Estádios dos Jogos Olímpicos de Atenas viram campos de refugiados

Instalações do Complexo de Helliniko agora abrigam sírios e afegãos em barracões construídos pela ONU

Jamil Chade - enviado especial / Atenas, O Estado de S. Paulo

27 Fevereiro 2017 | 07h00

Inutilizadas desde 2004, algumas das instalações erguidas para os Jogos Olímpicos de Atenas finalmente conseguiram servir para algo: foram transformadas em campos de refugiados, acumulando em um só local tanto o fim do sonho olímpico quanto o de muitos estrangeiros, presos sem poder continuar viagem às grandes capitais da Europa. 

Erguido por 88 milhões de euros (R$ 288,6 milhões pelo câmbio atual), o complexo de Helliniko é um dos símbolos mais marcantes do fracasso de um legado. Hoje, é ironicamente o campo de refugiados mais caro do mundo. Ali, foram disputadas as provas de hóquei sobre grama, canoagem, softbol e de outras modalidades. Para cada um deles, uma estrutura permanente foi erguida, mesmo para esportes que não existiam sequer nem na Grécia Antiga nem na moderna. 

Por anos, ninguém se interessou pela área. Em 2014, dez anos depois dos Jogos de Atenas, a empresa Lamda Development ganhou o direito de investir na região e de aproveitar, sobretudo, o terreno do antigo aeroporto internacional, na mesma região. A promessa da companhia era de construir casas de luxo e criar um novo bairro, praticamente à beira-mar. Mas, três anos depois e diante da crise econômica que fez o PIB grego encolher em 20%, nada foi feito. 

Desde o ano passado, as casas para a elite grega foram substituídas por barracões erguidos pela ONU. Dentro, nenhum membro da família Onassis ou qualquer outra fortuna local. Os campos passaram a ser ocupados por refugiados sírios e afegãos que, hoje, estão bloqueados na Grécia e não podem ir para os destinos que optaram na Alemanha, países escandinavos ou Reino Unido. 

Em 2015, mais de 1 milhão de refugiados passaram pela Grécia, a caminho dos países do norte da Europa. Pisar em Atenas era um sinal de que o périplo entre a Síria e a Europa estava dando certo. Tudo mudaria em 2016 quando a Europa fechou a rota de refugiados. Muros foram erguidos na Hungria, Croácia e Bulgária. Para 60 mil deles que ainda estavam na Grécia, o sonho havia sido interrompido. 

Ao Estado, a ONU indicou que o acordo era de que os governos europeus levariam, pouco à pouco, os refugiados para outros países do bloco. Mas essas promessas nunca foram integralmente cumpridas. 

Oficialmente, os estádios olímpicos que servem de abrigo estão vedados para visitação. Mas, na chancela que controla o acesso, não havia nenhum policial quando a reportagem visitou o complexo. Logo na entrada do terreno, uma placa é um testamento do desperdício. Nela, o ministério de Obras Públicas informa que a construção estava orçada em "88.000.000 de euros". A informação é completada em inglês e em grego: "Esse projeto é financiado com dinheiro público". 

Em esplanadas que outrora estiveram repletas de lojas de apetrechos olímpicos e com cartazes de multinacionais, agora são refugiados e corvos que vagam pelo local. As áreas VIPs dos estádios de Atenas e as salas de transmissão de TV viraram quartos para dezenas de pessoas barradas de entrar no restante da UE. Nas arquibancadas, os gritos das torcidas foram substituídos por silêncio sentido. Há uma semana, os refugiados tentaram atacar um representante do governo grego que ousou aparecer por lá. 

Nos campos, traves servem de varais para secar roupa. Atras de um dos bancos de reserva, uma mulher com um balde se agacha para lavar as peças de seus filhos, em meio ao lixo. Um campo de hóquei sobre grama passou a ser o playground de três crianças afegãs, que dificilmente imaginam a festa que aquele lugar recebeu em 2004. 

Num estádio ao lado, usado para o softbol, o mato tomou conta, tornando irreconhecível o campo. Desde o fim dos Jogos, o local não é usado para práticas esportivas. E provavelmente nunca será, já que os planos da empreiteira que comprou a área é de derrubar tudo. 

Ao lado, o governo decidiu usar o gramado de outro estádio para erguer as barracas com os símbolos da ONU e que servem de casa para os refugiados.

O campo é, no fundo, uma verdadeira parábola de uma crise humanitária que tenta ser ignorada: no terreno, vidas afetadas por tragédias e sem futuro. Diante delas, uma arquibancada vazia. Sobre suas cabeças, um placar destruído que parece deixar claro o resultado do legado de Atenas: todos perderam.

 

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