França passa informações e Abin admite ajuste em planos para Rio-2016

França entrega inteligência sobre Estado Islâmico ao Brasil

Jamil Chade - Correspondente em Genebra, O Estado de S. Paulo

21 de julho de 2016 | 13h20

A França entrega ao Brasil informações confidenciais sobre o atentado terrorista de Nice, sobre o Estado Islâmico, e as autoridades brasileiras agora irão ajustar os planos de inteligência e segurança para os Jogos Olímpicos. Nos últimos dois dias, o diretor de Contraterrorismo da Abin, Luiz Alberto Santos Sallaberry, esteve em reuniões em Paris. Falando à imprensa, ele admitiu que o Brasil recebe e avalia "dezenas de supostas ameaças" por dia. Mas garantiu que o País "está preparado". 

"O objetivo principal da nossa viagem foi ampliar o nível de cooperação, especialmente neste momento, e buscar as expertises dos processos de investigação tanto na área de inteligência como na área policial", explicou Sallaberry. "Viemos principalmente entender o modus operandi de como o atentado de Nice ocorreu. Isso gera uma série de modos operandi novos e que interessam aos órgãos que estão fazendo o enfrentamento do combate ao terrorismo", disse. 

Nos últimos dias, os serviços de inteligência da França solicitaram ao Brasil um reforço na segurança de escolas e delegações. Paris ainda vai deslocar dois funcionários do serviço de inteligência para Brasília e outros dois ao Rio. Para a Abin, isso é "normal". "Pense em um país que acabou de sofrer um flagelo como foi este em Nice, e estamos há pouco mais de 15 dias dos Jogos. Sempre trazem em seu bojo uma possibilidade de ações desta natureza", disse Sallaberry.

A Abin, porém, garante que os planos nacionais são "robustos". "Pequenos ajustes podem ser necessários. Vamos ver qual a expertise da França sobre o atentado de Nice, vamos levar estas informações às nossas autoridades para que tomem as decisões que acharem mais adequadas", disse. 

A delegação brasileira ainda contou com o coordenador de Análise e oficial de inteligência Ronaldo Zonato Esteves, e coordenador-adjunto do Centro Integrado Antiterrorismo, o delegado da Polícia Federal Camilo Graziani Caetano Paes de Almeida. Em Paris, eles se reuniram com a Direção Geral de Segurança Exterior e Interior, com a Direção de Inteligência Militar e com a Unidade de Coordenação da Luta Anti-terrorista. 

"Viemos aqui para ver se, fruto do que ocorreu, há a necessidade de completar alguma área. Não estou dizendo que existem falhas no planejamento. Mas podemos agregar maior qualidade", afirmou.  

Segundo Sallaberry,  o volume de informação coletada pelo Brasil "é muito grande". "Vamos pensar melhor nas informações que recebemos, para ver qual a melhor forma de lidar com isso. Certamente estamos saindo daqui com um conjunto de informações que são especialmente importantes para o trabalho de inteligência e de segurança para os Jogos Olímpicos", disse. 

De acordo com a Abin, a apuração feita pelos franceses sobre o que ocorreu em Nice está avançada. "Isso nos ajuda a olhar por outros enfoques esse fenômeno que a cada dia nos surpreende, por uma forma diferente de atuar", explicou. Mas o diretor alertou que "não existe uma receita única de bolo" para lidar com o terrorismo. "É por isso viemos conhecer a experiência em Nice, o que facilita nosso processo de identificar caminhos alternativos para enchergar atos que possam ter essa natureza", disse. 

AMEAÇAS

De acordo com o chefe da Abin, a principal ameaça ainda nos Jogos é a da atuação de "lobos solitários", indivíduos que atuariam de forma isolada e com grande impacto. "Essa é uma tendência mundial. Hoje, isso se coloca como o principal desafio para as áreas de inteligência e segurança", explicou. 

O diretor da Abin admitiu que o Brasil recebe "dezenas de supostas ameaças por dia". "Avaliamos com critério, e todas aquelas que têm uma necessidade de investigação são minuciosamente investigadas", disse. Ele, porém, alerta para a divulgação de informações não oficiais e tratadas como "verdade". 

"Isso vai gerar um tipo de inquietude e de alarmismo na sociedade que não é bom para ninguém neste momento. Especialmente neste momento", alertou. "Denuncias e registros que vem pela imprensa e por outros fontes são dezenas por dia. Aquelas que avaliamos são aquelas que tem grau de profundidade maior, Fazemos uma investigação de inteligência e se necessário de polícia judiciaria também", explicou. 

A Abin também tentou tranquilizar os franceses. "A mensagem que passamos é de tranquilidade para as delegações, de que todas as estruturas dos eixos que envolvem a prevenção ao terrorismo estão muito próximas de tudo que existe de melhor no mundo para combater este tipo de fenômeno. Estamos efetivamente preparados para a possibilidade de enfrentamento de uma ação desta natureza", garantiu.

O oficial de inteligência negou que o presidente francês, François Hollande, ganhará uma segurança extra. "Todos os dignitários terão o mesmo nível de segurança e da área de inteligência. O planejamento nao pode privilegiar entes de uma forma direta", disse. 

Ele ainda apontou que o Brasil não tem diferentes níveis de alerta sobre o terrorismo. Mas insistiu que fechar sites e outras medidas de prevenção devem ser o centro do trabalho. "Tudo o que for legalmente permitido, fazemos. Fazemos prevenção e é ai que temos de nos esforçar", completou. 

 

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