Felipe Rau/Estadão
Murer inspira jovens esportistas a apostar na modalidade Felipe Rau/Estadão

Fabiana Murer inspira atletas para fazer carreira no salto com vara

Com recorde de inscrição no Troféu Brasil, modalidade repete 'efeito Guga' do tênis

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

09 de julho de 2016 | 17h03

A estudante Maria Clara Teixeira tem uma resposta incomum para a pergunta sobre o futuro, o tradicional "o que você quer ser quando crescer?" Depois de um sorriso leve e encabulado, a adolescente de 15 anos diz: "Quero ser como a Fabiana Murer".

A resposta não é tão específica quanto parece. No Troféu Brasil de Atletismo, o salto com vara, a modalidade de Murer, teve o recorde de 25 meninas inscritas na fase classificatória. Nos clubes, o movimento é o mesmo. "Está acontecendo no salto com vara o que houve com o Guga no tênis alguns anos atrás", opina Antonio Carlos Gomes, superintendente de Alto Rendimento da Confederação Brasileira de Atletismo.

Maria Clara é uma das dez meninas entre 13 e 18 anos do Instituto Elisângela Maria Adriana (IEMA), núcleo de iniciação esportiva do Centro de Treinamento da BM&F Bovespa. Depois de experimentar dez modalidades diferentes, ela se encontrou no salto com vara.

Hoje, conta que se sente motivada por treinar diariamente com a própria Fabiana, no mesmo local. "A inspiração vem das conquistas dela. Ela sempre fala com a gente, é bastante acessível", conta Nicole Caroline de Lima Barbosa, uma das atletas do Troféu Brasil e que tem contato diário com a primeira brasileira campeã mundial de salto com vara e esperança de medalha no Rio.

Fabiana treina no mesmo espaço das novatas, a geração de 2020. O Estado acompanhou as atividades da quinta-feira em São Caetano do Sul. Como diz Nicole, ela é uma campeã acessível, que conversa, dá risada e troca ideias com as meninas. Naturalmente. Volta e meia, dá uma olhadinha e uma dica.

Aí, as promessas vão ao céu. Literalmente. "Quando eu assistia na tevê, ela parecia de outro mundo. Agora tenho a chance de treinar com ela, com os mesmos equipamentos. Ela não é nariz empinado", diz a atleta Ana Carolina Dias, de 18 anos.

A leitura sugere que a proximidade diária com Fabiana e a atenção inesperada do ídolo são fundamentais para a formação de novas atletas. Não é só isso. Na Sociedade Ginástica de Porto Alegre (Sogipa), no Rio Grande do Sul, dobrou o número de saltadoras desde que Murer participou de dois torneios na região no ano passado: a Copa Gaúcha e o Campeonato Estadual de Atletismo. O número de atletas passou de oito para 19 em apenas um ano. A realidade da modalidade é essa mesma e envolve números diminutos, não é possível falar em dezenas.

Na opinião de José Haroldo, treinador chefe de atletismo da Sogipa, a figura de Fabiana Murer também explica outro fenômeno recente: a supremacia feminina nas categorias de base. No clube do Sul do País são apenas 11 meninos. "O ídolo arrasta. O exemplo encoraja. Quando ela vem aqui e conta sua história vencedora, as meninas ganham confiança para fazer também", explica.

No Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa, órgão da Secretaria de Esportes da Prefeitura de São Paulo, a proporção é de 70% de meninas e 30% de meninos na categoria sub-16. De novo, os números são modestos: dos dez atletas são sete meninas.

ÍNDICE

A confederação também deu um empurrãozinho para a popularização da modalidade. Quase literal. No Troféu Brasil, a entidade diminuiu o índice de 3,30 m para 2,90 m. A ideia era aumentar a participação dos atletas. A medida deu certo com as meninas, mas não com os meninos, que continuaram sem fase preliminar por causa do baixo número de atletas. Mesmo com esse porém, a conclusão é a mesma: mais meninas estão praticando o salto com vara.

