Reprodução/CBG
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Ginastas do mundo inteiro denunciam a cultura de abuso em seu esporte

Cultura está sendo questionada por atletas olímpicas e ginastas de todo o mundo depois de um despertar nos Estados Unidos

Juliet Macur, New York Times

03 de agosto de 2020 | 16h20

Uma cultura que tolera que os treinadores menosprezem, manipulem e, em alguns casos, abusem fisicamente de jovens atletas está sendo questionada por atletas olímpicas e ginastas de todo o mundo depois de um despertar nos Estados Unidos.

Nas últimas semanas, muitas competidoras da ativa e de tempos antigos, encorajadas por suas colegas americanas, quebraram o silêncio contra o tratamento que, segundo elas, deixou nas garotas cicatrizes mentais que duraram até a idade adulta.

Uma ginasta de apenas 8 anos de idade disse que uma treinadora amarrou seus pulsos a uma barra horizontal quando ela tinha 7 anos e a ignorou enquanto ela chorava de dor.

Numa época em que a Olimpíada de Tóquio estariam ocorrendo, caso a pandemia de coronavírus não as houvesse adiado até 2021, as ginastas vêm compartilhando histórias horríveis sobre seus treinadores, que as fizeram sentir vergonha do próprio corpo, sufocaram suas emoções, usaram punição corporal e as forçaram a treinar mesmo quando lesionadas, valendo-se do argumento da busca por medalhas para racionalizar seu comportamento absurdo.

Chloe Gilliland, 29 anos, ex-integrante da seleção australiana, lembrou-se que seus treinadores diziam que ela era “uma criança ruim” e “um perigo” para o próprio corpo, porque era muito pesada. Aos 17 anos, ela pensou em se matar porque, disse no Instagram, “sentia que era mais fácil acabar com minha própria vida do que ceder ao que eles queriam que eu fosse”.

Catherine Lyons, de 19 anos, que já foi uma das principais competidoras juniores da Grã-Bretanha, disse que os treinadores batiam nela e a xingavam por causa de seu peso. E que, quando ela tinha 7 ou 8 anos, chorava tanto que os treinadores a trancavam dentro de um armário até ela se recompor. Mais tarde, ela disse, soube que tinha transtorno de estresse pós-traumático por causa do tratamento. Ela disse à ITV News: “Eu não valia nada. Eu não era um ser humano. Era uma mercadoria, não uma criança”.

Outras ginastas simplesmente disseram nas redes sociais: “Eu sou uma delas”.

As histórias de ginastas em todos os níveis do esporte fazem parte de um esforço coordenado, semelhante ao movimento #MeToo, que está pedindo aos dirigentes do esporte que erradiquem práticas que não são nem um pouco normais.

“Muitas vezes me falaram que as ginastas deveriam ser vistas e não ouvidas, porque o esporte é basicamente ser uma boa ginasta”, disse Lisa Mason, atleta olímpica britânica que foi uma das ginastas a falar recentemente.

Mason, de 38 anos, disse que seus treinadores jogavam sapatos nela e a arranhavam quando ela não tinha um desempenho perfeito. Certa vez, ela foi obrigada a ficar nas barras assimétricas até que suas mãos se rasgarem e se encherem de bolhas. Depois, um treinador pegou suas mãos e derramou álcool sobre as feridas vivas, disse ela na sexta-feira, em entrevista.

Olhando para trás, Mason chamou a atmosfera de “insana”, especialmente porque as ginastas que começam a treinar sério desde muito cedo e muitas vezes são deixadas sozinhas com os treinadores.

“Estamos fartas da normalização do abuso que nos disseram que era necessário para formar campeãs”, disse Mason. “Queremos mudanças, e é espetacular que tantas de nós estejamos nos unindo para exigir isso”.

As ginastas fizeram impacto. As federações nacionais de ginástica na Grã-Bretanha, Austrália, Holanda e Bélgica iniciaram ou solicitaram investigações sobre supostos abusos. A federação holandesa disse que suspenderia todo o programa da equipe nacional feminina para buscar respostas.

