Lucas Figueiredo/CBF
Lucas Figueiredo/CBF

Espírito Olímpico e futebol sempre em conflito

Hoje, como na minha geração, os jovens só estão ali para vencer e voltar ás suas vidas

Neto, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2021 | 05h00

Hoje, prestes a completar 55 anos, consigo ter o entendimento do que significou minha participação nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988. Nós tínhamos uma grande geração de jogadores que mais tarde seria base do time que conquistaria o tetra na Copa de 94.

Entre os principais estavam o goleiro Taffarel e os atacantes Bebeto e Romário. O curioso é que na ocasião já existia um conflito entre “dirigentes” - que ocorre até hoje - e o Brasil nunca poder atuar com sua equipe considerada adulta. Lá na Coreia do Sul nosso time sub-23 alcançou a medalha de prata atropelando muita gente e só perdendo para os principais jogadores da União Soviética em jogo apertado, placar de 2 a 1.

Mas a verdade é que na ocasião, aos 22 anos, não tinha muita noção naquele feito. Eu queria mais era voltar pra casa e rever minha namorada e meus pais. Pra ser sincero nem me preocupava com a imagem de ‘jogador de seleção’. Pensava só em ir onde mandavam para jogar bola e pronto!

Só depois, conversando com os atletas na Vila Olímpica, onde ficamos hospedados na véspera da final, que realmente comecei a entender um pouco o tal “Espírito Olímpico”. Fiquei amigo do Oscar, do Basquete, do Aurélio Miguel - que viria a ser ouro no judô -, e até da Márcia Fu, do Vôlei. A resenha com essa turma era demais!

Achei também que com o tempo existiria um acerto entre COI e Fifa. Mas o acerto se limitou à liberação de apenas três jogadores acima dos 23 anos. De qualquer forma, o que nunca mudou da minha geração para a atual foi a mentalidade dos atletas. Até hoje o futebol é visto como um esporte à parte da Olimpíada. São jovens que, assim como eu em 88, não enxergam o tal “Espírito Olímpico”. Só estão ali para vencer e voltar para suas vidas boas e confortáveis em seus clubes.

Lobby desnecessário e polêmico. Sempre gosto de repetir que é difícil criticar o futebol do Daniel Alves. Só louco questiona o fato de ser um dos maiores laterais do mundo. Se não me engano é o recordista histórico de títulos em toda a história do futebol. Mas ainda assim não consigo enxergá-lo fazendo sucesso no São Paulo.

Aí o mais otimista (e fã dele!) vai falar: “Tá louco? Ele tem uma técnica muito acima dos demais por aqui”. Pode até ser, mas a verdade é que desde que chegou o Daniel faz o que quer no clube. Primeiro amarrou um baita contrato milionário e isso não vou nem questionar. Méritos totais dele. Irresponsabilidade da diretoria que o trouxe porque agora o Tricolor deve tanto dinheiro pra ele - cerca de R$ 12 milhões - que o cara deita e rola. Faz o que quer literalmente.

A atitude controversa da vez foi o fato de ele querer disputar a Olimpíada. Com o time em plena disputa da Libertadores e do Brasileirão, ele fez um lobby danado pra ir ao torneio no Japão. Resultado? Deixou o clube na mão e a torcida torceu o nariz.

Segundo informações da imprensa, as principais organizadas já teriam pedido a rescisão de contrato dele, que vai até dezembro de 2022. Minha impressão é que o Daniel vai ter que jogar muita bola, acima de suas possibilidades atuais, para reconquistar o carinho do torcedor. E acho que isso não vai acontecer por um motivo muito simples: não está nem aí pra minha opinião e muito menos para a dos torcedores. Até porque, como é comum aos jogadores de alto nível, ele acha que está acima do bem e do mal./COLABOROU RENATO NALESSO

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