Eric Thayer|REUTERS
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Dois campeões mundiais do surfe dividem um sonho olímpico

John John Florence e Kelly Slater disputam no Havaí vaga nos Jogos de Tóquio

John Branch , The New York Times

Atualizado

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John John Florence, talvez o melhor surfista de sua geração, pode ver o pico de surf mais famoso do mundo, o Banzai Pipeline, na costa norte de Oahu, do deck à beira-mar de sua casa no Havaí. Só tem de virar um pouco a cabeça para a direita. “Oh, olhe essa onda!”, ele gritou, interrompendo algo que estava dizendo sobre a cirurgia no joelho direito que o deixou de fora das competições desde junho.

Florence, 27 anos, passou a vida vendo e surfando esse trecho da Sunset Beach. A casa onde ele cresceu fica bem na frente do Pipeline. Sua mãe ainda mora lá, e Kelly Slater, 47 anos, onze vezes campeão mundial – mentor, amigo e rival de Florence – mora ao lado. A poucos minutos a pé da casa de Florence.

Como cresceu assistindo e, depois, surfando no Pipeline, Florence sempre teve Slater, sete vezes campeão do Pipe Masters, como seu surfista profissional favorito. Ele costumava assistir a Slater surfando no inverno. Queria ser Slater. Aí, Slater se mudou. Seu herói virou seu vizinho. Florence levou anos e anos para se acostumar a competir contra ele.

Olhando para a vista que ele e Slater compartilham, Florence refletia sobre a proximidade de suas vidas paralelas. Para Florence, Slater é um mentor, um amigo e um rival, sim. Mas nenhuma dessas palavras parecia exata.

“A gente tinha um gato na casa da minha mãe, que meio que morava entre as casas”, disse Florence, escolhendo uma história de alguns anos atrás para ilustrar o relacionamento deles. “E um dia ele me ligou e disse: ‘Kitty morreu. Eu o encontrei embaixo da casa’. Aí ele veio e nos ajudou a enterrá-lo e disse algumas palavras para o gato”. Florence deu risada. “Ele é tipo um tio, quase isso”.

Enquanto o surf se prepara para sua estreia olímpica em Tóquio-2020, Florence e Slater disputam a última vaga restante na equipe dos Estados Unidos – posto que será decidido este mês no Pipe Masters, em Banzai, nas ondas que se quebram diante de suas casas.

Um dia depois, na praia de Haleiwa, Slater estava nas eliminatórias de uma competição chamada Hawaiian Pro, um aquecimento para o Pipeline. Por vários dias, toda vez que ele aparecia na praia, a multidão que se estendia preguiçosamente na areia se animava. Dedos e celulares se voltavam para sua direção. Crianças torradas de sol flutuavam ao seu redor feito borboletas.

Ele veio para uma sombra mais tranquila e refletiu sobre o confronto com Florence e o feitiço da Olimpíada. “Seria a cereja do bolo”, disse Slater. “Surfar na Olimpíada, completar quarenta anos de competição. Seria meu quadragésimo ano desde que surfei no meu primeiro torneio, aos 8. Surfar na Olimpíada aos 48 anos seria um belo desfecho para mim”.

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Surfar na Olimpíada aos 48 anos seria um belo desfecho para mim. Seria meu quadragésimo ano desde que surfei no meu primeiro torneio, aos 8
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Kelly Slater, surfista onze vezes campeão mundial

O primeiro campeonato olímpico de surf terá 20 homens e 20 mulheres. Dez vagas masculinas (e oito femininas) serão determinadas pelo ranking deste ano da Liga Mundial de Surf; o Pipe Masters é o último evento masculino. As demais vagas serão definidas em eventos não relacionados à Liga, na próxima primavera.

Não podem se classificar mais que dois homens e duas mulheres de cada país. Isso significa que um dos três brasileiros que estão entre os quatro primeiros do ranking mundial ficará de fora. Também significava que as três primeiras do tour – as americanas Carissa Moore, Lakey Peterson e Caroline Marks – competiram pelo título mundial e pelas duas vagas olímpicas dos Estados Unidos no Maui Pro nesta semana. (Moore ganhou seu quarto título mundial e Marks confirmou a passagem para Tóquio.)

