Jonne Roriz/AE
Fabiana diz que tenta colocar uma pedra no que aconteceu em Londres, quando não conseguiu realizar seus últimos saltos e nem sequer passou à final da disputa olímpica Jonne Roriz/AE

EM CRISE, ATLETISMO VÊ RISCO DE FRACASSO NA OLIMPÍADA DO RIO

País-sede só ficou longe do pódio duas vezes na história

Almir Leite, Nathalia Garcia e Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2015 | 17h00

O péssimo resultado no Pan de Toronto, o pior desde Cali-1971, acendeu a luz vermelha do atletismo brasileiro. São grandes as chances de o País, que ganhou apenas um ouro no Canadá, não conseguir uma única medalha na Olimpíada do Rio. Seria um vexame histórico para o Brasil. Em mais de cem anos dos Jogos, somente em duas edições o país-sede não subiu ao pódio no atletismo: em 1920, em Antuérpia, e em 1988, em Seul.

O desempenho abaixo do esperado do time brasileiro em Toronto se deve, principalmente, ao nível das provas. Canadá e Estados Unidos levaram ao Pan alguns dos seus melhores atletas, o que acabou dificultando a vida dos brasileiros. Mas não é só isso. O País perdeu terreno também para outras equipes do continente. O Brasil, que historicamente costumava terminar o Pan na terceira posição, depois de Cuba e EUA, foi agora apenas o oitavo colocado na classificação geral, atrás de países como Colômbia e México.

Se no cenário regional a situação do Brasil é complicada, a nível mundial o quadro é crítico. O País fracassou nas últimas duas competições de peso. Tanto nos Jogos de Londres-2012, como no Mundial de Moscou-2013, os brasileiros não conseguiram sequer uma medalha. O último resultado expressivo foi o ouro no salto com vara conquistado por Fabiana Murer, em 2011, no Mundial de Daegu, na Coreia do Sul.

Fabiana, inclusive, continua sendo a principal esperança de medalha para os Jogos do Rio. A equipe brasileira que disputará a Olimpíada deverá ser muito parecida com a que foi para Londres. Nesse período, o Brasil revelou pouquíssimos atletas. Uma das raras exceções é Thiago Braz, 22 anos, dono da quarta melhor marca do ano no salto com vara (5,92 m), apesar do fracasso em Toronto, quando errou todas as tentativas.

A crise no atletismo colocou o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) em estado de alerta, e a entidade passará a monitorar de perto o trabalho da CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo) até os Jogos de 2016. O esporte é considerado vital para o País alcançar a meta estipulada pela entidade de 27 medalhas para ficar no Top 10 do ranking geral. Dos 108 pódios do Brasil na história da Olimpíada, 14 foram com o atletismo (quatro ouros, três pratas e sete bronzes). A modalidade só fica atrás de vôlei, vela e judô.

A partir do dia 22, o Mundial será disputado em Pequim. A competição vai reunir os melhores atletas do planeta e os resultados da equipe brasileira servirão como parâmetro para 2016.

Hoje, as chances de medalha do Brasil no Rio estão no salto com vara, no revezamento 4x100 m e na maratona. Mesmo assim, o País não pode ser considerado favorito em nenhuma das provas. “Precisamos contar com a sorte porque Jamaica e Estados Unidos são favoritos no 4x100 m, e na maratona a imprevisibilidade das condições climáticas deve deixar a disputa em aberto e, por isso, nos dá alguma possibilidade”, avalia Adauto Domingues, técnico da seleção brasileira.

Domingues reconhece que é impossível mudar esse cenário a curto prazo. “Assim como todo mundo sabia para qual lado o Garrincha ia driblar e ninguém conseguia marcá-lo, sabemos que os países do Caribe são melhores do que a gente nas provas de velocidade. Nos 10 mil metros também sabemos que vamos perder para Quênia e Etiópia. Essa é a realidade, não adianta querer enganar.”

