AP
AP

Ex-viciado em metanfetamina leva a prata no Rio-2016

Saltador Luvo Manyonga ficou a 1 centímetro da medalha de ouro

Jose Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2016 | 05h00

O sul-africano Luvo Manyonga, 25, saltou sobre o vício, sobre a tragédia pessoal e sobre 18 meses de banimento por doping para conquistar uma medalha de prata no atletismo na Rio 2016. E só não levou o ouro porque o norte-americano Jeff Henderson superou sua marca por um centímetro, na última tentativa do salto em distância. Para um ex-viciado em metanfetamina que ficou afastado das pistas por quatro anos, não foi ruim.

Quando entrou para a final, sábado à noite, no Engenhão, Manyonga era mais uma incógnita do que um favorito. Tinha apenas a sexta melhor marca pessoal (8m30) entre os 12 finalistas. Concorria com o campeão olímpico em Londres-2012, o britânico Greg Rutherford, e com dois norte-americanos que registravam saltos mais de 20 centímetros superiores a seu recorde pessoal. Até seu compatriota, Rushwal Samaai, 24, tinha um retrospecto melhor.

Na página oficial com seu currículo no site da Olimpíada do Rio, há um buraco de quatro anos e meio. Depois de saltar 8m21 no Campeonato Mundial de 2011, na Coreia do Sul, o salto seguinte de Manyonga foi em março de 2016: 8m23, no campeonato africano. A carreira bissexta deriva da vida pessoal turbulenta.

Depois de vencer o campeonato mundial juvenil de salto em distância, em 2010, a carreira de Manyonga começou a pular para trás. A fama e o pouco dinheiro que conquistou aumentaram a pressão de amigos e familiares que dependiam dele. O saltador é nascido e criado em Mbekweni, na periferia da Cidade do Cabo.

O consumo de cristais de metanfetamina explodiu na região da Cidade do Cabo no fim da década passada. Tornou-se a droga mais popular. Ao ponto de as Nações Unidas caracterizarem como uma epidemia. Conhecido localmente por Tik, ela é barata, fácil de conseguir e fabricar e age rapidamente no sistema nervoso central. Fumada com um cachimbo de vidro, costuma produzir sensação de confiança e euforia, mas também é comum que leve a episódios psicóticos. É mais viciante do que o álcool.

Do uso recreativo, Manyonga saltou para o vício em Tik. Em 2012, foi pego em exame antidoping numa competição em África do Sul. Estava sujeito a uma pena mais dura, mas seu técnico e “descobridor”, Mario Smith, apresentou circunstâncias mitigantes – a vida pobre, o fato de a droga não melhorar sua performance. O saltador acabou pegando 18 meses de “gancho”. Nesse período, afundou-se ainda mais no vício.

Manyonga foi treinar em um local isolado e conseguiu os resultados necessários para se classificar para a Olimpíada. Na final, sábado à noite no Engenhão, fez o melhor salto da sua vida: 8m37. O vencedor, o norte-anericano Henderson, saltou um centímetro mais alto. “Eu pensei que tivesse conseguido, mas ele tirou de mim. Tudo bem, é apenas uma competição”, disse, agora olhando em frente. “O ontem está morto e não dá para desfazer o passado. O que acontecerá amanhã é o importante.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.