Entre os americanos, o californiano Kolohe Andino conquistou uma vaga na Olimpíada com sua temporada estelar no tour da Liga, onde é o quinto. Florence, campeão mundial em 2016 e 2017, teve uma primavera tão espetacular que está em oitavo, apesar de ter perdido metade dos eventos da temporada. Ele é o segundo colocado entre os americanos. Slater é o décimo no geral, mas ainda não conseguiu passar Florence, apesar da ausência do amigo durante todo o verão e outono. Sua melhor exibição nesta temporada foi o terceiro lugar em Bali, em maio. Slater não chega às quartas de final de um evento desde então.

A janela para o Pipe Masters é deste domingo até 20 de dezembro. Quando der praia, Florence e Slater vão sair de suas casas, atravessar a Sunset Beach e determinar quem vai a Tóquio. “Talvez a gente se encontre logo no começo das baterias e eu tenha que vencê-lo, e depois tenha que vencer várias baterias para passar por ele”, disse Slater. “Ou ele pode me vencer e ficar com a vaga. Seria bom ficar em uma de nossas mãos”.

A possibilidade de Florence competir no Pipeline continua sendo a variável mais comentada da semana. Sentado no seu deck, ele admitiu que a recuperação da reconstrução do joelho tinha sido retardada por 30 dias, entre agosto e setembro, que passou navegando seu catamarã do Atol Palmyra à Ilha Fanning, mais de mil quilômetros ao sul do Havaí.

“Provavelmente estaria bem melhor agora, se tivesse ficado em casa e treinado todos os dias, com certeza, mas não sou assim”, disse ele. Seus cachos loiros saíam do fundo do boné e dava para ver uma cicatriz pálida contra o bronzeado da perna direita. Seus olhos azuis são mais claros que um mar raso. “Foi uma viagem incrível – uma experiência de vida”, disse ele. “Fiquei muito feliz que a gente foi”.

Florence era o bicampeão mundial defendendo seu título quando lesionou o joelho no meio de 2018. Ele passou a segunda metade da temporada descansando, pois escolhera não operar, e depois voltou até a primeira metade de 2019, vencendo dois de seus quatro primeiros eventos.

Mas nas quartas de final do Rio Pro, no Brasil, em junho, ele saiu da água mancando, com o ligamento cruzado anterior rompido. Na época, muitos diziam que Florence não tinha mais chance de ir à Olimpíada, mas ele analisou seu desempenho da classificação em 2018 e imaginou que ainda estaria no páreo em dezembro.

Parecia confiante no final de novembro. Estava surfando um pouco sozinho, mas optou por ficar de fora de dois eventos para se concentrar no terceiro: o Pipe Masters, que decidirá tudo. “Estou me sentindo superdesconfortável. Para surfar no Pipe em geral, totalmente saudável, você precisa ter confiança no que está fazendo”.

Florence nunca ganhou um título de Pipe Masters – um agravante, considerando que ele cresceu mais perto do Pipeline do que qualquer outro surfista. Em disputas diretas com Slater, ele tem 2-6, incluindo um 0-3 no Pipe Masters. A última vez que surfaram cara a cara no Pipe Masters foi na final de 2013.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Slater conquistou o título mundial pela última vez em 2011, o primeiro ano de Florence no circuito. Slater terminou em segundo nas duas temporadas seguintes, mas não passou de sétimo nos últimos cinco anos, com o manto do surf migrando para Florence e outros, como o brasileiro Gabriel Medina.

Slater ainda compete regularmente, mas passou grande parte de seu tempo em outros projetos, entre eles o Surf Ranch, sua piscina de ondas artificiais no centro da Califórnia. “Três anos atrás, fizemos uma viagem muito legal às Ilhas Marshall”, disse Florence, uma jornada destacada no filme Proximity. “Foi muito massa. Eu ficava fazendo um milhão de perguntas. Ele é muito competitivo, então nem sei se ele estava me contando a verdade.”

Ele sorriu. Naquele ano, Florence venceu seu primeiro título mundial – e ganhou novamente em 2017. A fala de Slater era sobre estratégia: dividir grandes competições em pequenos pedaços, criando um mindset para vencer cada bateria, uma onda de cada vez. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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