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'Falta atitude vencedora para os nossos atletas', diz Robson Caetano

Ex-atleta lamenta fraco desempenho do Brasil no Pan de Toronto

Entrevista com

Robson Caetano

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

01 de agosto de 2015 | 17h00

Já se passaram 27 anos desde que Robson Caetano da Silva cravou 10 segundos nos 100 metros rasos na Cidade do México e estabeleceu um novo recorde brasileiro e sul-americano. Até hoje a marca não foi superada. Em entrevista ao Estado, o ex-atleta - bronze nos 200 m na Olimpíada de Seul (1988) e no revezamento 4x100 m nos Jogos de Atlanta (1996) - analisa o atual momento do atletismo brasileiro. 

Símbolo de uma geração de velocistas, Robson lamenta o fraco desempenho do Brasil nos Jogos Pan-Americanos de Toronto e destaca a falta de espírito vencedor da atual geração. Ele também não vê com bons olhos a consultoria do norte-americano Michael Johnson e se preocupa com o desempenho do País na Olimpíada do Rio, em 2016

O Pan de fato serve como parâmetro para a Olimpíada?

O parâmetro real será o Campeonato Mundial. Eu ainda estou esperando para fazer uma avaliação mais precisa do que a gente pode tirar para a Olimpíada dessa laranja que infelizmente não pareceu muito agradável no Pan-Americano. Se os treinadores acharam que foi um pouco abaixo do esperado, eu diria que foi nem um pouco satisfatória. As mudanças estão sendo feitas para que a equipe tenha um desempenho melhor e eu espero que isso esteja acontecendo porque a gente está investindo em expertise estrangeira. O COB está gastando com atletas medalhistas que vem de fora para dar consultoria e eu não vi progresso. Alguma coisa está faltando nesse tempero para que o atletismo tenha um desempenho um pouco melhor. Para mim, não foi bom.

O que faltou para o atletismo brasileiro em Toronto?

A qualidade está muito comprometida por conta do investimento. Eu sou de uma geração que você tinha que fazer por merecer. Hoje falam que um atleta de 19 anos é muito jovem, não é jovem. Um cara com 19 anos tem de estar pronto para a medalha, pronto para correr resultados expressivos. Nas provas de velocidade, a participação foi pífia. Atletas que foram defender seus títulos pan-americanos não conseguiram, nossos revezamentos não brilharam, a gente contou com uma desclassificação para conseguir subir do bronze para a prata. Por enquanto estou lamentando, o que falta é um pouco mais desse comprometimento, dessa atitude vencedora dos atletas. Não conversei com nenhum dos meninos para saber se isso mexeu com o brio deles, mas mexeria com o meu. Teve vento a favor nos 100 metros e os caras não conseguiram correr o resultado, eu ficaria um pouco decepcionado comigo mesmo, voltaria para casa para treinar, para me empenhar, para me entregar para fazer o melhor.

Até hoje o recorde sul-americano dos 100 metros é seu...

A gente não tem um atleta sul-americano que corra 10s17, 10s15, 10s10. A última geração que correu próximo disso foi a geração de André Domingos, que correu 10s07, mesmo assim ainda é fraco. O resultado 10s é fraco. Eu fiz há 27 anos, não foi ontem. Sou um jovem senhor de 51 anos que está vendo uma geração promissora, tem uma série de atletas que são bons, mas está faltando o pulo do gato. Se acontecesse uma competição nos Estados Unidos ou no Canadá, você canadense ou americano, contrataria uma pessoa do Brasil, mesmo sendo multi-campeão, para ser consultor técnico? Estão fazendo isso. O Michael Johnson é uma pessoa que tenho um carinho enorme, mas honestamente ele não vai entregar o ouro para um brasileiro ganhar medalha em cima de um americano. Ele está sendo consultor do time do Brasil. Existem algumas contradições, se vai ser bom para o Brasil ou não, a gente está começando a perceber que talvez não seja. 

Acha que estamos atrasados nessa preparação olímpica?

