Yasuyoshi Chiba/AFP
Yasuyoshi Chiba/AFP

'Estamos brigando pelo Top 10', garante diretor executivo do COB

Marcus Vinícius Freire calcula que Brasil precisa de ao menos 25 medalhas na Olimpíada

Entrevista com

Marcus Vinícius Freire, Diretor executivo de Esportes do COB

Marcio Dolzan, Rio de Janeiro, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2016 | 17h00

Em menos de duas semanas, todo o planejamento do Comitê Olímpico do Brasil (COB) traçado assim que o Rio foi confirmado como cidade-sede da Olimpíada, em 2009, começará a ser posto à prova. A meta estabelecida há sete anos e tornada pública em 2014 é que o País termine os Jogos do Rio-2016 como Top 10 no número total de pódios. Para isso, os 465 atletas inscritos pelo Time Brasil – número 68% superior ao recorde anterior, dos Jogos de Pequim-2008 – terão que conseguir pelo menos 25 medalhas, oito a mais do que na última Olimpíada.

Diretor executivo de Esportes do COB e um dos artífices de todo esse projeto, Marcus Vinícius Freire está otimista. Integrante da chamada Geração de Prata do vôlei brasileiro, em alusão à medalha conquistada nos Jogos de Los Angeles-1984, ele tem repetido que todo o planejamento foi bem executado e que ficar pelo menos na décima posição é uma possibilidade real. Ajudou muito o fato de o Brasil ter inscrito pelo menos 65 atletas a mais do que se imaginava – um número que, ele próprio reconhece, não irá se repetir nas próximas edições.

O dirigente aposta ainda que toda a população torcerá junto, inclusive os críticos da realização dos Jogos no Rio de Janeiro. “Pode até acontecer o contrário: a população perceber que esses 465 caras são o Brasil que dá muito certo, e apoiar com mais força ainda, com a força de 200 milhões de brasileiros”, diz.

A seguir, os principais trechos da entrevista ao Estado

Com a definição na última semana de que 465 atletas estarão na delegação brasileira nos Jogos Rio-2016, o Time Brasil alcançou sua meta de participação na Olimpíada?

Passou da meta. Nós tínhamos imaginado no máximo 400 atletas, e acabamos classificando mais do que tínhamos medido lá em 2012.

O número inchou e ultrapassou muito o recorde de Pequim-2008, quando 277 atletas se classificaram, muito pelo fato de o Brasil agora competir em casa...

Eu diria que foram duas coisas. A primeira, lógico, competir em casa, porque em alguns esportes não conseguiríamos nos classificar. Mas a segunda coisa é a evolução do esporte brasileiro, que facilitou a classificação de muitos atletas.

Não é um número enganoso?

É um número que não vai se repetir em Tóquio-2020, especialmente pelos esportes que estão engatinhando ainda no Brasil. Mas é um número que mostra a evolução brasileira.

O COB sempre trabalhou com a meta de ser Top 10 no número total de medalhas. Qual o número previsto?

O que a gente usou de referência em 2009, quando a gente traçou a meta de Top 10, foi o que tinha acontecido em Beijing (e depois) em Londres, de 27, 28 medalhas. A tendência, nos últimos quatro anos, baseado até em levantamentos de quem conhece o esporte, é de que pode acontecer Top 10 com um número menor de medalhas. A gente não mexeu na nossa meta, mas existe a possibilidade de conseguirmos isso com 24, 25 medalhas. Estamos brigando pelo Top 10 em disputa direta com Ucrânia, Itália, Coreia (do Sul), Holanda, Hungria, além de Espanha e Cuba.

Para alcançar o Top 10, vocês contam com pódios em esportes que podem surpreender...

É, mas que surpreenda a população, não a nós. Alguns exemplos: levantamento de peso, as lutas associadas e tiro com arco. São modalidades que a população conhece pouco, mas que a gente pode realmente mostrar resultado.

Por que a opção por ter bases de treinamento em instalações das Forças Armadas?

É uma parceria antiga. Eu treino aqui (Escola de Educação Física do Exército, na Urca) há 30 anos, é a base do vôlei há muito tempo. As Forças Armadas facilitam a gente com a questão da segurança e pelas instalações. Os dois agentes que mais têm instalações esportivas no Brasil são o Sistema S (Sesc, Senai, Senac e Sesi) e as Forças Armadas. Os dois são parceiros.

Há o receio de que o atleta perca um pouco do foco em função de os Jogos serem em casa?

