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Rebeca Andrade conquistou um ouro e uma prata nos Jogos de Tóquio Lisi Niesner/ Reuters

'Estadão' convida três escritores brasileiros para escrever sobre Rebeca Andrade

Confira textos de Itamar Vieira Junior, Tatiana Salem Levy e Marcelo Moutinho sobre a ginasta que brilhou nos Jogos Olímpicos de Tóquio e o que tudo isso representa para o Brasil

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2021 | 05h01

O feito de Rebeca Andrade nos Jogos Olímpicos de Tóquio encantou o Brasil. Não foi a única, mas conhecer sua história e descobrir os caminhos de uma ginasta até o pódio mexeu com muita gente desta vez. A ginástica artística talvez nunca teve tanta audiências em todas as plataformas, da tradicional TV, passando pelos sites e redes sociais. O Brasil parou para ver sua atleta em saltos precisos, perigosos e plásticos. A modalidade ainda despertou interesse pela ausência da grande estrela americana Simone Biles, que desistiu da maioria das provas porque não se sentiu segura. Corpo e mente não estavam sincronizados. Sua ausência nas disputas acabou dando mais visibilidade para a brasileira. 

Em tempos de pandemia e de muita tristeza no Brasil, os saltos e sorrisos desta menina nos alegraram, nos uniram de alguma forma e nos fizeram brasileiros de novo, ou nos devolveu esse sentimento. Com sua graça e leveza, Rebeca foi escolhida para carregar a bandeira do país na cerimônia de encerramento dos Jogos em que brilhou. Será domingo de manhã no horário brasileiro. Foram duas medalhas, ouro e prata, para uma modalidade que ainda não tinha nenhuma. Ganhar é bom, mas o que Rebeca nos deu foi mais do que isso. Ela nos ofereceu esperança. Ver seus olhos brilhar nos motivou.

De modo que O Estadão pediu para três escritores brasileiros, cada um em um lugar físico do País e um deles em Portugal, e com experiências diversas, que se debruçassem sobre as façanhas de Rebeca e oferecessem aos leitores breves crônicas sobre a participação da menina na Olimpíada de Tóquio e o que suas piruetas representam para o Brasil nesse momento, tendo como suporte sua trajetória de atleta e de vida.

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Rebeca é o país que queremos

Itamar Vieira Junior é escritor e autor do livro 'Torto Arado' e de contos, como 'Doramar ou a odisseia'

Itamar Vieira Junior, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2021 | 05h00

Certa vez ouvi a escritora Conceição Evaristo dizer que escreve porque não sabe dançar. Estávamos numa mesa virtual falando sobre literatura e ela concluiu dizendo uma frase que recrio aqui com a devida licença poética: "Quando dançamos, o movimento do corpo é capaz de comunicar tudo o que é importante com beleza e liberdade."

Recordei de suas palavras nestes dias. Por algumas breves horas tenho deixado de lado as notícias pessimistas sobre a pandemia e a política nacional, acompanhantes destes meses infindáveis, para olhar com esperança a jornada de nossos jovens atletas do outro lado do mundo. Dentre todos os que participaram com os mais belos ideais do chamado "espírito olímpico", levando o corpo, a concentração e os mais insondáveis desafios aos limites do humano, destacaram-se nas minhas manhãs a força e a graça dos movimentos de Rebeca.

Rebeca Andrade já era conhecida do público que acompanha a ginástica artística pelos feitos que vem acumulando desde os 13 anos. Mas eu, como um bom desatento ao mundo que pulsa vivo à minha volta, só vim descobri-la nessas manhãs. O magnetismo de sua apresentação de solo ao som do funk “Baile da Favela” foi capaz de agitar meus pensamentos, por tudo aquilo que o esporte pode representar, e também porque o corpo de Rebeca carrega a trágica história de um país. As dificuldades enfrentadas desde 1500 pelas pessoas negras e periféricas se repetiram em sua vida, ainda que nascida no alvorecer de um novo século, um novo tempo. Um tempo que aponta para nossa sociedade com “muito por fazer”: com muitas barreiras a serem removidas - e não ultrapassadas -, com muitas redes de proteção que garantam oportunidades aos jovens de nossas periferias, com muita vontade de transpor de fato as destinações que nos foram dadas no passado e pelo passado - isso mesmo! - que se ilumina à nossa frente, como diria Millôr Fernandes, para ser definitivamente superado.

Ver os movimentos precisos de Rebeca adentrar as casas e as manchetes da imprensa inspirando a realidade de inúmeros jovens é um imenso conforto.

Nestes dias de pessimismo generalizado, quando nos perguntamos se faz sentido fazer parte dessa comunidade imaginária que é nosso país, forjado também na violência histórica e na nostalgia da elite política “casa grande e da senzala” que ocupa os palácios, é preciso agarrar os fiapos de esperança que, com atenção, conseguiremos encontrar. Ver seu corpo girando preciso através do ar, desafiando a gravidade e aterrissando em pé é uma excelente metáfora do futuro que nos espera. Queremos girar, dançar, ser livres ao som do funk e ainda assim poder permanecer de pé. Porque Rebeca é o futuro de nossos ancestrais, é o sonho de dona Rosa dos Santos, sua mãe, de seus avós e irmãos. Sua força nos atravessa dizendo que cada jovem de nossa periferia guarda a potência de um sonho, e cabe a cada um de nós envolvê-los, irmanados e solidários, para garantir a possibilidade de realizá-los.