Nós passamos uma fase muito grande na entressafra. Se você sair na rua e perguntar do Robson Caetano, mesmo que as pessoas não tenham visto correr, elas lembrar do nome. Os resultados dos treinos não dão aos atletas hoje a segurança para correrem o necessário, talvez falte esse pulo do gato. Quem fez e quem sabe, não está lá fazendo com os atletas. Convocaram o Carlos Alberto Cavalheiro ao apagar das luzes para tentar resolver um problema que vem se arrastando há mais de dez anos. A gente tem que rever alguns conceitos. Infelizmente tivemos uma geração comprometida, a geração do técnico Jayme Netto, que usou substâncias ilícitas e ficou uma coisa confusa, alguns nomes se perderam no meio do caminho. Ainda acredito que a gente consiga fazer alguns nomes. A Yarisley Silva virou uma pedra no sapato da Fabiana Murer. Tecnicamente e psicologicamente, ela precisa vencer essa barreira. Vai saltar 5 metros, vai saltar 6 metros, se vira, dá seu jeito. Talvez 6 metros não seja possível, acredito até que não seja nesse século, mas vai acontecer alguma hora, está na hora de alguém fazer.

Como você vê a formação dos atletas?

O problema está na falta de planejamento fora da pista. O atleta fora da pista também tem de ser atleta. O personagem atleta não pode pensar de forma diferente do cara que está na pista, as linhas têm que estar paralelas, não dá para você ter o atleta e depois que sai da pista desliga, o atleta continua e a vida desse atleta tem que ser até mais comprometida que do cara que está dentro. A gente vive na era digital, fica no computador, no tablet até tarde, tem a namorada que está longe, tem muita distração. Minha geração não teve tantas distrações. 

Para você, como está o investimento em estrutura?

O Rio de Janeiro está em uma fase delicada neste aspecto. Perdeu o Célio de Barros, que é uma pista central e comum para vários atletas que iam lá treinar. Existe um espaço vazio, uma arquibancada que está ruindo e não recebe nenhum tipo de tratamento. A pista que sobrou aberta ao público para treinamento é a do Estádio do Botafogo, que está fechada por conta das obras e não tem como treinar. Sobraram as pistas da Aeronáutica, do Exército e uma do Mato Alto, o atleta de alto rendimento tem que se deslocar muito para treinar. Em São Paulo nem tanto, você tem uma quantidade maior de pistas, de estruturas, equipamentos de atletismo para serem utilizados. A gente não pode reclamar, mas o único fato pontual nesse aspecto é que no Rio de Janeiro, casa que vai receber o atletismo na Olimpíada, não tem local específico para os caras treinarem. Quadra de vôlei tem em tudo quanto é lugar. Talvez isso esteja atrapalhando um pouco a preparação dos atletas. De uma maneira geral, eu diria que não é ruim. Os atletas de alto rendimento vão conseguir as pistas para treinar. Mas tem que começar a pensar na base, pensar em 2020, 2024, 2028. Para 2016, o que nós temos é isso, o que a gente viu no Pan. Eu fiquei decepcionado com a nossa performance, a gente precisa reavaliar se dá tempo ou não, parar tudo agora.

O que você faria em uma situação dessa em que o Brasil ligou o sinal de alerta?

O sinal de alerta está ligado desde a última Olimpíada, desde 2012. Em 2008, o sinal de alerta já tinha sido aceso e a gente teve de conviver com desculpas. Em 2012, o sinal de alerta ficou a milhão por hora e desculpas de novo. Agora a gente está indo efetivamente para uma competição que infelizmente a crítica vai cair de pau em cima se a gente não tiver uma medalha. Tem de haver uma união e não uma cisão. Uma união entre técnico do atleta e técnico da seleção brasileira. O CT tem que ser um local em que você vai pegar o seu atleta que está dando resultado na mão daquele técnico que conhece o pulo do gato, que sabe onde tem que apertar o botão para fazer o atleta dar um gás maior. Ainda falta um pouco de humildade, rola ciúmes de alguns, o que atrapalha a preparação do atleta. A gente não sabe tudo, tem que ceder, entender que a gente está aprendendo. Do que vi e aprendi ao longo da vida como atleta e como profissional de Educação Física, posso dizer de cadeira que é preciso dar uma pincelada nesse psicológico dos atletas. Acreditar no resultado é ter atitude de campeão. Atitude vencedora não é só do atleta, é dos técnicos e de todo mundo. É bater no peito e dizer: 'Nós somos bons'. Pode perder, mas entrou para ganhar.