Elson Miranda, técnico de Fabiana Murer no salto com vara, considera positivo o aumento do número de atletas, mas ressalta a necessidade de melhoria do nível técnico. "Existe um gap entre o resultado da Fabiana, da Joana (Joana Ribeiro Costa, segunda colocada e que conquistou o índice olímpico) e as marcas das outras atletas. Precisamos trabalhar para esse nível subir, e o índice vai subir também", diz Elson.

Embora esteja passos atrás no números de participantes, o masculino também produz bons resultados. Além de Anderson Dutra, que conquistou o índice olímpico com 5,81 m, Thiago Braz terminou 2015 entre os quatro melhores do mundo, com 5,92 m, mas não chegou às finais do Pan e do Mundial.

No começo desta temporada, em Berlim, o brasileiro deu a volta por cima. Superou o atual campeão olímpico e recordista mundial da prova em pista coberta, o francês Renaud Lavillenie, e ainda bateu o seu recorde sul-americano com 5,93 m, melhor marca de sua carreira. Tiago vai para os Jogos do Rio.

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Base de ginástica artística favorece desenvolvimento do salto com vara

Atletas aproveitam as noções de equilíbrio e consciência corporal para progredir

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

09 de julho de 2016 | 17h19

Fabiana Murer praticou ginástica artística dos sete aos 16 anos. Teve de parar porque seu 1,72 m de estatura era muita coisa. Em 1997, fez um teste em Campinas e foi encaminhada para o salto com vara. A bicampeã olímpica Yelena Ysinbayeva também fez caminho parecido. A transição, da ginástica para o salto, também é o início da história da maioria das meninas da modalidade no Instituto Elisângela Maria Adriana (IEMA), núcleo de iniciação esportiva do Centro de Treinamento da BM&F Bovespa.

Ingrid Messias, que treinou com Daiane dos Santos e Laís Souza, exibe uma longa cicatriz no calcanhar direito que a impediu de continuar na ginástica. Por causa da lesão, sofrida durante os treinos, ele não pôde continuar por causa da limitação dos movimentos. Passou para o salto, e está evoluindo rápido. "Eu vim apenas assistir a um treino, mas o treinador já me colocou para treinar logo no primeiro dia", diz a atleta de 20 anos.

Ana Carolina Dias vem de uma família de atletas. Seu pai também praticava salto com vara e ela o acompanhava nos treinos quando ainda era criança. Depois de começar na ginástica, sentiu que queria seguir os passos – e saltos – do pai.

A ginástica oferece uma base de conhecimentos importante para o salto com vara, principalmente em relação ao equilíbrio, consciência corporal e noção espacial. Fortalecimento do corpo, principalmente do abdômen, e rotação do quadril são alguns dos atributos que a ginástica oferece para o salto. Essa base é um diferencial, mas não imprescindível para quem está começando.

"O movimento do salto com vara é acrobático e exige grande consciência corporal", explica Alexandre Morato, professor de atletismo do Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa, órgão da Secretaria de Esportes da Prefeitura de São Paulo.

Morato explica que o salto com vara exige um treino demorado e específico. Eles começam na caixa de areia, com saltos simples, e só depois vão para o salto propriamente dito. É preciso força, coragem e domínio do corpo, como na ginástica. São necessários mais ou menos três anos para se formar um bom saltador, o primeiro deles é dedicado a outras provas fora do salto, como corrida e a própria ginástica.

Um fator que dificulta o aumento do número de praticantes é o alto custo do material esportivo, mesmo para quem está começando. Uma vara para iniciação custa cerca de R$ 2,5 mil; para os saltos mais altos, é necessário um instrumento de R$ 5 mil. Dificilmente um atleta tem apenas uma vara e precisa de no mínimo duas. Se for competir em nível nacional, o número sobe para seis varas. O problema maior é o colchão, que custa cerca de R$ 100 mil. Esses valores dificultam a formação de centros de formação em vários pontos do País. A maioria fica no Sul e Sudeste. Na Sociedade Ginástica de Porto Alegre (Sogipa), o treinador chefe José Haroldo se orgulha de ter à disposição mais de 60 varas, um verdadeiro tesouro para a modalidade.

"Conseguimos atrair vários atletas de várias cidades por causa dessa estrutura", diz.

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