O pensamento visionário de Milton Santos nos indicou que o futuro seria marcado por um “período popular da história.”

Em linhas gerais, esse período é caracterizado pelas redes solidárias nascidas das camadas mais desfavorecidas da humanidade em contraposição à tirania do dinheiro. Rebeca é cria da periferia e assim deve ser lembrada. As periferias do Brasil são um mundo de potência criativa e por isso devem ser protegidas. Aos poucos e arduamente seremos capazes de aprender.

Cumprindo a analogia da Conceição Evaristo entre o movimento do corpo e a escrita, Rebeca, com sua performance encantatória, escreveu mais um capítulo da história do Brasil. Mais um capítulo onde nos reconhecemos inteiros por revelar o país de beleza e liberdade que queremos.

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Outra vez, mãe

Tatiana Salem Levy é escritora e autora de 'A Chave de Casa' e 'O Mundo não vai acabar', entre outra obras

Tatiana Salem Levy, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2021 | 05h00

Olimpíadas, pra mim, sempre foram sinônimo de ginástica olímpica - que agora se chama artística, eu sei. A mudança do termo a torna mais humana, o que ela de fato é, como mostrou com tanta coragem Simone Biles em Tóquio. Mas, pra mim, sempre foi coisa dos deuses, ou melhor, das deusas, desde quando eu era criança e chegava mais cedo à aula de natação só pra ficar assistindo às meninas da ginástica olímpica, sonhando em ser como elas, lamentando a minha incapacidade de ser como elas, mas viajando através delas. Guardo até hoje o mesmo espanto pueril cada vez que vejo um desses corpos dando piruetas no ar.

Quando, em Tóquio, Rebeca Andrade fez sua apresentação anterior à da medalha de prata, chamei meu filho, de 5 anos, para assistir comigo: “Uau! Uau! Uau!” Ele exclamava sem parar, e juntava à sua exclamação uma pergunta: “Mãe, você consegue fazer isso?” Afinal, para crianças dessa idade, mães são semideusas, por isso deveriam saber fazer o que Rebeca Andrade faz.

Junto com a decepção, veio também a cumplicidade: assistiríamos às provas de Rebeca juntos. Torceríamos por ela juntos. Mas, primeiro, dou a ele, que nasceu e sempre viveu em Lisboa, um pouco de explicação sobre quem ela é. Procuro sempre lhe contar um pouco do Brasil no qual acredito, o Brasil forte e alegre, que, este sim, me faria levá-lo som sua irmã e seu pai para que ele crescesse lá. Nada a ver com o Brasil fascista e racista que está no governo. Para que toda vez que ele grite “Fora Bolsonaro” saiba que está gritando “Viva Rebeca, sua mãe Rosa, sua antecessora Daiane!”

Confesso que tenho uma dificuldade enorme quando meus filhos pedem para eu repetir uma história, reler um livro que acabei de fechar. Mas ainda bem que há internet e a gente pôde ver dezenas de vezes seguidas a apresentação de Rebeca, ao som de “Baile de favela”, nossos corpos acompanhando do jeito que dava a sua graça. Nunca um “outra vez, mamãe” tinha caído tão bem (quando cansou e foi brincar com seus piões, que agora também têm outro nome, continuei a dar replay).

No dia do ouro, tivemos a sorte do horário conspirar a nosso favor: já eram mais de nove da manhã em Portugal, a casa toda acordada. “Vamos, filho, ver mais um salto da Rebeca.” “Ela vai ganhar medalha, mãe?” “Nunca se sabe, mas o importante mesmo é saltar.” Mudei uma palavra só para não me sentir velha demais, me perguntando por que a gente sempre repete o que diziam as nossas avós.

E, no entanto, depois dos saltos, depois da reluzente medalha de ouro que fez meu filho dar os seus saltos particulares e encheu de lágrima tantos rostos brasileiros, Rebeca Andrade ainda nos mostrou, com suas sábias palavras, que seu corpo fala por ela, mas também pela sua mãe, sua avó e todas as mulheres negras, descendentes de escravizados, ou elas próprias escravizadas, oprimidas nesta terra que tanto as exclui.

Só tem uma coisa que sempre lamentei na ginástica olímpica: a brevidade. Enquanto um jogo de vôlei pode durar três horas, uma apresentação de ginástica nunca dura mais do que aquele minutinho. Uma vida inteira de dedicação para aperfeiçoar o corpo, para torná-lo capaz dos saltos mais belos e, pum, tudo tão rápido.

