Força extra

Como nem todos os times botam fé em pai de santo, alguém pode levar vantagem

Fernando Paulino Neto, O Estado de S.Paulo

18 Agosto 2016 | 03h27

Alguns franceses mergulharam ao longo da história em um Brasil profundo para conhecer suas raízes, tentar entender a formação de um povo. O primeiro a tornar pública a época inicial desta construção foi o pintor Jean Baptiste Debret. Ele integrou a missão artística francesa que se instalou no Rio de Janeiro. Veio a mando do príncipe regente D. João, que alguns anos antes, dando um drible na iminente invasão de Portugal por Napoleão Bonaparte, transferiu a corte para o outro lado do Atlântico.

Debret desembarcou no porto do Rio em 1816. Até 1831, retratou em suas famosas aquarelas, que publicou com suas observações no clássico livro Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. Ele mostrou à Europa um país jovem, onde os portugueses procuravam se vestir com o esmero europeu e transitavam pela cidade em liteiras carregadas por escravos, que também os abanavam para aplacar o incômodo calor dos trópicos. Com seus traços delicados e acurados, evidenciou o flagelo dos escravos, açoitados no pelourinho. Mas também uma miscigenação na casa grande, onde as senhoras se apegavam aos filhos dos escravos. Assim como retratou as primeiras festas populares do Carnaval, com negros pintando seus rostos de branco, Debret desenhou, ainda, o índio, elemento seminal da formação do brasileiro.

O olhar quase jornalístico das aquarelas e do texto do pintor francês são alguns dos mais preciosos elementos para entender aquele período histórico. Pouco mais de um século depois, em 1946, outro francês, cidadão do mundo, deu com os costados na Bahia. Assim como Debret, trabalhava com as imagens. O fotógrafo errava pelo mundo havia 14 anos e, seduzido pela Boa Terra, fixou residência. Foi seduzido pela religiosidade africana dos personagens de suas fotos incomparáveis. Pierre Verger tornou-se um estudioso e acreditava que o candomblé era a fonte da vitalidade do povo baiano.

No início do ano olímpico de 2016, morreu na Baixada Fluminense Gisèle Cossard Binon. Marroquina, filha de franceses, escritora e antropóloga, iniciou-se no candomblé na cidade de Duque de Caxias. Em 1974, estabeleceu-se definitivamente na Baixada onde mantinha terreiro. Omindarewá, o nome que adotou, era conhecida pelos tantos que frequentaram a sua casa como “a mãe de santo francesa”. Os Jogos começaram mal para as religiões de matriz africana. Antes mesmo da chegada das delegações estrangeiras ao País, os organizadores anunciaram que no centro ecumênico da Vila Olímpica haveria espaço para o cristianismo, islamismo, judaísmo, hinduísmo e budismo. A reação foi indignada, lembrando os séculos de discriminação das religiões africanas no Brasil. O COI disse que não era possível agradar a todos. E vida que segue.

Com o andar das competições, a saia-justa do centro ecumênico foi deixada para trás. Até o jornal Le Monde atribuir a “forças místicas, quem sabe aquelas do candomblé, religião africana ainda implantada sobre certa terra” a superação de Thiago Braz para conquistar o ouro no salto com vara, superando o francês Renaud Lavillenie. O técnico de Lavillenie, Philippe d’Encausse disse que “este País é bizarro”. País bizarro ou não, o fato é que, depois dos problemas no centro ecumênico, e no mesmo dia em que foram levadas a público as ilações sobre a vitória de Thiago Braz, dois representantes da Bahia chegaram ao pódio com conquistas inéditas. Robson Conceição, ouro no boxe, e Isaquias Queiroz, prata na canoagem. Vitórias, sem dúvida, da vitalidade e da força do povo baiano. Força esta que Verger creditava ao candomblé.

Se os orixás trabalharam ou não pelas vitórias de Robson e Isaquias (e, por que não, do paulista Thiago Braz), não se pode saber ao certo. Diz o velho ditado que “se macumba ganhasse jogo, o Campeonato Baiano acabava empatado”. Deve ser. Como nem todos os times botam fé em pai de santo, alguém pode levar vantagem.

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