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'Falta atitude vencedora para os nossos atletas', diz Robson Caetano

Ex-atleta lamenta fraco desempenho do Brasil no Pan de Toronto

Entrevista com

Robson Caetano

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

01 de agosto de 2015 | 17h00

Já se passaram 27 anos desde que Robson Caetano da Silva cravou 10 segundos nos 100 metros rasos na Cidade do México e estabeleceu um novo recorde brasileiro e sul-americano. Até hoje a marca não foi superada. Em entrevista ao Estado, o ex-atleta - bronze nos 200 m na Olimpíada de Seul (1988) e no revezamento 4x100 m nos Jogos de Atlanta (1996) - analisa o atual momento do atletismo brasileiro. 

Símbolo de uma geração de velocistas, Robson lamenta o fraco desempenho do Brasil nos Jogos Pan-Americanos de Toronto e destaca a falta de espírito vencedor da atual geração. Ele também não vê com bons olhos a consultoria do norte-americano Michael Johnson e se preocupa com o desempenho do País na Olimpíada do Rio, em 2016

O Pan de fato serve como parâmetro para a Olimpíada?

O parâmetro real será o Campeonato Mundial. Eu ainda estou esperando para fazer uma avaliação mais precisa do que a gente pode tirar para a Olimpíada dessa laranja que infelizmente não pareceu muito agradável no Pan-Americano. Se os treinadores acharam que foi um pouco abaixo do esperado, eu diria que foi nem um pouco satisfatória. As mudanças estão sendo feitas para que a equipe tenha um desempenho melhor e eu espero que isso esteja acontecendo porque a gente está investindo em expertise estrangeira. O COB está gastando com atletas medalhistas que vem de fora para dar consultoria e eu não vi progresso. Alguma coisa está faltando nesse tempero para que o atletismo tenha um desempenho um pouco melhor. Para mim, não foi bom.

O que faltou para o atletismo brasileiro em Toronto?

A qualidade está muito comprometida por conta do investimento. Eu sou de uma geração que você tinha que fazer por merecer. Hoje falam que um atleta de 19 anos é muito jovem, não é jovem. Um cara com 19 anos tem de estar pronto para a medalha, pronto para correr resultados expressivos. Nas provas de velocidade, a participação foi pífia. Atletas que foram defender seus títulos pan-americanos não conseguiram, nossos revezamentos não brilharam, a gente contou com uma desclassificação para conseguir subir do bronze para a prata. Por enquanto estou lamentando, o que falta é um pouco mais desse comprometimento, dessa atitude vencedora dos atletas. Não conversei com nenhum dos meninos para saber se isso mexeu com o brio deles, mas mexeria com o meu. Teve vento a favor nos 100 metros e os caras não conseguiram correr o resultado, eu ficaria um pouco decepcionado comigo mesmo, voltaria para casa para treinar, para me empenhar, para me entregar para fazer o melhor.

Até hoje o recorde sul-americano dos 100 metros é seu...

A gente não tem um atleta sul-americano que corra 10s17, 10s15, 10s10. A última geração que correu próximo disso foi a geração de André Domingos, que correu 10s07, mesmo assim ainda é fraco. O resultado 10s é fraco. Eu fiz há 27 anos, não foi ontem. Sou um jovem senhor de 51 anos que está vendo uma geração promissora, tem uma série de atletas que são bons, mas está faltando o pulo do gato. Se acontecesse uma competição nos Estados Unidos ou no Canadá, você canadense ou americano, contrataria uma pessoa do Brasil, mesmo sendo multi-campeão, para ser consultor técnico? Estão fazendo isso. O Michael Johnson é uma pessoa que tenho um carinho enorme, mas honestamente ele não vai entregar o ouro para um brasileiro ganhar medalha em cima de um americano. Ele está sendo consultor do time do Brasil. Existem algumas contradições, se vai ser bom para o Brasil ou não, a gente está começando a perceber que talvez não seja. 

Acha que estamos atrasados nessa preparação olímpica?

Nós passamos uma fase muito grande na entressafra. Se você sair na rua e perguntar do Robson Caetano, mesmo que as pessoas não tenham visto correr, elas lembrar do nome. Os resultados dos treinos não dão aos atletas hoje a segurança para correrem o necessário, talvez falte esse pulo do gato. Quem fez e quem sabe, não está lá fazendo com os atletas. Convocaram o Carlos Alberto Cavalheiro ao apagar das luzes para tentar resolver um problema que vem se arrastando há mais de dez anos. A gente tem que rever alguns conceitos. Infelizmente tivemos uma geração comprometida, a geração do técnico Jayme Netto, que usou substâncias ilícitas e ficou uma coisa confusa, alguns nomes se perderam no meio do caminho. Ainda acredito que a gente consiga fazer alguns nomes. A Yarisley Silva virou uma pedra no sapato da Fabiana Murer. Tecnicamente e psicologicamente, ela precisa vencer essa barreira. Vai saltar 5 metros, vai saltar 6 metros, se vira, dá seu jeito. Talvez 6 metros não seja possível, acredito até que não seja nesse século, mas vai acontecer alguma hora, está na hora de alguém fazer.

