Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

'Essa medalha é o que mais queremos', avisa Leandrinho

Armador garante que sua geração não vai decepcionar na Olimpíada

Entrevista com

Leandrinho

Marcius Azevedo, O Estado de S. Paulo

29 Agosto 2015 | 17h00

A seleção masculina de basquete terá a geração mais talentosa desde Oscar e Marcel nos Jogos Olímpicos do ano que vem. Nenê, Anderson Varejão, Leandrinho, Tiago Splitter, Marcelinho Huertas, Alex Garcia, Marquinhos... A pressão é proporcional ao status da equipe. A Rio-2016 é a grande oportunidade para este grupo de jogadores conquistar um resultado expressivo e não ficar marcado como um time de potencial desperdiçado.

Em entrevista ao Estado, Leandrinho, armador do Golden State Warriors e segundo brasileiro campeão da NBA - o primeiro foi Tiago Splitter -,  vê uma responsabilidade enorme sobre os ombros da atual geração, mas confia que, desta vez, será diferente e o Brasil tem condições de conquistar uma medalha olímpica, algo que não acontece desde 1964, com o bronze em Tóquio, no Japão.

A menos de um ano para os Jogos Olímpicos, qual o sentimento de disputar uma competição tão importante no Brasil?

Muita ansiedade. Não é todo mundo que tem oportunidade de receber uma Olimpíada, assim como foi no futebol, com uma Copa do Mundo, em seu país. É um momento único. Estou muito feliz. Vou ter minhas filhas me assistindo na arquibancada. Quero que esse momento chegue logo. Nós queremos fazer bonito, temos um grupo forte, sabemos que será difícil, mas vamos trabalhar muito. O que mais queremos, durante este tempo em que estamos lutando para se dar bem pela seleção brasileira, é uma medalha. Eu tenho certeza que isso irá acontecer. É o momento de ter vontade, dedicação para estar preparado.  

A demora na confirmação da vaga direta por parte da Fiba por causa da dívida da CBB deixou você apreensivo?

Tinha certeza do convite. Não existe o país que vai sediar o evento não receber uma vaga. Independentemente dos fatores que têm por trás, eu sabia que estaríamos na Olimpíada. Fiquei muito feliz por isso e estou na expectativa que dê tudo certo.

O técnico Rubén Magnano manifestou preocupação com o fato de alguns dos jogadores que atuam na NBA não serem protagonistas em suas equipes, atuando menos minutos do que ele considera ideal para chegarem bem na seleção. A preparação individual precisa ser diferente?

O meu papel na NBA sempre foi o que exerço hoje. Sempre saí do banco, sempre fui o sexto homem. Não acho tem muita relação os minutos ou qualquer outra coisa. Eu me preparo muito bem, me dedico muito, já tenho 32 anos. O meu corpo está muito legal. Ainda tenho quatro, cinco anos para jogar. Estou super tranquilo, não é uma situação que me incomoda. Claro que jogamos um pouco mais na seleção e eu até gosto disso.

É possível chegar no auge para o torneio olímpico?

Faço um planejamento, me cuido, há uma equipe envolvida. Eles planejam o que tenho de fazer e o que não tenho. Alimentação, dormir cedo. Não tenho mais 24 anos, então eu sei o que posso e o que não posso. A minha equipe planeja para eu chegar onde quero chegar. 

A sua geração é inegavelmente talentosa. Falta uma conquista importante para não ficar marcada negativamente?

É muito difícil para nós sabermos que temos uma geração talentosa, com muitos bons jogadores de todos os lados, no Brasil, Europa e NBA, e não conquistamos nada. Todos nós estamos convictos e pensando positivo de que isso pode acontecer. A oportunidade que temos de disputar uma Olimpíada no nosso país é uma coisa favorável para subir ao pódio. Hoje isso é a coisa mais importante para cada um de nós. Todos vão se preparar do jeito que tem de tem de se preparar, fechar o grupo do que jeito que tem de fechar para termos este sucesso, subir ao pódio e ter aquela medalha que sempre quisermos desde o primeiro momento em que iniciamos a nossa carreira na seleção brasileira.

Você, Nenê, Varejão e Marcelinho Huertas estão com 32 anos. Marquinhos, 31, e Splitter, 30. Tem o Alex Garcia com 35. A Olimpíada do Rio teoricamente deve ser a última de vocês. A pressão é ainda maior para conseguir um bom resultado?

A idade, para mim, não é uma pressão. Pressão é ter atuado tantos anos na seleção e não ter conquistado nada. Uma pressão interna, porque sabemos que temos condições e não chegamos. Vê o time da Argentina. O Ginobili tem 38 anos, o Scola tem 35. Todo mundo vai ficando velho. Mas, para mim, idade é nós que fazemos. A idade é número. Acredito que os meus companheiros estão pensando da mesma forma.

