Gaspar Nobrega|COB
Alison dos Santos, medalhista de bronze nos 400m com barreira Gaspar Nobrega|COB

Alison dos Santos, medalhista de bronze nos 400m com barreira Gaspar Nobrega|COB

Fã de tubaína e 'malvadão', Alison dos Santos vai cumprir promessa com churrasco e truco

Bronze em Tóquio, paulista de São Joaquim da Barra entra para a história do atletismo brasileiro ao faturar a primeira medalha do País nos 400m com barreiras

Felipe Rosa Mendes , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Alison dos Santos, medalhista de bronze nos 400m com barreira Gaspar Nobrega|COB

Em uma Olimpíada marcada pela preocupação com a saúde mental dos atletas, Alison dos Santos não se abalou diante da pressão de competir pela primeira vez na grande competição, em Tóquio. Com seu conhecido jeito descontraído e muito sincero, o brasileiro de apenas 21 anos chegou à medalha de bronze nos 400 metros com barreira com dancinhas, um pouco de funk e aproveitando cada oportunidade, ou melhor, "xavecando o momento", como gosta de dizer.

Em Tóquio, ele "xavecou" o momento desde as eliminatórias. As câmeras o flagraram dançando e cantando, com fones de ouvido, durante o aquecimento, cena que se tornaria corriqueira no Estádio Olímpico. Alison, ou Piu, como é mais conhecido entre os amigos, ouvia o funk "Chama o teu vulgo malvadão", da MC Jhenny.

"É muito bom levar a prova assim, mais leve. Quanto mais leve, mais rápido você corre", ensinou o brasileiro, dias antes de conquistar o bronze, com mais um recorde sul-americano (46s72) na disputa mais difícil e forte da história da prova. Teve até recorde mundial do norueguês Karsten Warholm: 45s94.

"Eu não sei o que aconteceu. Se aconteceu, eu não sei o que que foi. Só sei que isso aqui é atletismo. Acabou a prova, olhei para o telão, vi o tempo de 45s, pensei que estava na prova errada. Não é possível que isso aqui seja 400m com barreira", brincou o corredor, em entrevista ao canal SporTV, sem muito sorridente.

A dancinha, ao fim da prova, não teve. Ele prometeu exibir nova performance em suas redes sociais. No Twitter, Piu se apresenta como "Malvadão" e tenta atrair novos seguidores ao seu "bonde". "Vem comigooooo que o bonde do malvadão estão no pódio olímpico." Um dos que aderiram foi o atacante Richarlison, da seleção de futebol em Tóquio. "É o bonde do Malvadão!!!! Parabéns Alison", respondeu o jogador do Everton e artilheiro do time na Olimpíada.

Horas antes de disputar a final, o novo medalhista brasileiro pediu apoio aos seguidores. "Estaremos na pista para mais uma oportunidade, para mais um show. Xavecar o momento é o lema", lembrou, ao citar uma de suas frases favoritas.

Depois da conquista, Alison não escondia a alegria e a empolgação. Alcançada a missão de conquistar uma medalha olímpica, ele admitiu ansiedade por outra tarefa a cumprir. "Estou louco para voltar para São Joaquim da Barra (SP), jogar um truco, gritar um '6' na orelha do Gerson (seu pai)."

O truco, um dos seus hobbies preferidos, virá acompanhado, se possível, de um churrasco e muita, muita Tubaína. Fã do refrigerante produzido com guaraná, Piu fez uma promessa de só voltar a ingerir a bebida após competir em Tóquio. A negociação foi feita no início de 2020, antes do adiamento dos Jogos de Tóquio por causa da pandemia. Ou seja, o corredor ficou muito mais tempo do que imaginava sem poder beber o refrigerante favorito.

O sacrifício valeu a pena. Piu se tornou o primeiro a conquistar uma medalha em uma prova individual de pista no atletismo brasileiro em 33 anos. Os últimos haviam sido Joaquim Cruz, prata nos 800m, e Robson Caetano, bronze nos 200m, ambos no Jogos de Seul, em 1988.

No pódio, o Malvadão promete nova dancinha. Mas corre para não perder o "bonde". Sem saber que a cerimônia estava marcada para esta terça, foi pego de surpresa na zona mista. E não perdeu o rebolado e nem a chance de mostrar mais uma vez o seu lado brincalhão. "Caramba, tem que tomar banho, hein. Preciso ir lá tomar banho e trocar de roupa."

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‘Atletismo me fez ser uma pessoa diferente’, festeja Alison dos Santos após bronze em Tóquio

Com apenas 21 anos, brasileiro empolga mundo do atletismo com quebras seguidas de recordes sul-americanos

Raphael Ramos, enviado especial / Tóquio, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2021 | 02h18

Alison dos Santos ficou tão eufórico com a medalha de bronze conquistada nesta terça-feira nos 400m com barreiras nos Jogos Olímpicos de Tóquio que até se confundiu na hora dos agradecimentos. Depois que já tinha passado pela área de entrevistas, quis voltar para lembrar de todos aqueles que o ajudaram em sua trajetória até o pódio olímpico em uma prova na qual o atletismo brasileiro não tem tradição alguma e nunca havia conquistado um resultado tão expressivo como o feito de Alison.

“Foi uma prova louca, uma prova muito forte, uma prova histórica onde fizeram o que achavam que era impossível, quebrar a barreira dos 46 segundos. Três atletas correram abaixo de 47 segundos, a prova mais rápida da história, e eu fico muito feliz de estar fazendo parte disso”, disse em referência ao norueguês Karsten Warholm, campeão olímpico com direito a quebra de recorde mundial ao cravar 45s94, e ao norte-americano Rai Benjamin, prata com 46s17. Alison quebrou o recorde sul-americano com 46s72.

“Quando você está correndo não tem noção do tempo que vai fazer, mas eu sabia que a prova estava muito forte e que eu estava brigando para fazer um bom tempo, correr rápido, fazer história. Quando eu olhei o telão e vi o resultado, sabia que tinha feito minha melhor marca, fiquei muito feliz por isso”, disse.

Com apenas 21 anos, Alison chama atenção no cenário internacional desde os 16, quando passou a participar de provas contra adultos. Confiante no seu crescimento, ele já faz planos para o próximo ciclo. “A gente quer mais, evoluir cada vez mais e, quem sabe, um dia se tornar um recordista mundial”, aposta.

 

Sorridente, Alison comemorou ainda o fato de o atletismo ter mudado a sua vida. Quando tinha dez meses de idade, ele teve um acidente doméstico e sofreu queimaduras de terceiro grau em várias partes do corpo. “O atletismo me fez ser uma pessoa diferente, fez eu melhorar o meu jeito de ser, entender e me aceitar mais. Antes eu era muito tímido, tinha muita vergonha, só que hoje eu sei que isso faz parte de mim, não tem porquê eu querer ficar tímido por isso”, contou.

Entre as cicatrizes daquele acidente, ele tem falhas no cabelo que o fazem ter uma aparência de mais velho. “Não é questão de vergonha, era questão de timidez mesmo, de algum comentário que não faziam para você, mas dava para perceber que estão comentando com outras pessoas. Isso mexia um pouco e abalava um pouco a confiança. Mas o atletismo me fez entender que todos nós somos iguais. Ninguém é melhor que ninguém por nada.”

Com Alison, o atletismo brasileiro conquistou em Tóquio a sua primeira medalha.

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