Escolha suas lembranças

A Olimpíada em casa passou com a velocidade de um raio, ou de um Bolt, para ficar no restinho de clima da festa. Esperamos tanto, se previu um monte de dificuldades, mas quase tudo saiu bem. Os Jogos vieram, marcaram e se foram. Com recordes, sem zika, com lambanças, com Vila Olímpica a funcionar e sem os atentados terroristas, como temiam os alarmistas de plantão, que sempre os há.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

22 Agosto 2016 | 03h00

Cada um que viveu, ao vivo ou virtualmente, o imenso evento esportivo guardará lembranças inesquecíveis. A escolha é livre e variada, depende da expectativa pessoal. Por isso, não há proeza maior nem menor: todas são importantes, a partir de perspectivas particulares. Para o COB, por exemplo, a enorme delegação nacional terminar com 19 medalhas pode ser excepcional. Diante das projeções iniciais, do que foi investido em diversas modalidades e pelo fato de ser o país anfitrião, a coleta de metais preciosos no peito deveria ter sido maior. Fica ao gosto do freguês absorver discurso oficial ou exercer o senso crítico.

No varejo, e se nos ativermos ao desempenho dos patrícios, há razões para alegria em várias frentes. Como não se emocionar com o ouro de Rafaela Silva, no judô? Pela história de vida da moça, pelas injúrias que suportou quatro anos atrás, pelo tropeço em Londres. Por encontrar no esporte uma razão de vida, pois “na comunidade não tem nada”, para usar palavras dela.

Não passa em branco o dourado de Robson Conceição no boxe, a primeira vez que o país subiu no alto dó pódio na categoria. Trata-se de mais um caso de sucesso peculiar, outra narrativa bem brasileira, de esportista que recebeu apoio até aqui e não sabe o que virá adiante. Rotina para boxeadores.

O salto com vara tem lugar de destaque na memória afetiva. Pelo ineditismo do feito de Thiago Braz e pela polêmica das vaias para o francês de prata, Renaud Lavillenie. Incidente que mereceu dimensão além da conta e atiçou os “censores de torcida”, especialidade criada nos Jogos do Rio por aqueles que pretendem impor ao fã tupiniquim padrões de conduta de lordes.

Felipe Wu fez bonito no tiro esportivo, levou prata e abriu a série de medalhas. Será lembrado, e merece. Como não devem cair no esquecimento os moços do vôlei, os de praia e os de quadra, com seus ouros. Aplausos de pé para a dupla Martine Grael e Kahena Kunze, campeãs na vela. E, claro, abraços calorosos para a turma do futebol masculino, por terminarem em primeiro lugar e por finalmente nos livrarem da ladainha de “a busca por medalha de ouro inédita” etc e tal.

Certamente haverá quem guardará no coração as outras duas medalhas no judô, as três na ginástica artística (com os movimentos perfeitos dos jovens). Louros para Poliana Okimoto na maratona aquática, para Maicon Andrade no tae-kwon-do. E uma reverência para Isaquias Queirós e as três medalhas no remo – nenhum de nossos conterrâneos ganhara antes tal quantidade numa única edição dos Jogos.

Todos esses brasileiros têm direito de curtir até o final dos tempos a experiência, as dificuldades, as emoções da Rio-2016. Mesmo que a glória não se repita no futuro ou que a euforia do momento desapareça em seguida. O que não é de estranhar, pois desde já voltamos a ser predominantemente o País do Futebol.

A crônica de saideira dos Jogos precisa fechar com dois registros de lei, de “brasileiros” que adotamos e que, mesmo sem o devido distanciamento de tempo, podem ser colocados no panteão dos mitos do esporte. Sim, meu amigo, são Michael Phelps e Usain Bolt. A dupla concluiu trajetória olímpica no Rio, e de forma irretocável. Arrepiantes o carinho do público e o desempenho desses gigantes. Comoventes as marcas que obtiveram. Um nadador e um velocista extraterrestres.

A Olimpíada no Brasil teria sido linda sem ambos. Entretanto, se tornou memorável porque aqui estiveram, venceram, brilharam, encantaram. E agora? Agora, até quarta-feira, com o nosso futebol cotidiano.

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