Na Copa do Mundo, no ano passado, pudemos observar um peso emocional enorme sobre os jogadores da seleção... O Magnano, inclusive, aceitou indicação de duas psicólogas para trabalhar com o grupo, algo que nunca havia feito na carreira. Vê pressão de atuar no Brasil?

O emocional depende de nós, do jeito que vamos seguir. Tem o ponto positivo e negativo. Jogando em casa você tem o apoio do torcedor, familiares, amigos, filhos, filhas, todos torcendo para dar certo. Ao mesmo tempo pode dar alguma coisa errada e não termos uma boa atuação. É uma situação que mexe com o subconsciente. Nós sabemos disso, temos noção do que é jogar no nosso país. O meu emocional está preparado e, se não estiver, vou me preparar para estar pronto para o que der e vier quando o momento chegar. Temos de pensar positivo para que coisas boas aconteçam e façamos uma boa campanha até subir ao pódio.

Falando em pódio, quais são as chances reais de o Brasil conquistar uma medalha na Olimpíada?

Eu penso alto pela equipe que temos, pelo tempo que estamos juntos. Acredito que estamos ali nas pontas. Não à toa, os Estados Unidos nos respeitam muito. É um time de feras, de estrelas e que sempre vem com receito de jogar contra o Brasil. O fato de jogar em casa também é bastante positivo, isso vai ajudar muito para que possamos crescer na competição. Vejo que estamos entre os quatro por termos um time bom, com potencial. Não sei se vai ser o último torneio desta geração pela seleção, mas temos de jogar como se fosse o último da nossa carreira, da nossa vida, estamos indo para o tudo ou nada.

Mas você vê uma briga não só pela medalha de prata?

Não sei como vão vir os Estados Unidos, não sei muito das outras seleções. Eu sempre penso no número 1. Ninguém lembra do número 2. O número 1 é sempre o mais importante, mas, caso não dê, é uma Olimpíada, e vamos tentar uma prata. Se não der uma prata, vamos brigar pelo bronze. O foco principal é o ouro. Não digo apenas os Estados Unidos. A Olimpíada é uma competição muito forte. Vimos no Mundial (no ano passado, na Espanha) quantas equipes boas tivemos. Vai ser difícil. Mas tenho certeza que vamos surpreender muita gente.

Pelo planejamento do Magnano, o tempo de preparação deve ser de 25, 30 dias. É suficiente para deixar o time pronto para um torneio tão competitivo, principalmente pelo fato de terem um papel diferente na seleção?

Cada um tem um papel na NBA. O Nenê é titular lá e, quando vem para cá, acaba sendo diferente. Para mim também é diferente jogar mais minutos. Sei que somos protagonista na seleção. Fico inclusive irritado quando o Magnano me tira da quadra. Os minutos que jogamos na NBA ou o nosso papel não vai interferir na seleção. Independentemente do tempo de preparação vai do subconsciente de cada jogador. Preciso fazer o que for necessário para chegar legal na apresentação. Eu sei o que tenho de fazer e os outros jogadores, acredito eu, também sabem.

Ao que tudo indica os problemas com pedidos de dispensa foram superados antes do Mundial da Espanha. É um assunto que ainda te incomoda? As críticas, entre elas do Oscar, foram exageradas?

Nunca fiz nada de errado, sempre estive à disposição da seleção. Eu tive motivo para pedir dispensa quando aconteceu e não porque não quis estar na seleção. Foram por causa de situações que aconteceram ao longo da temporada, de eu ter me contundido e infelizmente pedi dispensa. O que incomoda um pouco é quando pessoas que não sabem o que está acontecendo e te criticam. Isso me incomodava. Hoje não me incomoda. Estou sempre à disposição, amo jogar pela seleção.

Agora, falando da NBA, já deu para dimensionar o tamanho da conquista?

A ficha ainda não caiu. Eu sou campeão, cara, é difícil acreditar por muitas coisas que aconteceram na minha vida, na minha carreira. Foi uma longa jornada. Não tenho muitas palavras para dizer o tamanho da emoção. É um momento muito feliz. Daqui a pouco vou pegar o anel (de campeão da NBA), o mais importante do mundo, vou enjaular aquele anel. São 12 anos de carreira, em busca de um sonho, de um objetivo, que era ser campeão da NBA. Consegui. Muita gente não acreditava mais no meu trabalho, disseram que eu não iria mais jogar na NBA, que não tinha condições. Deu para tapar a boca de muita gente. Fico feliz porque fui persistente, corajoso. Tive raça, vontade. Se tivesse que passar tudo de novo do jeito que foi, eu passaria tudo de novo.

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