O que pode projetar de medalha na Olimpíada?

Se nós tivermos todas as meninas de 4x100 m inteiras, a gente vai para a final e brigar de terceiro a oitavo. No salto com vara, se a Fabiana Murer tirar esse mantra da Yarisley Silva, conquista o ouro. Nosso decatlo pode ir bem nos Jogos Olímpicos. Nosso 4x100 m masculino, é questão de confiança. Se me perguntassem: 'Robson, você confiaria a tua vida para um garoto desse chegar na final dos 100 metros?' Não, não confiaria. Não estou fazendo crítica para dizer que A ou B ou C sejam ruins. Minha crítica é construtiva para que haja um entendimento de que os caras precisam ter uma atitude de treino campeã porque se você faz bem seu treino, não precisa ter medo de nada. Vai, entra na pista, seguro de que vai fazer o resultado. Ele vai sair e ponto.

 

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Para presidente da confederação, nem tudo está perdido

Toninho mostra confiança para 2016

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2015 | 17h00

O presidente da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), José Antonio Martins Fernandes, discorda do cenário de “terra arrasada’’ criado após o pálido desempenho no Pan. Admite que os resultados em Toronto poderiam ter sido melhores. No entanto, diz que a análise não pode ser baseada apenas no número de medalhas e acredita que o País brigará por alguns pódios na Olimpíada.

“Se for comparar com o Pan de Guadalajara (2011), a gente esteve um pouco aquém nas medalhas, mas no geral tivemos resultados positivos. Vários atletas conseguiram o seu melhor resultado na temporada’’, disse Toninho. “E foi uma competição de nível técnico muito bom. No México não tivemos as equipes dos Estados Unidos e do Canadá em sua plenitude, como agora.’’

Para o dirigente, um outro aspecto precisa ser considerado: o atletismo passa por um momento de transição: “Temos muita gente nova na idade e em situações de disputas internacionais. Para muitos, o Pan foi a primeira competição internacional.’’

Toninho deu como exemplos de atletas novos e promissores Thiago Braz, do salto com vara, e Thiago André, dos 800 e 1.500 metros. “A gente está apostando nessa juventude e dando condições para que possa dar frutos já para 2016, mas também visando 2020’’, disse, referindo-se aos Jogos de Tóquio.

Para o objetivo mais imediato, os Jogos do Rio, a preparação prevê a participação dos melhores atletas em competições de alto nível e períodos de treinos dentro e fora do País, como ocorreu antes do Pan (Colômbia, EUA, Itália, Suécia, Espanha e Portugal receberam brasileiros). Toninho diz que estão sendo adquiridos equipamentos modernos, adotados novos métodos de treinamento e contratados treinadores estrangeiros.

Para isso, a CBAt, de acordo com ele, investe grande parte de seu orçamento anual: são R$ 16 milhões de patrocínio da Caixa e R$ 4 milhões da Lei Agnelo-Piva, que chegam por meio do COB. Há, também, R$ 6,5 milhões do Plano Brasil Medalhas. E 27 atletas também são beneficiados pela Bolsa Pódio, que destina R$ 3,3 milhões ao atletismo.

“Nós estamos desenvolvendo todos os fatores positivos que possam levar a boa apresentação na Olimpíada.’’

Nada disso, porém, é garantia de medalhas em 2016.“Estamos em casa e espero que a gente possa conseguir o número de medalhas possíveis de alcançar (ou seja, nas provas em que os brasileiros têm chances reais). Agora, quantificar eu não posso’’, esquiva-se Toninho.

Ele dá como exemplo a China, que em Pequim-2008 conquistou somente duas medalhas de bronze no atletismo. “Eles fizeram um trabalho que começou 10 anos antes da Olimpíada e não conseguiram o desempenho que esperavam.’’

O dirigente cita como provas em que brasileiros podem brigar por medalhas o salto com vara masculino (Thiago Braz) e feminino (Fabiana Murer) e os revezamentos 4x100 e 4x400. “Os revezamentos estão sendo treinados para ter o ápice na Olimpíada.’’

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