Rogerio Capela / CPB
Rogerio Capela / CPB

Do tae kwon do convencional ao ouro paralímpico: a história de Nathan Torquato

Brasileiro já foi impedido de competir por causa da deficiência e em Tóquio se tornou o primeiro campeão da modalidade estreante nos Jogos

Caio Possati, Especial para o Estadão

02 de setembro de 2021 | 18h26

Não foi preciso desferir um golpe para Nathan Torquato vencer a final que lhe rendeu o ouro e o título de primeiro campeão da história do tae kwon do em Jogos Paralímpicos. Na manhã desta quinta-feira, o brasileiro subiu no tatame da arena Makuhari Messe Hall B para enfrentar o egípcio Mohamed Elzayat, que chegou à decisão lesionado depois de sofrer um golpe irregular do russo Danii Sidorov, que foi punido com a desclassificação. Em razão do golpe, Elzayat precisou ser hospitalizado e voltou à arena para a decisão. Mas desistiu do combate segundos depois do início da luta, confirmando a vitória e o ouro para o brasileiro.

A ausência de um combate final não apaga a trajetória consistente de Torquato na Paralimpíada. Em Tóquio, o brasileiro venceu o atleta do time de refugiados Parfait Hakizimana por 27 a 4 nas oitavas de final, eliminou o japonês Mitsuya Tanaka por 58 a 24 na fase seguinte e, na semifinal, derrotou por 37 a 34 o italiano Antonio Bossolo, que havia surpreendido ao derrotar o mongol Bolor Ganbat, tetracampeão mundial e um dos cotados ao ouro.

“A ficha ainda não caiu, ela vai caindo aos poucos. Não dá para acreditar ainda. Acho que só quando abrir o celular e ver as reportagens, aí é que acaba caindo a ficha mesmo. Mas é a felicidade e o sentimento de dever cumprido, que tudo deu certo e que os 17 anos no esporte valeram a pena”, comemorou o atleta logo depois da vitória. 

Entrar na modalidade foi um pedido que Nathan fez a sua mãe quando ele tinha três anos de idade. Inspirado em desenhos e programas que assistia na infância, ele ficava admirado com atletas que usavam o dobok (vestimenta do tae kwon do correspondente ao quimono no judô) na academia que ficava no caminho para a sua escola. Ao ver a cena todos os dias das pessoas praticando o esporte, pediu para a sua mãe que fosse matriculado. 

Nathan nasceu com má-formação no braço esquerdo e disputa o tae kwon do na categoria K44 (para atletas com amputação unilateral do cotovelo até a articulação da mão). Até 2017, quando a modalidade não figurava dentro do quadro paralímpico, Torquato disputava as competições convencionais. Chegou a vencer o campeonato paulista em cinco oportunidades e foi convocado para integrar a seleção brasileira para disputar o mundial de tae kwon do na categoria cadete no Azerbaijão, em 2014. Foi quando precisou lidar com uma das maiores frustrações da carreira.

Vetado de competições convencionais

Em Baku, capital do Azerbaijão, Nathan soube pela organização do torneio que não poderia participar da competição por causa da sua deficiência. Ele tinha apenas 13 anos na época. Para disputar o campeonato, ele fez uma campanha de arrecadação de dinheiro pelos semáforos das ruas de Santos, onde sempre treinou, até conseguir ter valor para bancar a viagem.

De volta ao Brasil, as portas de outras competições de tae kwon do convencional de nível  nacional também estavam fechadas para ele em função da sua má formação congênita. Por três anos, disputou apenas os torneios no estado de São Paulo, onde estava autorizado a lutar.

Rumo à Tóquio

Só depois que o tae kwon do foi inserido na categoria de modalidade paralímpica, em 2017, que Nathan voltou a competir nos torneios nacionais e internacionais. Ele migrou do convencional para o tae kwon do paralímpico e iniciou o trabalho de olho na vaga para Tóquio. 

Em 2018, Nathan passou a ser treinado por Rodney Saraiva e foi campeão do torneio de Opens nos Estados Unidos e no Egito. Também faturou ouro nos Jogos Parapan-Americanos de Lima, no Peru, em 2019, quando chegou a disputar a competição enquanto se recuperava de um estiramento na parte posterior da coxa direita. 

Voltou a subir no lugar mais alto do pódio no Parapan da modalidade na Costa Rica, no início de 2020. Foi no país caribenho que o atleta garantiu o seu passaporte para a Paralimpíada de Tóquio.

Com a medalha em mãos, Nathan atribuiu o ouro conquistado aos anos de treinos, foco e dedicação ao esporte. “É uma felicidade muito grande trazer a primeira medalha do tae kwon do paralímpico não só do Brasil, mas em geral, em estreia nas paralimpíadas. Isso é para mostrar que o tae kwon do brasileiro paralímpico é uma potência mundial e a gente está no lugar mais alto do pódio. Apesar de ter 20 anos, foram 17 se dedicando ao esporte. E ver que tudo valeu a pena é indescritível”, declarou em vídeo divulgado pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB). 

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