Lisi Niesner/Reuters
Lisi Niesner/Reuters

Espírito olímpico é inspirar pessoas

Uma Olimpíada não é feita apenas de vitórias e derrotas, é momento de surgirem estrelas

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2021 | 19h17

O espírito olímpico estava adormecido durante a pandemia de covid-19. Longe dos holofotes por causa das mazelas que uma emergência sanitária global impõe, ele ressurgiu com os Jogos de Tóquio em todos os cantos do planeta. Não estou falando de competição ou de prática esportiva simplesmente. Falo de algo que nos traz uma sensação boa.

O coronavírus ainda está aí, destroçando lares, famílias e nos obrigando a ter um distanciamento de pessoas que fazem tão bem para os nossos corações. Mas então chega a Olimpíada, realizada dentro de uma bolha para tentar evitar que a temida doença estrague a festa esportiva. Então tivemos a oportunidade de ver muitos atletas que também foram afetados pela pandemia. Muitos não tiveram onde treinar no período mais crítico de restrições, mas a maioria lutou para continuar sonhando em representar seu país. Todos que chegaram ao Japão podem ser considerados vencedores, dadas as circunstâncias excepcionais da preparação.

Quando a largada foi dada em Tóquio, muita coisa aconteceu. Favoritos perderam medalhas e ‘zebras’ subiram ao pódio. Disputas acirradas e hegemonias confirmadas. Recordes foram batidos e marcas pessoais, quebradas. O esporte estava mostrando sua face mais bela e levando mensagem de esperança para todos os cantos do planeta.

Mas uma Olimpíada não é feita apenas de vitórias e derrotas. É um momento também de aparecerem estrelas como Rayssa Leal, de apenas 13 anos e que encantou com sua habilidade em cima do skate. Ou da dupla de tenistas Luísa Stefani e Laura Pigossi, talvez a medalha mais improvável do Brasil porque foram inscritas na competição aos 45 minutos do segundo tempo, passaram por favoritas e ganharam o bronze.

E como não falar da força das mulheres? A começar por Simone Biles, favorita a arrebentar na ginástica artística, mas que brilhou muito mais por levantar a bandeira da saúde mental, tão importante neste momento no qual muitos sofreram com o isolamento social. E faço minhas as palavras de Rebeca Andrade: “Atleta não é robô”.

Foi lindo ver os competidores do skate fazendo festa qualquer que fosse o resultado. A vibração era por acertar as manobras e não por notas altas dos juízes. Essa turma jovem de alma mostrou que a disputa pode ser encorajada, mas jamais deve passar por cima do espetáculo. Ou seja, não se torce para o outro errar, a magia está em superar o adversário no talento.

No campo esportivo, o resultado do Brasil foi bom. Recorde de pódios, melhor campanha da história e novas modalidades caindo no gosto do torcedor. Claro que é preciso reforçar que o investimento ainda é pequeno. Faltam recursos para o esporte, como faltam para a saúde, cultura e educação.

Então não será tão simples vermos novos Italos, Kelvins, Martines, Rayssas, Rebecas, Heberts se os investimentos diminuírem para o próximo ciclo. Nos Jogos de Paris, o Brasil tem possibilidade de novamente fazer bom papel, mas é importante que as autoridades enxerguem com mais carinho a relevância do esporte para a sociedade.

O Time Brasil sai de Tóquio com a sensação de dever cumprido, mas sabe que a caminhada à próxima Olimpíada não começa hoje, já iniciou há alguns anos. E agora precisamos manter acesa a chama do espírito olímpico, que não é apenas reforçar a importância da atividade física, mas inspirar pessoas. No esporte ou em qualquer outra área.

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