Jennifer Pinches, atleta olímpica britânica dos jogos de 2012, disse na sexta-feira que esse mais recente esforço global para mudar o esporte foi desencadeado por um documentário da Netflix, ‘Athlete A’, que retrata o treinamento angustiante das ginastas de elite dos Estados Unidos e os encobrimentos em torno do escândalo de abuso sexual que envolveu o médico de longa data da equipe de ginástica americana, Larry Nassar.

“Foi um ponto de inflexão que permitiu esse movimento”, disse Pinches, que viu o filme quando foi lançado, no final de junho, e convenceu mais de trinta ginastas britânicas, entre elas Mason, a postar uma declaração conjunta nas redes sociais condenando “a cultura que não colocou a saúde e o bem-estar das atletas em primeiro lugar e permitiu que Nassar agisse”. Mason, que já havia publicado um comentário contundente no Instagram sobre a cultura do esporte, sugeriu que o grupo usasse a hashtag #GymnastAlliance. Agora, existem mais de 700 postagens com tags relacionadas apenas no Instagram.

Nos Estados Unidos, Jennifer Sey, campeã nacional de 1986 e uma das produtoras de ‘Athlete A’, ficou espantada de ver que o filme levou tantas atletas a vir a público falar sobre suas experiências, especialmente quando as atletas tinham vivido oportunidades anteriores de falar.

Nos últimos 25 anos, houve vários livros sobre abuso no esporte, incluindo um da própria Sey, em 2008. Também houve audiências de Nassar em 2018, durante as quais mais de 150 garotas e mulheres contaram que ele as molestava. Muitas disseram que a cultura do medo e do silêncio as tornou vulneráveis aos abusos de Nassar.

Em abril, Maggie Haney, que treinou a atleta olímpica Laurie Hernandez e outras ginastas, foi suspensa por oito anos pela USA Gymnastics por abusar e maltratar verbalmente as atletas. Foi uma das primeiras vezes – se não a primeira – que uma das principais treinadoras americanas foi punida por esse tipo de abuso.

No entanto, as ginastas viram este momento de 2020 como a situação perfeita para promover transformações em todo mundo sobre o abuso não-sexual no esporte.

“Desta vez, você não pode dizer que as acusações são contra apenas uma maçã ruim, um técnico ruim ou um sistema ruim e aí descartá-las”, disse Sey. “Acho que muitas dessas mulheres que vieram a público continuaram sofrendo por causa do tratamento cruel de seus treinadores e não querem mais sofrer. Elas também não querem que as gerações futuras sofram”.

O momento faz sentido para Cheryl Cooky, professora associada da Purdue University e socióloga que estuda gênero e esportes.

“As pessoas estão refletindo mais sobre suas vidas durante a pandemia e, para as atletas, não é hora de Olimpíadas, nem de se concentrar apenas no seu esporte”, disse ela. “Elas podem passar mais tempo lembrando e pensando em algumas questões filosóficas ou existenciais importantes”.

O próximo passo, disse Mason, a atleta olímpica britânica, é o esporte criar uma maneira de as atletas denunciarem abusos a uma organização independente, sem medo de sofrer represálias de sua federação ou de seus treinadores, que têm o poder de deixá-las de fora das principais equipes, como a equipe nacional ou olímpica. Muitas atletas que se vieram a público recentemente disseram a Mason que não confiavam que os dirigentes do esporte de fato investigariam os treinadores.

Ainda assim, Mason espera que mais ginastas exijam mudanças no esporte. Ela disse que ouviu muitas ginastas que vinham treinando para os Jogos de Tóquio e que, por isso, disseram que não falariam publicamente sobre os abusos até que as Olimpíadas terminassem. Elas não querem comprometer as chances de serem escolhidas para a equipe olímpica, disse ela.

Essas competidoras são apenas algumas das muitas mulheres que procuraram Mason para compartilhar suas experiências e desabafar desde que ela fez um post sobre ‘Athlete A’. Elas dizem que não se sentem mais tão assustadas nem sozinhas.

“Temos uma grande chance de mudar o esporte, porque muitas de nós finalmente estão sendo ouvidas”, disse Mason. “Somos muitas e somos tão barulhentas que vocês não vão poder nos ignorar”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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