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Está chegando a hora...

Mais três dias, apenas, e muitos dos heróis nacionais de agora voltarão à semiclandestinidade

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2016 | 03h00

Como?! Ah, o amigo viu o título da crônica e imaginou que fosse referência à final do futebol masculino, modalidade que pode, enfim, tirar o pé da lama e ganhar o ouro que lhe falta no currículo. Faz sentido, mas não é. Tem a ver mesmo com a proximidade do encerramento da Olimpíada. Sim, sim, há uma batelada de medalhas em jogo nos três dias que restam do maior evento esportivo que o Brasil hospedou. Emoção de sobra para brasileiros e gringos. Mas já se sente o gosto de fim de festa, de saudade.

Os Jogos são espetaculares, envolventes, e como havia cantado a bola em várias colunas precedentes, lá pelo fim de julho, assim que começaram as provas sumiram do mapa as reclamações. Quase não se falou mais nas falhas da Vila, nem da poluição na Baía de Guanabara, tampouco do zika vírus, que pelo jeito hibernou. O transporte, com sobressaltos, funcionou.

Não tem sido tudo lindo. Ocorreram confusão aqui, outra ali, golpes e assaltos de praxe em ocasiões especiais – praga que atinge qualquer lugar e não apenas o Rio. A lamentar, muito, a morte de um militar em consequência de ataque de traficantes. A violência infelizmente está longe de ser banida. Não há Mundial ou Olimpíada que contribuam para a erradicação de um dos maiores males de nossa sociedade.

O encanto das disputas se sobrepôs a percalços pontuais – e isso que conta, eis o tal do espírito olímpico. O desempenho dos atletas tomou o lugar principal, que lhe é devido. Nem volto à discussão em torno de vaias do público em certos momentos. Representam manifestação cultural nossa, nem melhor nem pior do que a de outros povos.

Plateias têm suas peculiaridades, no mundo todo: umas aplaudem demais, outra de menos; algumas são silenciosas, outras ruidosas; há as calorosas, enquanto outras são gélidas. Há quem se divirta assoprando vuvuzelas, um tormento para ouvidos sensíveis, porém marca inesquecível da Copa da África em 2010. Ou seja, temos muita coisa globalizada e sem identidade; que não se policie a zoeira nacional.

O bacana, nas duas semanas e meia de desafios em quadras, estádios, piscinas, no mar e nas ruas, foi a possibilidade de acompanhar modalidades tão díspares quanto badminton e rúgbi de sete, levantamento de peso e nado sincronizado; tiro com arco e triatlo. O brasileiro vibrou com provas de canoagem, como se fosse o esporte mais popular nestas bandas. Lotou arenas para ver moças e rapazes em movimentos graciosos e perfeitos na ginástica, como se fosse o programa mais corriqueiro dos finais de semana. Famílias invadiram o Parque Olímpico, na Barra, para seguir de perto proezas da natação, e foram ao Engenhão ver Bolt e outras estrelas de primeira grandeza a desfilarem arte e técnica no atletismo.

As emissoras de televisão dedicam milhares de horas para mostrar tudo, com explicações de especialistas e um certo ufanismo, que ninguém é de ferro. Os jornais nos brindam com suplementos especiais, os portais de internet colocam em segundo plano as lambanças da política doméstica para realçarem os pódios do dia. Respiramos esporte como nunca.

A partir da segunda-feira, volta-se ao normal. Entendam-se por “normal” as poucas páginas de esportes, e dedicadas praticamente ao futebol (e isso se aplica também à maior parte de programas de TV, rádio, noticiário de internet). Não por desleixo de editores – sei do desejo de muitos jornalistas de que houvesse pluralidade nos temas da área. Seria mais gratificante a rotina das coberturas.

Mas o público, o mesmo que agora se emociona com medalhas no judô, que se descabela com os tira-teimas no vôlei, chia, se não encontrar notícias do joguinho de bola, que retornará soberano, como sempre. Fora uma pitada de tênis, NBA e Fórmula 1. Grande parte dos protagonistas patrícios destes 18 dias de maratona esportiva voltará ao cotidiano de semiclandestinidade das respectivas atividades. Não importa quantas medalhas conquistar, o Brasil continuará longe de ser poliesportivo. Pena.

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