Como você vê a formação dos atletas?

O problema está na falta de planejamento fora da pista. O atleta fora da pista também tem de ser atleta. O personagem atleta não pode pensar de forma diferente do cara que está na pista, as linhas têm que estar paralelas, não dá para você ter o atleta e depois que sai da pista desliga, o atleta continua e a vida desse atleta tem que ser até mais comprometida que do cara que está dentro. A gente vive na era digital, fica no computador, no tablet até tarde, tem a namorada que está longe, tem muita distração. Minha geração não teve tantas distrações. 

Para você, como está o investimento em estrutura?

O Rio de Janeiro está em uma fase delicada neste aspecto. Perdeu o Célio de Barros, que é uma pista central e comum para vários atletas que iam lá treinar. Existe um espaço vazio, uma arquibancada que está ruindo e não recebe nenhum tipo de tratamento. A pista que sobrou aberta ao público para treinamento é a do Estádio do Botafogo, que está fechada por conta das obras e não tem como treinar. Sobraram as pistas da Aeronáutica, do Exército e uma do Mato Alto, o atleta de alto rendimento tem que se deslocar muito para treinar. Em São Paulo nem tanto, você tem uma quantidade maior de pistas, de estruturas, equipamentos de atletismo para serem utilizados. A gente não pode reclamar, mas o único fato pontual nesse aspecto é que no Rio de Janeiro, casa que vai receber o atletismo na Olimpíada, não tem local específico para os caras treinarem. Quadra de vôlei tem em tudo quanto é lugar. Talvez isso esteja atrapalhando um pouco a preparação dos atletas. De uma maneira geral, eu diria que não é ruim. Os atletas de alto rendimento vão conseguir as pistas para treinar. Mas tem que começar a pensar na base, pensar em 2020, 2024, 2028. Para 2016, o que nós temos é isso, o que a gente viu no Pan. Eu fiquei decepcionado com a nossa performance, a gente precisa reavaliar se dá tempo ou não, parar tudo agora.

O que você faria em uma situação dessa em que o Brasil ligou o sinal de alerta?

O sinal de alerta está ligado desde a última Olimpíada, desde 2012. Em 2008, o sinal de alerta já tinha sido aceso e a gente teve de conviver com desculpas. Em 2012, o sinal de alerta ficou a milhão por hora e desculpas de novo. Agora a gente está indo efetivamente para uma competição que infelizmente a crítica vai cair de pau em cima se a gente não tiver uma medalha. Tem de haver uma união e não uma cisão. Uma união entre técnico do atleta e técnico da seleção brasileira. O CT tem que ser um local em que você vai pegar o seu atleta que está dando resultado na mão daquele técnico que conhece o pulo do gato, que sabe onde tem que apertar o botão para fazer o atleta dar um gás maior. Ainda falta um pouco de humildade, rola ciúmes de alguns, o que atrapalha a preparação do atleta. A gente não sabe tudo, tem que ceder, entender que a gente está aprendendo. Do que vi e aprendi ao longo da vida como atleta e como profissional de Educação Física, posso dizer de cadeira que é preciso dar uma pincelada nesse psicológico dos atletas. Acreditar no resultado é ter atitude de campeão. Atitude vencedora não é só do atleta, é dos técnicos e de todo mundo. É bater no peito e dizer: 'Nós somos bons'. Pode perder, mas entrou para ganhar.

O que pode projetar de medalha na Olimpíada?

Se nós tivermos todas as meninas de 4x100 m inteiras, a gente vai para a final e brigar de terceiro a oitavo. No salto com vara, se a Fabiana Murer tirar esse mantra da Yarisley Silva, conquista o ouro. Nosso decatlo pode ir bem nos Jogos Olímpicos. Nosso 4x100 m masculino, é questão de confiança. Se me perguntassem: 'Robson, você confiaria a tua vida para um garoto desse chegar na final dos 100 metros?' Não, não confiaria. Não estou fazendo crítica para dizer que A ou B ou C sejam ruins. Minha crítica é construtiva para que haja um entendimento de que os caras precisam ter uma atitude de treino campeã porque se você faz bem seu treino, não precisa ter medo de nada. Vai, entra na pista, seguro de que vai fazer o resultado. Ele vai sair e ponto.

 

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