Jorge Adorno/Reuters
Jorge Adorno/Reuters

Em saia-justa, COI adotará postura discreta sobre Havelange

Bandeira brasileira será colocada a meio mastro, mas não a do Comitê Olímpico Internacional

Jamil Chade - Enviado especial ao Rio, O Estado de S. Paulo

16 Agosto 2016 | 10h26

Um dos mais poderosos dirigentes esportivos da história foi ignorado hoje pelo Comitê Olímpico Internacional. Numa saia-justa, a entidade não fez um ato em homenagem ao brasileiro João Havelange e sequer citou seu nome, nem em texto e nem ao se pronunciar diante dos jornalistas. O presidente da entidade, Thomas Bach, não foi ao enterro ontem no Rio e a entidade se limitou a uma "presença discreta".

O Estado apurou com exclusividade que, desde a notícia da morte do ex-dirigente, a cúpula da entidade se reuniu para definir uma posição sobre o homem marcado pela corrupção, mas que chegou a ser membro do COI. Apenas a bandeira brasileira no parque olímpico foi colocada à meio mastro, à pedido da Rio-2016.

Numa coletiva de imprensa, o COI apenas informou do procedimento das bandeiras, sem nem mesmo citar o nome de Havelange. "A Rio-2016 nos pediu para colocar a bandeira à meio mastro e achamos que isso era apropriado", disse Mark Adams, porta-voz do COI.

Questionado sobre a corrupção, ele se recusou a falar do assunto, alertando que a pergunta seria "inapropriada". Ele, porém, insiste que o Engenhão continuará a ser chamado de Estádio Olímpico até o final da competição. Sobre a presença de Thomas Bach no velório, Adams também não confirmou.

Já a Rio-2016 adotou um tom diferente. "Nossos pensamemos e orações estão com a família. Entendemos que ele teve um papel muito importante para o esporte brasileiro e que a familia merece que se preste uma homenagem", afirmou Mario Andrada, diretor de Comunicação da Rio-2016. Andrada indicou que não haverá "nenhum ato especial" e que o protocolo se limita à bandeira brasileira a meio mastro. Mas ele confirmou que, depois da Olimpíada, o Engenhão voltará a ter seu nome original.

Ao Estado, alguns dos principais membros do COI deixaram claro que querem distância de Havelange. "Não haverá um ato", confirmou Juan Antonio Samarach Jr, vice-presidente do COI e filho de um dos dirigentes que, com Havelange, dividiu o poder no esporte mundial. Craig Reedie, outro vice-presidente do COI, também confirmou ao Estado a posição da entidade, indicando que nenum ato público estaria sendo pensado.

Jacques Rogge, ex-presidente do COI no momento em que Havelange deixou a entidade por conta do escândalo de corrupção, admitiu ao Estado que não sabia se iria ao velório. "Não sabemos ainda. Precisamos consultar isso com o presidente do COI, Thomas Bach", disse.

Alex Gilady, um dos membros mais influentes da entidade, foi direto: "Ele (Havelange) não é mais membro do COI".

No hotel dos dirigentes olímpicos, o clima de festa não havia sido afetado pela notícia da morte. Alguns acompanhavam o remo pela televisão, enquanto outros dirigentes tomavam seus cafés, já se preparando para ir aos eventos olímpicos.

Havelange esteve intimidamente ligado aos Jogos no Rio. Ele havia sido convidado pelo presidente da Rio-2016, Carlos Arthur Nuzman, para estar na cerimônia de abertura. Mas não apareceu. Em 2009, na última apresentação da delegação do Rio de Janeiro para conquistar o apoio do COI para sediar os Jogos de 2016, a palavra final foi dada por Havelange. Ao se levantar, sua estatura impressionante e seu histórico geraram um profundo silêncio na sala de convenções em Copenhague.

"Em 1952, participei dos Jogos ao lado de nomes importantes como Jesse Owen. Vi que essa competição é capaz de mudar um país e a vida de muitas pessoas", disse em francês o então-presidente de honra da Fifa. "Convido todos vocês a virem para a minha cidade, prestigiar os Jogos, no meu centésimo aniversário. Peço que se juntem a mim para realizar esse sonho", apelou.

Mas se em 2009 o mundo ainda reverenciava o brasileiro, ele vivia nos últimos anos no ostracismo. Seu cargo de presidente de honra da Fifa foi retirado por conta do escândalo de corrupção, o brasileiro foi obrigado a abandonar o COI, perdeu seu nome no estádio que está sendo usado para a Olimpíada e a Justiça dos EUA reabriu as investigações sobre seu reinado no comando da Fifa.

Revelações feitas pela imprensa britânica apontaram em 2011 que, nos anos 90, ele recebeu milhões de dólares em propinas da empresa de marketing ISL em troca de contratos de transmissão para a Copa do Mundo. Ricardo Teixeira, seu ex-genro, também ficou com parte do dinheiro e, no total, a ISL teria distribuído mais de US$ 100 milhões em propinas.

Um acordo foi fechado na Justiça suíça em que, sem admitir culpa, Havelange e Teixeira, pagaram uma multa e o caso foi encerrado. Por anos, os documentos foram mantidos em sigilo. Mas a publicação dos dados fez o COI abrir investigações.

Em 2011, uma semana antes do veredito final do COI, Havelange enviaria uma carta para a entidade em Lausanne indicando que, “por motivos de saúde”, renunciava de seu cargo. Fora do COI, o brasileiro conseguiria evitar ser punido e o processo foi arquivado.  Ao fazer o anúncio diante da imprensa, Rogge não conseguia sequer esconder seu constrangimento.

PARTICIPE

Quer saber tudo dos Jogos Olímpicos do Rio? Mande um WhatsApp para o número (11) 99371-2832 e passe a receber as principais notícias e informações sobre o maior evento esportivo do mundo através do aplicativo. Faça parte do time "Estadão Rio 2016" e convide seus amigos para participar também!

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.