Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

'Vou passo a passo, é preciso sempre ter os pés no chão'

Favorita ao pódio nos Jogos do Rio, nadadora baiana é fiel ao lema tatuado na sua pele: ‘dias de luta, dias de glória’

Entrevista com

Ana Marcela Cunha

PAULO FAVERO, O Estado de S. Paulo

26 de setembro de 2015 | 17h01

A vontade que Ana Marcela Cunha tinha para competir quando ainda era criança na Bahia já mostrava que um dia ela poderia colocar a bandeira brasileira no lugar mais alto do pódio. Fez isso no Mundial em Kazan, na prova de maratona aquática, e quer repetir a dose nos Jogos do Rio. Aos 23 anos, ela cresceu dando braçadas e ajudando os pais em um pet shop depois das aulas no colégio. “Era uma vida sempre difícil”, conta.

A paixão por animais fez com que tivesse uma cachorrinha em sua casa em São Paulo, onde mora para treinar no Sesi-SP. Com 20 tatuagens pelo corpo, muitas com temas marinhos, como âncora e golfinho, ela faz do seu cotidiano um texto que estampou na pele: “Dias de luta, dias de glória”. Para ela, o sonho dourado será construído a cada mergulho na piscina de treinamento.

Quais lições você tira de sua participação no Mundial projetando para a Olimpíada?

Acho que ter conquistado três medalhas foi importante, e o bronze foi fundamental pois ocorreu na prova que é olímpica, onde me classifiquei para 2016. Tenho certeza de que o trabalho está sendo bem feito. Sei que posso melhorar algumas coisas para buscar a medalha de ouro, mas não tenho dúvidas, só a certeza de que estou no caminho.

Como transformar esse bronze na prova de 10 km em ouro no Rio?

No Mundial anterior, em 2013, em Barcelona, fiquei com a medalha de prata, então trabalhamos muito duro para tentar o ouro no Mundial, que é uma competição até mais forte que a Olimpíada. Só que acabou o Mundial e todos entram com as mesmas condições nos Jogos do Rio, zerou tudo. Ainda faltam atletas para se classificar e espero fazer o que precisa ser feito para buscar os objetivos.

Como foi participar do evento-teste na praia de Copacabana, no mês passado?

Já nadei mais de dez competições ali naquele local, mas cada evento é diferente do outro. Tem dias que o mar amanhece bem calmo, como uma piscina, mas aí mais tarde ele vira completamente. Tem menos de um ano para a Olimpíada, então temos de estudar ainda mais o local. Assim, quando olharmos para o mar, saberemos como estarão as condições. Quero voltar mais vezes lá para Copacabana, para poder analisar essas diferentes condições. Não é como uma piscina, que tem temperatura padrão, sem ondas e correntezas.

Você pretende ir com mais frequência para o Rio?

Até os Jogos Olímpicos vamos ter mais quatro oportunidades de ir para lá. Não adianta ir em um fim de semana para nadar e ver como está a água, porque precisa ter um circuito pronto e noção de onde vão estar as boias. São pontos de referência importantes, porque é fundamental tentar nadar o mais reto possível.

O Brasil é uma potência na maratona aquática. Como você vê isso?

É a nova geração chegando. A maratona aquática virou esporte olímpico em 2008, é algo recente e as pessoas não tinham muita noção do que era. Elas viram eu e o Allan do Carmo crescendo tanto na seleção, pois faço isso desde os 14 anos e ele desde os 16. Aí, quando entrou no programa olímpico, a modalidade passou a chamar mais atenção.

A idade pesa?

Não tanto, pois é um esporte que tem uma longevidade maior que outros aquáticos. Tem muita competição que 70% dos atletas são masters. Isso está mudando e mais atletas jovens estão querendo praticar. Estamos sempre tentando recrutar nadadores de provas de fundo da piscina, como os 800 m ou os 1.500 m. É preciso ter autocontrole, tem muito contato físico, então você vai tomar porrada na disputa por espaço.

Você já sofreu com esses golpes?

Toda prova acontece, não tem jeito. Tem de estar preparado. Contorno de boia tem dois metros quadrados e 50 pessoas precisam passar por ali. O contato físico é inevitável. Tem bastante maldade também. Quando está no pelotão, é muito raro ter o contato.

Como surgiu o esporte na sua vida?

Eu nadei um pouco na piscina, mas na Bahia tem muitas competições de maratona aquática. Todo final de semana tinha prova, e tomei gosto por isso. Era em Morro de São Paulo, em Mangue Seco, vários locais turísticos, em circuitos do interior. Não tinha nem idade para competir, porque era a partir de 13 anos, e eu, com 9, então meu pai precisava assinar um termo de responsabilidade dizendo que eu estava apta para fazer aquilo, mostrava atestado médico, para que eu fizesse aquilo que gostava.

Você abriu mão de muita coisa para realizar o sonho olímpico?

Para ser atleta você abdica de ter uma vida social um pouco mais badalada de acordo com sua idade. Hoje não estou estudando, já fiz dois anos de faculdade, mas resolvi trancar para me dedicar ao sonho olímpico, e depois dos Jogos quero voltar a estudar para acabar o curso de Educação Física. A gente abdica de algumas coisas para colher outras, mas depois sei que vou poder voltar e fazer isso.

Como você vê o seu favoritismo para os Jogos do Rio?

Falta muita coisa ainda. Depois que fiquei fora de Londres, aprendi bastante. Vou sempre passo a passo, faltam dez meses, é preciso ter muito pé no chão porque é muito tempo, daqui a 15 dias vou competir na China, aí vou para o Campeonato Brasileiro na Bahia, sempre pensando na competição seguinte, até o dia que chegar lá em agosto de 2016.

A torcida já sabe que você vai pintar o cabelo. Já pensou na cor da Olimpíada?

É surpresa. A ideia vem na hora. Comprei a cor roxa para levar pra Kazan, nunca tinha feito, e aí dois dias antes da prova, deu na telha, fui fazendo e foi dando certo. No ano passado meu cabelo estava bem grande, cortei e doei, pois tem gente que precisa e necessita. Já tive cabelo grande, curtinho, de vez em quando vou mudando.


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