Expectativa para o vôlei

Quatro anos de trabalho para performar em 20 dias. O vôlei sabe bem disso

Ana Moser, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2016 | 03h00

O voleibol chega aos Jogos Olímpicos do Rio como sempre tem chegado nos últimos 20 anos. Desde os Jogos de Atlanta 96, entre homens e mulheres, na quadra e na praia, o vôlei do Brasil briga por medalhas. No plural mesmo, porque há seis medalhas em jogo para os seis times que irão nos representar – duas duplas de praia para cada naipe, mais as duas seleções da quadra. Todos os seis times com chance de medalha.

Pequim 2008 foi o ano com mais medalhas, quatro: duas no vôlei de praia masculino, mais as duas na quadra. Agora no Rio, quem sabe, manteremos nosso recorde ou chegaremos mais longe, ou nenhuma das alternativas anteriores. Como tudo no esporte, depende do nosso desempenho e dos adversários. A exemplo de outras modalidades, como o judô e a vela, a constância de resultados ao longo do tempo demonstra uma estrutura minimamente confiável e o trabalho contínuo de treinamento e renovação das gerações. Esta é a realidade do voleibol brasileiro e neste contexto todos contam com esses resultados.

Para quem está na ponta fazendo este trabalho, especialmente atletas e técnicos, há os dois lados a se lidar. Primeiro esta bagagem das gerações anteriores e das suas próprias conquistas. Na seleção feminina, por exemplo, mais da metade do time leva para o Rio na bagagem uma ou duas medalhas de ouro, muitas com 30 anos ou mais de idade. A seleção feminina briga pelo tricampeonato seguido e para igualar o lendário time de Cuba, enquanto o masculino também pode ser um tricampeão, no entanto em edições alternadas. 

Na praia, Larissa também é veterana, seguida, um pouco atrás, por Alison. Isto sem falar nas comissões técnicas, porque aí tem décadas de história e vitórias.

Currículos invejáveis que entrarão junto com nossos atletas nas quadras do Rio, mas que só se confirmarão se der tudo certo nos 20 dias da Olimpíada, este é o segundo fator que o nossos atletas enfrentam nesse momento. E esta é a magia do maior torneio esportivo mundial, o que o torna inigualável. Quatro anos de trabalho para performar em 20 dias. O vôlei sabe bem disso e trabalha como poucos. Trabalha para se preparar bem, para prevenir lesões, experimentar as táticas e inovar. Sim, porque mesmo depois de tantos anos, ainda acredito muito no poder de inovação que o voleibol brasileiro tem capacidade de desenvolver e surpreender o mundo. 

Os americanos, nossos maiores rivais no voleibol da quadra e da praia, têm conosco uma relação muito interessante de desenvolvimento mútuo. Na década de 80, Bebeto de Freitas, técnico da geração de prata masculina, passou anos jogando no voleibol universitário americano. Voltou para implantar um padrão de jogo na seleção brasileira que foi o primeiro boom do nosso voleibol em Los Angeles 84. Muitos anos se passaram, com grande destaque para os trabalhos de Bernardinho e Zé Roberto Guimarães. O Brasil passou a ser referência mundial, especialmente para os americanos.

Hoje em dia, na verdade já há alguns anos, os Estados Unidos estudam nosso jeito de jogar e buscam adotar os mesmos métodos de treinamento e estratégias de jogo. Não é exagero afirmar que, ao estudar a maneira do Brasil jogar, estamos ajudando no desenvolvimento do voleibol americano. 

E não somente as seleções nacionais, mas também um número elevado de técnicos de universidades e colleges americanos são influenciados pelo voleibol brasileiro e buscam nos estudar e aprender conosco. Com a diferença que, nos Estados Unidos, contamos os jogadores de voleibol talvez na casa das centenas de milhares, enquanto no Brasil talvez não cheguemos a 10 mil de atletas jogando voleibol. 

A expectativa é grande para ver qual capítulo desta história o Rio nos reserva em agosto.


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