Fabio Motta/Estadão
Enquanto COI intensifica luta contra o doping, Brasil patina mesmo com labotório remodelado Fabio Motta/Estadão

Estagnado, Brasil fica na contramão na luta contra o doping

Descredenciamento da ABCD compromete a realização de exames e confederações procuram alternativas

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

06 de março de 2017 | 06h00

Enquanto o Comitê Olímpico Internacional (COI), em conjunto com a Agência Mundial Antidoping (Wada, na sigla em inglês), intensifica a vigilância sobre o uso de substâncias proibidas no esporte, o Brasil enfrenta um momento de estagnação. Desde 20 de novembro de 2016, a Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD) está impedida de atuar por ter sido declarada em não conformidade com o Código Mundial Antidoping. Apesar do anúncio do descredenciamento apenas três meses depois dos Jogos Olímpicos do Rio, o secretário Rogério Sampaio nega que a imagem do País esteja arranhada.

A expectativa é de que até o fim do mês a situação esteja resolvida. "Nós não temos prazo, mas nesse mês de março há uma reunião da Wada em Lausanne, na Suíça, e espero que até lá a gente esteja em conformidade. É extremamente importante que a gente possa fazer o controle de dopagem", afirma o secretário.

Em 2017, a ABCD projeta a realização de 4.200 exames antidoping e promete um número crescente nos próximos anos. "A tendência é ter um aumento de testes conforme se aproximam os Jogos Olímpicos de 2020. À medida que são definidos os representantes, você vai aumentando o número de testes também fora de competição", diz Sampaio. Daqui quatro anos, a entidade prevê concretizar entre 5.500 e 6 mil exames de controle de dopagem.

Mas a realidade ainda está bem longe dessas estatísticas. Boa parte das confederações olímpicas tem aguardado a ABCD voltar a ficar em conformidade com o Código Mundial Antidoping. É o caso, por exemplo, da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA). "O calendário da Confederação ainda não começou, logo, não existem exames em competições. A Fina realiza regularmente controles out of competition (fora de competição) nos atletas ranqueados entre os 50 melhores do mundo. O Brasil tem vários. Desta forma, os principais nadadores não estão descobertos", justifica, por meio de sua assessoria de imprensa.

A Confederação Brasileira de Judô (CBJ) também aguarda o desfecho do processo de recredenciamento e reconhece que os últimos testes foram conduzidos pela ABCD, mas já pensa em um uma alternativa. "O Plano Anual de Controle de Dopagem da CBJ prevê que os primeiros testes em competição sejam feitos em maio. Caso não seja possível realizá-los em parceria com a ABCD, a CBJ se valerá do sistema utilizado até 2015: contratará empresa para realizar as coletas e enviar as amostras para laboratório credenciado pela Wada."

Durante o período em que a ABCD está inapta de atuar, as confederações podem contratar os serviços de uma empresa de coleta particular e requisitar às respectivas federações internacionais que exerçam a função de "autoridade de teste". Mas a dificuldade financeira seria o entrave para tal medida.

A decisão tomada pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) foi criar, em janeiro, a Comissão Nacional Médica de Voleibol. "A CONMED trabalha em parceria com a Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD), responsável legal pelo controle de dopagem em todo o território nacional, e tem a expectativa de controle de dopagem em 80 eventos seus ainda no primeiro semestre, entre Superliga e circuitos de vôlei de praia."

Já a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) recorreu a um antigo parceiro. Criada em 2005, a Comissão Antidopagem da CBAt (Conad) vinha atuando apenas como um órgão consultivo desde que a ABCD assumiu o controle antidoping do País. Diante da lacuna aberta em novembro, a Conad – sob fiscalização da Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF, na sigla em inglês) – retomou o trabalho. Até agora, foram realizados 50 exames – 28 brasileiros e 22 estrangeiros – e todas as amostras foram encaminhadas para testes no Laboratório Brasileiro de Controle de Dopagem (LBCD), no Rio. 

"Nosso planejamento é fazer mais de 800 testes durante o ano, mas agora estamos atuando de forma limitada, até mesmo por questão orçamentária. A CBAt está fazendo o máximo que pode para o atletismo não ficar sem controle antidopagem", explica o presidente Thomaz Mattos de Paiva. E complementa: "Quando a ABCD voltar à carga, trabalharemos em sinergia para a melhora do controle".

PARA ENTENDER:

PRESSÃO

Em 2015, a Wada colocou o Brasil em uma “lista de observação” e exigiu a criação de tribunal único e independente para julgar casos de doping.