Haveria se não tivéssemos nos preparado para isso. Fizemos uma preparação de quatro anos com um programa chamado “Vantagens e desvantagens de jogar em casa”. Juntamos um grupo de preparação mental, em função da pressão, etecetera, com mais de 30 profissionais. Criamos um board de treinadores, com treinadores que ganharam tudo, para que nos ensinassem e também ensinassem aos atletas qual é o caminho para ganhar. Também trouxemos os atletas pra dentro do COB, num programa que chamamos de Integração, para contar o que vai acontecer, o que pode ajudar e o que vai atrapalhar. Fizemos um trabalho também para as famílias, um aplicativo para as famílias, compramos ingressos para elas, abrimos um espaço ao lado da Vila para que o atleta, quando estiver disponível, vá lá e não a família invada a Vila e tenha confusão. Isso realmente deu uma tranquilizada e aumentou as vantagens de jogar em casa.

Como é esse aplicativo?

Eles (familiares) treinam num sisteminha como é a área de transporte, a chegada no aeroporto, como ele tira o ingresso. É como se fosse um livrinho de informações sobre a cidade e sobre os serviços que estamos oferecendo.

Qual é o maior ganho do COB com uma Olimpíada em casa?

É difícil dizer o maior, porque são vários. Para o Brasil inteiro, não só para o COB, a vitória em 2009 (do Rio como cidade-sede) já foi um legado maravilhoso. As pessoas passaram a ver o Brasil de uma forma diferente, o esporte brasileiro ganhou uma pujança e as pessoas passaram a vê-lo de forma diferente, com patrocinadores, com imprensa, com a população, que passou a conhecer as 42 modalidades. O público em geral conhecia 10 ou 12 modalidades, são 30 novas para quase 200 milhões de brasileiros. Depois, a formação de recursos humanos, o que eu acho fundamental. As pessoas falam pouco, mas formação de treinador, formação de gestor, formação de carreira de atletas, jornalistas mais especializados, pessoas de evento mais especializadas, isso mudou o Brasil. Claro que a gente precisa montar um novo mercado pra frente, mas as pessoas estão qualificadas para isso. As pessoas pensam sempre em legado na parte física, mas acho que vale muito mais a parte de recursos humanos. Não adianta ter a parte física se você não tem um professor lá preparado para dar aula, assim como não adianta ter um estádio se você não tem um gestor para fazê-lo funcionar.

Sabe-se da importância do investimento financeiro para o esporte de alto-rendimento, e ele teve um aumento considerável nos últimos anos pelo fato de a Olimpíada ser no Brasil. Existe o receio de uma queda drástica a partir do próximo ano?

A gente tem que aproveitar esses Jogos em casa, porque quem aproveitou, quem teve bom projeto, vai continuar sendo financiado. Ele (atleta) devolveu o que tinha para o patrocinador, para o governo, para as Forças (Armadas). Quem não aproveitou vai sofrer no pós-Jogos. O COB hoje tem vários apoiadores, e tem a credibilidade de que está usando o dinheiro no lugar certo. Tenho certeza que vai continuar sendo financiado.

A Rússia ficou fora dos Jogos em 1984 por opção própria, mas agora existe um movimento para que ela não participe dos Jogos do Rio. Como o COB avalia?

A gente não avaliou ainda, porque isso ainda depende de uma decisão do COI com a Wada. A gente só avaliou o que aconteceu com o atletismo, que neste momento está suspenso, e a gente achou que o que o Sebastian Coe (presidente da IAAF) fez foi o que deveria ter feito, em função das notícias e das ações que apareceram. Da nossa parte, a gente fez um estudo e não é grande vantagem pra gente essa saída dos russos, já que eles não disputam diretamente com a gente (para ficar no Top 10 de medalhas). Eles estão entre os oito primeiros e a gente briga entre o nono e o 18º.

A ausência da Rússia, uma potência olímpica, dos Jogos do Rio-2016 não seria uma frustração?

Seria como imaginar que nossa medalha (Marcus Vinícius fez parte da Geração de Prata, em 1984) em Los Angeles não tivesse valor. Acho que sim, a ausência de Rússia e Polônia em 1984 pode ter feito com que outras pessoas tivessem medalhas, mas de forma nenhuma (isso frustra). Na história acaba ficando (quem ganhou). Eu brinco que, há 30 e tantos anos, a primeira linha do meu currículo não fala em economia, em máster, em marketing, em nada. Ela fala que eu sou medalhista olímpico. Ninguém é medalhista olímpico “vírgula, a Rússia e a Polônia não foram”. Pra história vai ficar sempre quem ganhar.

Existe uma insatisfação, em parte da população, com a realização dos Jogos no Rio. O COB teme que isso também se volte contra os atletas?

Não, não temos sentido isso. Muito pelo contrário, temos sentido um apoio gigante. Acho que cada vez isso vai crescer mais. Pode até acontecer o contrário: a população perceber que esses 465 caras são o Brasil que dá muito certo, e apoiar com mais força ainda, com a força de 200 milhões de brasileiros. 

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