Penso na história do pintor chinês, contada por Calvino nas suas propostas para este milênio: depois de exigir dez anos para desenhar um caranguejo para o imperador, ele pega um pedaço de papel, um lápis e, em alguns minutos, faz o caranguejo mais perfeito do mundo. Os saltos de Rebeca são esse caranguejo. Parece que nasceram prontos, perfeitos, olímpicos - mas só existem porque antes deles existiram os anos, muito humanos, de trabalho, a que podemos chamar de artísticos. Mas são também a graça e a leveza do corpo que, além de saltar, dança - herança, inscrita no seu corpo, das mulheres que vieram antes dela; herança que ela certamente deixará para as meninas e os meninos que em 2021 vibraram com a sua vitória.

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Com seu baile de favela, Rebeca ginga frente ao destino e redesenha o futuro

Marcelo Moutinho é escritor e jornalista; autor de 'A lua na caixa d’água', 'Rua de dentro' e 'Ferrugem', entre outros livros

Marcelo Moutinho, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2021 | 05h00

Era dia da aula aberta sobre “Dom Casmurro”, a principal da agenda do pré-vestibular comunitário naquele ano de 2018. O romance de Machado de Assis fora escolhido como tema da prova de redação no concurso que poderia viabilizar o sonhado ingresso na Universidade Estadual do Rio. Responsáveis pela atividade, estávamos preocupados. A Polícia logo cedo invadira o Complexo da Maré na captura de um chefão do tráfico e o clima tenso tornava plausível a chance de a aula simplesmente não acontecer.

O Complexo fica às margens da Avenida Brasil, maior via expressa do Rio de Janeiro, e reúne 16 favelas. Cerca de 140 mil pessoas moram lá. Após falar com as coordenadoras do curso, tive a confirmação: tudo OK para o evento. Então comuniquei à professora convidada. Ela jamais havia pisado numa favela e se mostrava muito apreensiva.

Entramos juntos pela rua que dá acesso ao auditório. A Polícia àquela altura já batera em retirada e a presença do tráfico não buscava subterfúgios. Armas pesadas, walkie-talkies, olhares desconfiados. Ao lado da professora, caminhei até  o local da aula, tentando conversar com ela, deixá-la tranquila. Mas eu próprio, embora mais cascudo, estava aflito.

Na entrada do galpão, pudemos ouvir a música vinda de dentro. Um tema clássico. Em poucos segundos, constataríamos que o som embalava o treino de balé de 20 ou 30 meninas. Todas pretas. Alheias ao cenário externo, elas bamboleavam. Felizes. Apesar da falta de grana e de amparo do poder público, apesar da opressão da Polícia, do tráfico ou da milícia. Apesar de.

A cena, que já descrevi numa crônica, me volta à mente enquanto assisto ao voo de Rebeca Andrade sobre o tablado. A ginasta dá um pique, emenda com o flic-flac, dois mortais, cai de pé. Ela já tem duas medalhas olímpicas na bagagem - uma de ouro, outra de prata -, quando disputa a final do solo em Tóquio. A terceira não vem, o passo errado lhe tira preciosos centésimos, e no entanto a imagem na lembrança possivelmente será a do corpo a deslizar, requebrar, encantar, sob um ritmo proscrito.

É baile de favela, sim. Rebeca nasceu em Vila Fátima, periferia de Guarulhos (SP). Filha de Dona Rosa Santos - uma empregada doméstica que, além dela, criou outros seis -, experimentou na infância a realidade de tantas crianças brasileiras. Mais de cinco milhões entre nós têm apenas o registro da mãe na certidão de nascimento, informa o Censo Escolar do Conselho Nacional de Justiça (2013). A atleta conhece o pai, mas ele nunca se fez presente em sua vida. É um nome num documento.

Assim como as bailarinas da Maré, foi graças a um projeto social que Rebeca conheceu o ofício no qual hoje brilha. Com apenas quatro anos, chegou ao Programa de Iniciação Esportiva, mantido pela prefeitura de sua cidade, onde logo ganharia o apelido de "Daianinha de Guarulhos". Nem sempre havia dinheiro para o transporte até o centro de treinamento. Se a grana faltava, cumpria o percurso a pé. Duas horas de jornada.

As coisas melhoraram a partir de 2012, quando assinou contrato com o  Flamengo. A luta passou a ser outra: contra as contusões. Arrebentou o joelho, esteve por três vezes numa mesa de cirurgia, ficou fora de competições importantes, pensou em desistir. Quem nunca?

Na mesma segunda-feira em que Rebeca alcançou o quinto lugar no solo, Vitória Rosa, do atletismo, lamentava a eliminação na prova de 200m rasos. “Perdi patrocínio, tive o salário reduzido, mas a gente está aqui pra tentar”, disse. Rebeca e Vitória são faces complementares. No júbilo e também na derrota, está um país que cogita falar em meritocracia sem sequer ter resolvido o passivo da escravidão.

O historiador Luiz Antonio Simas costuma afirmar que o Brasil deu certo. Que o plano era exatamente ser desigual, racista, misógino, homofóbico. Contudo, há meninas fazendo seus pliés e jetés na favela. Há Rebeca Andrade dançando funk no Japão. Com obstinação e habilidade, elas gingam frente ao destino, driblam o traçado, rabiscam o roteiro - e, nesse movimento, sugerem que o desenho do futuro pode ser diferente.

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