MUDANÇA

A suspensão provisória do LBCD determinou a substituição de Marco Aurelio Klein por Rogério Sampaio como secretário nacional da ABCD.

NOVAS FALHAS

Após ameaças, a Wada anunciou em 2016 que o País não estava em conformidade com o Código Mundial Antidoping e descredenciou a ABCD.

EXIGÊNCIA

O Brasil enviou o regimento interno da Justiça Desportiva Antidopagem (JAD) para análise da Wada e aguarda o recredenciamento da ABCD.

 

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Laboratório brasileiro sente efeitos da suspensão da ABCD

LBCD não consegue ter preço competitivo e perde clientes; a CBF, por exemplo, faz exames na Suíça e nos EUA

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

06 de março de 2017 | 06h00

O Laboratório Brasileiro de Controle de Dopagem (LBCD) tem sentido o efeito negativo da suspensão da Autoridade Brasileira de Controle de Doping (ABCD) estabelecida pela Agência Mundial Antidoping (Wada). Sem o órgão ligado ao Ministério do Esporte, o laboratório – construído ao custo de R$ 188 milhões e ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) – perdeu o seu segundo maior cliente em potencial e encontra-se subutilizado, sofrendo para se sustentar desde o fim dos Jogos Olímpicos. 

"Retirando-se vários custos periféricos, a quantidade mínima de análises para manter o laboratório seria de 16 mil amostras/ano", explica o professor Francisco Radler, diretor do LBCD. "O custo de manutenção dos equipamentos, compra dos insumos e pequena parcela da força de trabalho precisaria ser, aos preços atuais, de aproximadamente R$ 940 por amostra de urina (análise de umas 600 substâncias por quatro métodos diferentes)".

Enquanto o LBCD tenta trabalhar com os números mínimos e com recursos do governo federal para continuar funcionando, alguns laboratórios internacionais fazem de 35 a 45 mil análises por ano e, com a alta demanda, são capazes de oferecer preços mais atrativos. É o caso do UCLA Olympic Analytical Laboratory, de Los Angeles, que tem a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) entre os seus clientes.

O futebol brasileiro testa 6.500 amostras por temporada – 1.500 são enviadas ao laboratório de Lausanne, na Suíça, e as demais transportadas aos Estados Unidos. A cada 15 dias, um médico da equipe leva o material até o laboratório americano, ao custo de US$ 130 (R$ 405 na cotação atual) por amostra no perfil exigido pela Wada para a modalidade, com o acréscimo do valor de passagem aérea e hospedagem para uma pessoa. Na Europa, o preço é de 145 francos suíços (R$ 448).

"O custo do nosso laboratório sempre será maior que o custo do laboratório estrangeiro. Mas não posso trabalhar com números tão diferentes", diz Fernando Solera, presidente da comissão de controle antidoping da CBF. Segundo ele, a diferença de custo chegaria a R$ 1,8 milhão caso o futebol brasileiro optasse pelo LBCD hoje.

A negociação está em andamento desde o ano passado e, na última reunião entre Radler e Solera, na semana passada, alguns avanços foram feitos. Com o descredenciamento do laboratório colombiano desde 20 de fevereiro, o dirigente da CBF vê um caminho aberto para que todas as análises da América do Sul sejam levadas para o LBCD. Com o aumento do volume de testes, a proposta do laboratório brasileiro chega a R$ 616 por amostra. 

"Essa diferença eu consigo administrar porque tem o preço da passagem, da viagem e do desgaste físico do médico que viaja com o material. Em uma reunião de diretoria, eu consigo mostrar que o laboratório brasileiro pode ser utilizado pela CBF", diz Solera. O encontro da cúpula da entidade deve ocorrer nesta semana, no Rio. "Tudo agora é uma questão do departamento financeiro da CBF colocar no papel e entender que vale a pena apostar no laboratório brasileiro", acrescenta.

Já Radler aguarda a definição dos clientes para que o LBCD possa aumentar o fluxo de trabalho e se consolidar como um laboratório de referência. "A proposta do LBCD encontra-se com a CBF e a ABCD para avaliação. A Wada e seu escritório regional têm insistido para que o LBCD absorva as amostras da América do Sul e mesmo Central. Isso depende apenas de um acerto do preço a ser pago. Confio que ABCD e CBF chegarão a um consenso que permitirá ao governo federal, por meio do Ministério do Esporte, manter o LBCD funcionando."

 

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