Wander Roberto / CPB
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Do coma pela meningite à prata na Paralimpíada de Tóquio: a história de Rodolpho Riskalla

Cavaleiro brasileiro, que amputou as pernas depois de uma infecção bacteriana, conquistou a sua primeira medalha em Jogos Paralímpicos

Caio Possati, Especial para o Estadão

27 de agosto de 2021 | 05h00

A primeira pergunta que Rodolpho Riskalla, medalhista de prata nos Jogos Paralímpicos de Tóquio, fez para os médicos antes de decidir pela amputação tibial das duas pernas foi: “Eu vou poder voltar a montar a cavalo?”. O ano era 2015 e Riskalla, competidor de hipismo convencional, viu a vida mudar depois de vir ao Brasil para visitar o pai que estava doente. O cavaleiro adquiriu uma meningite bacteriana que o fez adoecer e levá-lo ao coma, impedindo-o de voltar à França, onde morava na época. 

Quando acordou, Riskalla não sentia mais as mãos. Perdeu todos os dedos da mão direita, e parte dos dedos da mão esquerda. Por haver uma baixa sensibilidade nas pernas, ainda tinha esperança de que não fosse necessário amputar os pés. Mas ao saber que seria submetido a uma série de cirurgias e de que passaria mais um longo tempo no hospital, resolveu pela amputação. 

Passados cinco anos da operação, Rodolpho Riskalla conquistou, nos Jogos Paralímpicos de Tóquio, a sua primeira medalha paralímpica. A prata veio na prova de hipismo na categoria adestramento classe IV (para  atletas com comprometimento leve em um ou dois membros e com deficiência visual moderada). Montado no cavalo Don Henrico, companheiro desde 2017, o brasileiro de 37 anos fez uma apresentação consistente e teve 74.659 na pontuação total, sendo superado apenas pela holandesa Sanne Voets, que levou o ouro com a pontuação de 76.585.

Nascido em São Paulo, em 1984, Rodolpho Riskalla começou a competir no hipismo aos 8 anos. A proximidade com o esporte vem de uma família de pais que já tinham o hábito de montar a cavalos. A mãe Rosangele, atual treinadora do cavaleiro, já o treinava desde pequeno no Clube Hípico de Santo Amaro, escola de equitação localizada na capital paulista. 

Com 17 anos, Riskalla fez as malas e se mudou sozinho para a Europa, com o objetivo de se aperfeiçoar no hipismo e de se desenvolver como cavaleiro. Se profissionalizou no esporte, chegou a vencer algumas competições, mas sem condições de ter um cavalo que o levasse a patamares maiores na modalidade, resolveu interromper a trajetória no hipismo depois de desempenhos abaixo do esperado. Vivendo na França, ele dava aulas e treinava outros cavaleiros, enquanto conciliava com o trabalho que tinha na empresa do setor de luxo, Christian Dior.

Missão: Paralimpíada

Quando estava no hospital, Rosangele colocou ao lado da cama do filho uma foto em que aparecia Rodolpho competindo. O cavaleiro lembra que, apesar de ter dúvidas se era possível voltar a montar sem as duas pernas, a fotografia o estimulava. “Eu estava deitado e ficava observando esses retratos em que estava competindo em anos anteriores. Eu disse para mim mesmo que era possível voltar ao hipismo, e isso me motivou”, disse Riskalla em entrevista ao canal da Federação Equestre Internacional.

O brasileiro disse à mãe, na época, que gostaria de voltar a competir com o objetivo de chegar a uma paralimpíada. Mas diferente do que Rosangele pensava, Rodolpho não estava pensando nos Jogos Paralímpicos de 2020, mas na Paralimpíada do Rio de Janeiro.

Depois de ser submetido a um longo e intenso tratamento, às sessões de fisioterapia e precisar se adaptar às próteses, ele conseguiu alcançar o objetivo. Na Paralimpíada do Rio, em 2016, contudo, Rodolpho Riskalla não conseguiu chegar aos pódios. Ele alcançou a 10ª colocação na prova individual e ficou em 7ª na classificação por equipes.

Com o tempo, Rodolplho Riskalla foi conseguindo aprimorar o seu rendimento. Passar mais tempo com o cavalo Don Henrico, cedido pela amiga e amazona alemã, Ann Kathrin Linsenhoff, também ajudou o  brasileiro a conquistar melhores resultados nas provas de Adestramento Paraequestre, tanto em equipes como em disputas individuais. 

Rodolplho foi tricampeão do Concurso Internacional Parequestre de Doha, no Catar, e tricampeão da mesma competição em Mannheim, na Alemanha. Ele também conquistou o ouro no individual no Hartpury Festival of Dressage na Inglaterra, em 2019. Um ano antes, em uma das competições mais importantes do ciclo paralímpico, foi prata no individual e estilo livre no Mundial dos Estados Unidos. 

"Sempre quero mais. Quero vencer, ser o melhor. Sempre fui assim. Foi assim que passei por isso, porque consegui me adaptar. Adaptabilidade é a palavra-chave, e forçar um pouco seus próprios limites. Todos nós temos mais força do que pensamos ter", afirmou o cavaleiro, agora medalhista paralímpico.

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