Faltou pouco

Fascinados pelas medalhas, com os olhos voltados sempre para os vencedores, talvez fiquem esquecidos nesta Olimpíada outros atletas e seleções que, no entanto, merecem elogios. O basquete, entre eles. 

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2016 | 03h00

Para um torcedor comum, parece que o time brasileiro fez uma campanha medíocre e perdeu jogos ganhos. Esse hipotético torcedor estaria errado. Primeiro, não há jogo ganho no basquete. Um esporte que trata segundos como uma eternidade não permite a sensação de que um jogo está ganho. Em basquete, três segundos são mais que suficientes para se ganhar uma partida. Nesse sentido, a derrota para a Argentina na segunda prorrogação, depois de empate no tempo normal, as derrotas apertadas nos demais jogos, inclusive contra a vice-campeã europeia, e a retumbante vitória sobre a Espanha, na verdade, dão um outro retrato da participação brasileira na competição. 

A Espanha, por exemplo, é a campeã europeia, uma das grandes forças do basquete internacional. Paradoxalmente, foi a surpreendente conduta contra poderosas seleções nos jogos iniciais que animou torcedores, mesmo os que sabiam dos difíceis adversários. Quando o time brasileiro começou a lutar e perder por placares super apertados, despertou esperanças onde já não havia quase nenhuma. 

Da esperança renovada, e logo frustrada, veio a decepção pela desclassificação. As atenções se voltaram, como sempre, para quem ainda disputa medalhas e o basquete ficou um pouco esquecido na sua derrota. A meu ver, foi uma derrota, no entanto, que nos redime de alguma maneira e nos recoloca entre as fortes equipes do mundo. O que falta para que o basquete brasileiro volte a se impor nas decisões, para que meta realmente medo nos adversários? Falta, creio, o surgimento de um grande craque. Um, apenas um, grande craque seria suficiente. 

O Brasil hoje é constituído de bons jogadores, alguns até muito bons. Mas nenhum efetivamente grande craque. E isso faz a diferença numa equipe de cinco jogadores. Normalmente, alguém que joga na NBA é confundido com um super craque. É um engano. Leandrinho, Nenê, Huertas, Raulzinho, fora os contundidos Varejão e Spliter, jogam todos na NBA. Nenhum é um grande craque. Nenhum é sequer titular dos seus times, pelos menos titulares incontestáveis. 

São jogadores de qualidade, importantes no elenco, bons jogadores, porque jogar na NBA não é para qualquer um. Suas qualidade e importância muitas vezes são infladas pelos nossos narradores que, como brasileiros, torcem por eles e, às vezes, até exageram seus méritos, o que é natural. Mas é só comparar com quem realmente é ídolo. Titular absoluto do San Antonio Spurs por longos anos, vencedor de quatro títulos da NBA, duas vezes eleito para o All Star Game, Manu Ginobili estava lá comandando a Argentina contra o Brasil, aos 39 anos. Não é mais o mesmo Manu de outros tempos, mas sua presença fundamental foi sentida exatamente nos momentos decisivos, no final do jogo e das prorrogações. Não fez nenhuma jogada inesquecível que ficasse na memória de todos os torcedores. Mas estava lá, talvez apenas como aviso ao adversário de que em quadra havia um craque, um especial. E isso faz enorme diferença. É alguém dessa dimensão que falta ao Brasil. 

Só nos resta esperar e torcer para que um dia o acaso, sempre caprichoso, faça aparecer esse craque que nos falta. Já tivemos, e muita gente ainda lembra. Na verdade, tivemos mais de um, nas Olimpíadas de Roma e Tóquio. Mas estou convencido de que basta um só jogador inconfundível para mudar o destino da equipe atual. 

O Brasil ganhou medalhas olímpicas quando havia pelo menos um craque na quadra. Um time só de bons jogadores não traz medalhas. Traz derrotas honrosas e altivas que nos consolam, mas não medalhas. Sempre vai ser por pouco, como foi desta vez. 

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