Federações atacam Rio-2016 e se dizem 'vítimas' de escolha política

Com Rio em situação de crise, COI manda equipe de emergência

Jamil Chade, Correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2016 | 09h10

As principais federações esportivas internacionais alertam que os organizadores da Rio-2016 "não fizeram o suficiente" e que "sérios problemas" ainda existem na preparação para os Jogos Olímpicos, marcado para agosto. As entidades também apontam que são "vítimas" de decisões políticas de levar o torneio para a América do Sul. Faltando apenas três meses para o evento, o COI vai enviar um grupo para permanecer na cidade brasileira na esperança de resolver a crise que, segundo os dirigentes, afeta "todos os campos de jogo".

Pressionados, os organizadores brasileiros admitem: 'as expectativas não foram atendidas de forma suficiente'. Mas garantem que todos sairão satifeitos. Agberto Guimarães, diretor esportivo do Rio-2016, assimiu que nem todas as federações tiveram suas "expectativas atendididas". "Mas agradeço a paciência e garanto que sairão felizes". Carlos Arthur Nuzman, presidente da organização, justificou o fato de que, em 2009, o cenário da escolha do Brasil para sediar o evento era "completamente diferente".

DECISÃO POLÍTICA

Numa reunião nesta terça-feira em Lausanne, as federações debateram a situação do evento no Brasil e admitem que até o presidente do COI, Thomas Bach, está "preocupado" com o futuro dos Jogos Olímpicos no Rio. Carlos Arthur Nuzman vai apresentar os avanços na preparação durante o dia. Marius Vizer, presidente da Federação Internacional de Judô, deixou claro que o evento apenas foi para o Rio por "uma decisão política". "Hoje, somos uma vítima disso", atacou. "Com todo o respeito, fomos vítimas de votos e de uma decisão política e agora precisamos limpar a história com falta de recursos. Para a próxima vez que uma sede for escolhida, as federações precisam ser consultadas antes." 

Francesco Ricci Bitti, presidente da Associação de Federações Esportivas, respondeu alertando que "todos nós fomos vítimas". "Cada uma das federações tem dificuldades. Fizemos o que pudemos", afirmou. Nuzman rebateu a crítica. "Não concordo", declarou ao ser questionado pelo Estado. Mas o brasileiro foi alvo de duras cobranças. Uma das críticas veio da Federação Internacional de Ginástica, claramente insatisfeita com o evento-teste no Rio. "Temos sérios problemas com os Jogos do Rio", disse Ron Frohlich, representante da FIG durante o encontro na manhã desta terça ao apresentar um informe do testes na semana na capital carioca.

Segundo ele, não existe abastecimento suficiente de luz diante da "falta de recursos". "Essa é uma questão de segurança", alertou, criticando também o centro de treinamento. Para ele, o lado positivo foi o "entusiasmo dos voluntários diante da situação difícil". O italiano Francesco Ricci Bitti, presidente da Associação de Federações de Esportes de Verão, concordou que o que o Rio tem feito "não é suficiente". "Eles fizeram bastante. Mas perderam detalhes muito importantes em todos os campos", criticou. Segundo Ricci Bitti, o presidente do COI, Thomas Bach, também não está satisfeito. "Ele está preocupado, como eu e você", disse o italiano ao representante da Federação de Ginástica. De acordo com ele, o COI informou às federações que vai designar grupo "de alto escalão" para viajar ao Rio de Janeiro para acompanhar a preparação e tentar resolver cada uma das crises de maneira pontual.

Ricci Bitti chegou a recomendar às federações nesta manhã que nem tentem conseguir respostas de Nuzman. "Eu acho que ele não sabe desses problemas particulares", admitiu.

EMISSÁRIO AO RIO

Um dos membros da missão enviada ao Rio será Christophe Dubi, diretor de Esportes do COI. "Ele permanecerá no Rio por algumas semanas", disse Ricci Bitti ao Estado um dia antes da eclosão da crise. Dubi admitiu que "o que tira o sono é a quantidade de trabalho que temos até agosto". Um dos problemas é o velódromo. Sem um evento prévio pelos atrasos nas obras, a opção em debate é um teste no fim de junho entre atletas de alto padrão. 

O presidente da Federação de Rúgbi, Bernard Lapasset, também aponta para a necessidade de melhorias em seu esporte no Rio. Segundo ele, a grama, a arquibancada e a iluminação do local onde vai ocorrer sua modalidade, em Deodoro, ainda preocupam. A reportagem ainda presenciou como técnicos da federação de rúgbi alertavam para os "enormes desafios" que ainda contam e da necessidade de pressionar Eduardo Paes, o prefeito do Rio, por soluções. Oficialmente, o COI garante que "ótimos progressos" foram feitos pelo Rio. Ricci Bitti, porém, indicou uma realidade diferente e apontou que, durante as visitas na semana passada ao Brasil, as federações deixaram claro que os problemas eram importantes.

Ao Estado, na segunda-feira, Ricci Bitti admitiu que "no Rio, esse número de questões a serem resolvidas é maior que nas edições passadas dos Jogos". Ironizando, ele apontou a "cultura do último minuto" fortemente desenvolvida no Brasil.

IMPEACHMENT

O encontro ainda foi marcado por dúvidas sobre o futuro político do Brasil. "Queremos saber sobre o impacto e possíveis riscos do impeachment da presidente Dilma para o evento", questionou Matt Smith, da Federação de Remo. Nuzman respondeu que "não teremos qualquer tipo de problemas em relação a isso". "Não estamos envolvidos e os Jogos vão ocorrer de forma normal". Após o evento, procurado por uma agência internacional de notícias e o Estado, Nuzman disse que não falaria do impeachment da presidente e de seu impacto. Mas questionado sobre quem levaria a tocha olímpica quando ela chegar ao Brasil, fez um silêncio e apenas respondeu: "isso não me diz respeito". 

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