AFP Photo/ Philippe Lopez
AFP Photo/ Philippe Lopez

Esvaziado politicamente, encerramento tem vaia a Paes e show de premier japonês

Para evitar reação do público, organização colocou políticos em segundo plano

Jamil Chade, enviado especial ao Rio, Leonêncio Nossa e Luciana Leal Nunes, Estadão Conteúdo

21 Agosto 2016 | 23h19

A cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos, na noite deste domingo, viu políticos brasileiros sendo colocados em segundo plano pelos organizadores para evitar vaias. Mas viu um show do chefe de governo do Japão, que assumiu o papel de um personagem.  Michel Temer, presidente interino, não foi ao Maracanã, e as vaias acabaram ficando todas com Eduardo Paes, prefeito do Rio.

Como manda o protoloco, o político carioca foi obrigado a estar no pódio para passar a bandeira olímpica para Tóquio. Paes havia sido amplamente elogiado por Thomas Bach, presidente do COI, que o classificou de "grande líder". Mas, no Maracanã, o prefeito carioca foi alvo de vaias em quatro ocasiões. 

Assim como havia ocorrido na abertura, o COI e a Rio-2016 tentaram, ao máximo, evitar a exposição de políticos. Ao iniciar o evento, apenas Bach foi anunciado ao público, que o aplaudiu. Ao seu lado estava Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados e representante do governo Temer, que permaneceu sentado.

SAMBA

Os politicos brasileiros apenas se levantaram ao final do evento, quando o samba tomou conta do Maracanã. Com o dedo indicador para cima, a cúpula millitar e ministros como Alexandre de Moraes (Justiça) e Raul Jungmann (Defesa) dançavam e se abraçavam, enquanto confete caía e os auto-falantes tocavam "me dá dinheiro aí" e outros enredos. 

Quem não evitou o público foi o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe. Ao apresentar Tóquio ao mundo, os organizadores fizeram o personagem Super Mario viajar virtualmente do Japão ao Rio, por um encanamento, passando pelo meio do planeta. Do outro lado, no Maracanã, quem assumiu o papel do personagem foi Abe, sobre um tubo gigante e aplaudido pelo público.  Sua chegada simbolizava o Japão como sede dos próximos Jogos.

Esvaziado na arquibancada e nos camarotes políticos, a festa de encerramento contou com apenas oito chefes de estado ou de governo, dos quais pelo menos três eram membros do COI e obrigados a estar na festa. 

Temer apenas mandou uma carta ao japonês Abe, entregue pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ). A ausência de Temer causou constrangimento entre o governo e a comitiva japonesa, porque havia a expectativa de um encontro bilateral com o presidente.

O governo brasileiro ofereceu ao primeiro-ministro japonês a opção de descer em Brasília, para uma reunião com Temer, antes de seguir para o Rio. O governo japonês, no entanto, disse que não poderia aceitar o convite porque a programação de Abe já estava fechada e ele passaria apenas 18 horas no Brasil.

"Confio que poderemos encontrar-nos proximamente. Teremos sempre a beneficiar-nos do diálogo franco e aberto sobre nossa diversificada agenda bilateral e sobre temas globais de interesse comum", disse Temer, na carta.

Diferentemente da cerimônia de recepção aos chefes de Estado e de governo, antes da festa de abertura dos jogos, quando Temer recebeu 40 autoridades no Palácio do Itamaraty, no Centro do Rio, o coquetel deste domingo reuniu poucos líderes e que foram recebidos pelos ministros das Relações Exteriores, José Serra, do Esporte, Leonardo Picciani, e pelo presidente da Câmara. 

MILAGRE

Enquanto a classe política brasileira se escondia, o COI premiava cariocas e declarava que o Brasil havia "animado o mundo em tempos difíceis" Foi assim que o presidente do COI, Thomas Bach, fechou os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. "Foi um milagre", disse.  

A festa que marca o encerramento também abre um período de dúvidas sobre em pagará pelo evento, além de uma clara indicação de recursos públicos serão usados para bancar o déficit. O dinheiro representa uma quebra de um promessa de sete anos de que a Rio-2016 não usaria recursos do estado, em um momento de rombo fiscal, desemprego e recessão.

O COI, porém, optou por um tom positivo e repleto de agradecimentos. Na noite deste domingo, Bach declarou encerrado o evento no Brasil, num discurso que misturou gíria, frases em português e um reconhecimento aos esforços de todos, diante da crise enfrentada no País.  "Nós te amamos, brasileiros!", disse, em português. Num outro trecho, ele ainda soltou um "valeu, voluntários !" 

"Nos últimos 16 dias, um Brasil unido animou o mundo, em tempos difíceis para todos nós", disse, destacando "a irresistível alegria de viver". "Vocês tem razão de estarem orgulhosos", disse.  Num esforço de se distanciar de qualquer futura polêmica, Bach adotou uma estratégia de sedução. "Chegamos ao Brasil como convidados. Saímos com seus amigos", disse. "Vocês sempre terão um lugar em nossos corações", insistiu. "Estes foram Jogos Olímpicos maravilhosos, na cidade maravilhosa", declarou.

Bach voltou a insistir que haverá uma cidade do Rio "antes e depois dos Jogos" e que o evento será comentado por gerações. 

Num gesto também de agradecimento aos esforços dos cidadãos do Rio, Bach ainda anunciou que a Copa Olímpica, a maior medalha da instituição, vai para "os cariocas". Seis deles foram escolhidos para receber o prêmio em nome da cidade. Apesar do gesto, o mesmo já havia ocorrido em 2012 com os cidadãos de Londres, em Pequim, em 2008, e em 2004, em Atenas. 

NUZMAN

Chamando o evento como "grande vitória", o presidente da Rio-2016, Carlos Arthur Numan, insistiu que os Jogos provaram que o país tem a capacidade de fazer o maior evento do mundo. "O Rio se transformou e se modernizou. Ela é outra cidade. É uma cidade melhor", disse.  "Foram sete anos de muita luta e trabalho. Foi um grande desafio. Mas com sucesso. Todos os brasileiros são herois olímpicos", completou, num discurso que, à medida que se alongava, era vaiado.

Nuzman, que busca recursos públicos para cumprir seu evento, foi o último a deixar o camarote presidencial do evento, sambando até o último minuto.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.