Rafael Fachina/Reprodução/Facebook
Rafael Fachina/Reprodução/Facebook

Especialistas ajudam técnicos com as 'máquinas' olímpicas

Biomecânicos ajudam atletas a melhorarem performance

Gustavo Zucchi, O Estado de S. Paulo

16 de dezembro de 2015 | 10h00

Na Fórmula 1, de nada adianta uma escuderia ter o melhor carro se não tiver um piloto capacitado. Com esta mesma máxima na cabeça, clubes e confederações ligados ao esporte olímpico têm recorrido a profissionais não apenas que saibam operar as mais recentes novidades no mundo esportivo, mas que ajudem toda a comissão técnica a entender mais da verdadeira máquina que pode trazer medalhas para o Brasil: o atleta.

Esta função é desempenhada por biomecânicos e outros especialistas em colher dados sobre os esportistas, fornecendo informações preciosas para que os treinadores entendam como maximizar a performance tanto coletiva (em esportes de equipe) quando individual dos atletas. Esses dados também ajudam a equipe médica a identificar os problemas que  podem surgir em determinados exercícios, ajudando a prevenir e resolver mais rapidamente o surgimento de possíveis lesões.

"Na ginática, funciona assim: esses profissionais analisam tudo e acabam passando para a fisioterapeuta e também para o Marcos Goto (técnico de ginástica) todos os dados a fim de buscar a perfeição", resume o medalhista olímpico Arthur Zanetti. Ouro nos jogos de Londres em 2012, Zanetti e seu técnico têm há dois anos a ajuda do biomecânico Franklin de Camargo Junior, que estuda e trabalha com análises biomecânicas no esporte desde 2004, portanto, não tão recente assim.

"No caso do Arthur, ele não é alguém que precisa repetir dez vezes um movimento para conseguir um estado de perfeição do exercício ou de satisfação técnica, mesmo assim os exercícios provocam nele uma sobrecarga que não é pequena", explica Franklin. O desafio do biomecânico é conciliar a estrutura e os limites do atleta com as vontades do técnico e da equipe médica, de modo a atender também seus desafios. "Será que se eu inverter um pouco este apoio vou ter alguma vantagem mecânica? Será que se eu entro com um ângulo diferente, tenho uma proposta de maior propulsão e de maior altura? Então, de uma certa maneira, a equipe técnica tem uma previsão do que esperar do atleta na sua realização, a equipe médica tem uma outro previsão do ponto de vista clínico do que ela espera também e das suas funções motoras. A biomecânica dá esse suporte às duas situações", diz Franklin.

Quem também desenvolve um trabalho de análise de desempenho é o Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo, um dos grandes celeiros de atletas olímpicos no Brasil. No Centro Integrado de Apoio ao Atleta (CIAA), o clube une diversos especialistas para auxiliar as diversas modalidades do clube. Com uma média de 80 atendimentos por mês, atividades como natação, basquete e judô são potencializadas. Resultados que depois refletem nas respectivas seleções.

"Aqui no Pinheiros, dividimos em quatro grandes áreas: testes motores, controle da carga de treinamento e análise de jogo e cinemática", explica o professor Rafael Fachina, fisiologista da seleção brasileira de basquete e um dos técnicos responsáveis do CIAA. "Você consegue formar gerações vencedoras, gerações fortes, com essa estrategia de ter a ciência do esporte acoplada ao processo. Não é a única determinante, mas é fundamental".

Para Zanetti, toda essa mentalidade ajuda. "A gente vê que um braço está um pouco mais aberto do que o outro. O que está acontecendo então? Esse músculo está um pouco mais encurtado, vamos alongá-lo para equilibrar o corpo. Isso também acaba prevenindo lesões", diz o campeão.

FERRAMENTAS

Como todo mecânico, os biomecânicos utilizam suas próprias ferramentas para obter os resultados esperados. Softwares como o Dartfish (análise de jogo por meio de vídeo) e aparelhos como o Zephyr (análise fisiológica através da frequência cardíaca e mecânica por meio dos acelerômetros) são alguns dos mais usados. "Eles (os aparelhos) são muito transitórias dependendo da necessidade. Já usei acelerômetros, já usei câmeras infravermelhas, já usei eletrografia, já usei sensores de carga. Mas muitas vezes eu estava apenas com uma câmera e um cronômetro. E obtivemos análises biomecânicas importantes, tão importantes quanto obtidas com equipamentos sofisticados", diz o biomecânico Franklin.

"Eu tenho a opinião pessoal de que a tecnologia facilita tudo. É como se você fizesse as contas na calculadora quando tem um Excel à disposição. O individuo pode até ter competência para fazer o exercício sem a tecnologia, o que é aceitável. O profissional que trabalha com análise de desempenho tem de ser competente. Mas a tecnologia nos dá velocidade e certeza dos dados. Ela agiliza o processo e o torna transparente", afirma Fachina. A ferramenta mais importante da biomecânica talvez seja o próprio profissional que acompanha diariamente o atleta.

"Vou usar agora as palavras do técnico: 'Na ausência da tecnologia, a gente usa a cabeça'. É um pouco verdade", brinca o especialista. "Não estou jogando água na fogueira, precisamos sim muito da tecnologia, mas a gente dá conta"./Colaborou Nathalia Garcia 

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