saúde do país.

“Eles são um novo espectro dos japoneses”, disse Edward Y. Sumoto, japonês venezuelano fundador de um grupo no Facebook chamado Mixed Roots Japan. “São japoneses negros, pardos, loiros"

Há centenas de anos isso era algo inimaginável. Do século 17 ao 19 o país manteve afastado todos os estrangeiros em um dos exemplos mais extremos de isolacionismo no mundo.

Uma hierarquia tácita no Japão valoriza a pele mais clara sobre as mais escuras. Japoneses com pele mais escura sofrem com comentários racistas (japoneses cujo pai ou mãe são de outro país asiático também chegam a sofrer bullying).

O establishment esportivo do Japão exaltou os sucessos dos seus atletas mestiços. Mas suas realizações com frequência são caracterizadas usando a linguagem desprestigiada da eugenia: músculos de contração rápida, reflexos explosivos e potência física inerente.

“Se você é um “hafu” as pessoas sempre comparam seu alto desempenho com alguma espécie de triunfo genético", disse Sumoto. Na cultura popular do país, os japoneses negros com frequência são encaixados em categorias de carreira limitadas: atleta, rapper, rainha de beleza.

Em maio, depois de seu irmão sofrer ataques racistas online, Hachimura disse no Twitter que ele também foi submetido a esses abusos, “quase que diariamente”.

Ele aprendeu inglês só quando ingressou na Gonzaga University em 2016, onde jogou basquetebol. Nos Estados Unidos, como no Japão, poucos o reconheciam como japonês, apesar de ter sido o primeiro do seu país a ser recrutado pela NBA na primeira rodada.

A intenção das Olimpíadas de Tóquio é mostrar um Japão mais cosmopolita. Em 2013, quando o país se candidatou para hospedar os Jogos, enviou Christel Takigawa, apresentadora da TV japonesa, para defender a candidatura do país no COI Comitê Olímpico Internacional, o que ela fez se pronunciando num Francês perfeito.  Tóquio, disse ela, é um lugar hospitaleiro. Posteriormente expressou sua esperança de que as Olimpíadas tornassem a cidade mais internacional.

Um lema dos Jogos de Tóquio é “unidade na diversidade”, o que foi representado por uma frota de drones que sobrevoaram o estádio olímpico na sexta-feira, formando um globo reluzente gigantesco, pouco antes de Naomi Osaka acender a pira.

Mas Tóquio continua extremamente monocromática. Somente 4% dos moradores nasceram fora do Japão, de acordo com a prefeitura - cerca de  duas vezes o número nacional. (Contrariamente, mais de 35% dos moradores em Londres e Nova York nasceram no exterior).

Marie Nakagawa, japonesa-senegalesa e ex-modelo, disse que se sentia uma “alienígena” quando criança. Mesmo hoje ela sofre regularmente com provocações que dizem que ela é uma sósia de Osaka, cujo ativismo em prol da justiça racial forçou o país a confrontar um assunto que muitos achavam que não tinha a ver com eles.

“Ouço especialistas falarem o tempo todo que as coisas mudaram desde Naomi Osaka, mas os valentões são sempre os mesmos. Eles não foram reeducados”, disse ela.

Em 2019, quando Naomi conquistou seu segundo Grand Slam no Australia Open, a Nissin retratou-a com pele clara e cabelos castanhos num desenho animado de propaganda, o que levou a acusações de que procurou encobrir a cor da pele dela.

“Claro que sou morena”, reagiu Naomi. A Nissin se desculpou.

Takeshi Fujiwara, velocista especializado nos 400 metros, cresceu em El Salvador, onde as pessoas estranhavam seu nome japonês. Sua mãe é salvadorenha e o pai é japonês. Mesmo depois de ele competir nas Olimpíadas de Atenas por El Salvador, os rumores sobre sua nacionalidade continuaram.

Em 2013 ele passou a competir pelo Japão e mudou-se para a terra do pai. A receptividade não foi imediata, mesmo se as pessoas elogiavam seus músculos vigorosos.

“Quando vim para o Japão, pensei ‘estou no meu país. Mas as pessoas perguntavam, ‘de onde você veio?’”, disse Fujiwara. “Melhorou, mas ainda vai demorar para o país se tornar um lugar onde japoneses multirraciais sejam vistos como normais”./TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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